Abismo de Rosas -Fábio Lima ao violão

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

 


 Há quanto tempo... Torna-se cada vez mais difícil colocar aqui neste espaço algumas palavras. O que devo dizer? Preciso continuar minha missão...




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Mais um Natal que chega, desta vez vestido de cinza, sem aquele toque tradicional de magia e festa como sempre costumamos esperar e sentir. 2020 foi um ano surpreendente e ao mesmo tempo de mudança de vida, mas os hábitos que surgiram foram desagradáveis: uso de máscaras, excesso de cuidados de higiene, coisas que foram nos distanciando obrigatoriamente do costumeiro conviver com as pessoas, troca de afetos e carinho. O gelo da distância marcou ainda mais e foi afastando pouco a pouco os seres em todos os setores: no trabalho, na família, nas reuniões sociais e afetivas.

Ah, e o malfadado grupo de risco! Quanto medo, quanta orientação e presença diária de slogans e depoimentos massivos que mataram muita gente de medo  e de depressão ...

Não pudemos oferecer apoio moral à família, comparecendo para dar o último adeus àqueles que nos eram caros. 

Desta vez, não houve um alerta que sempre me avisa de que o ano está acabando e que o Natal se aproxima,  como avistar de repente lojas com produtos natalinos à venda em exposição ou propagandas anunciando a chegada da festa.

O trabalho antes tão próximo de alunos jovens e adolescentes tornou-se tão vazio, tão vago, resumindo-se a imagens  que pouco a pouco foram desaparecendo das câmeras para dar lugar a fotos ou iniciais congeladas inexpressivas e estáticas.  Os áudios foram silenciando para muitos que preferiam usar chats e escrever ao invés de falar.

Salas enormes foram se extinguindo para dar lugar a cinco ou seis participantes, o que ainda trazia imensa felicidade porque nos  faziam acreditar que alguns discípulos confiavam no árduo trabalho do professor. Reuniões exaustivas na profissão que triplicavam  o volume de trabalho, cansando sobremaneira, muito mais do que da forma presencial como era dantes...

Trabalhos maravilhosos presenciais de teatro, musicais e de dança resumiram-se a podcasts feitos com grande sacrifício para reunir a todos.

Não sei como explicar, mas esse ano não haverá Natal. Não como sempre foi, com a liberdade de expansão de sentimentos, comunicação e confraternização. A miséria econômica gerada pelo desemprego massivo, será responsável por menos sorrisos nos rostinhos infantis, menor acolhida àqueles que já não podem mandar um desafio a um novo ideal pelo avançado da idade...

        As mudanças não serão estáticas, não terminarão com a chegada de uma tão aguardada vacina... Sinto que uma brusca alteração na ordem das coisas, será um processo contínuo, um domínio do tecnológico em detrimento do humano, anunciando friamente que o fantasma da automação que se iniciara no passado,  agora solidifica-se e vem para ficar, tomando espaço maior empurrando o artesanal, a ação humana para segundo plano, exibindo vaidosamente sua superioridade amedrontadora  na perfeição artificial, breve substituta de  muitos ofícios que dependiam outrora do ser humano.

É um Natal de meditação, de preocupação com o  futuro, em que a consciência social não trará ajuda ante a monstruosa proporção da crise que se avizinha e progressivamente dá seus passos assustadores...Elevemos nosso pensamento aos céus esperando o melhor, que nada disso se torne realidade, amém ...




quinta-feira, 15 de outubro de 2020

 O  dia de hoje é especial, dia do professor. O meu dia!  15 de outubro sempre esteve tão presente na maior parte da minha vida que agora aposentada e trabalhando como professora novamente,  nada melhor do que refletir e escrever sobre ele. A figura de professor é por várias vezes comparado a um semeador, não de flores, mas  a semente do exemplo, do ensinamento, do esclarecimento, da luz que acaba com as trevas da ignorância e do mal. Parabéns a todos os professores, mas somente àqueles que procuram ser mestres de verdade, sem egoísmos, sem vaidade, sem reclamações. A despeito da sua condição pouco favorável e quase sempre irreconhecida do seu mérito, que o prazer de semear invada a sua vida, e lhes encha a alma de felicidade e satisfação do dever cumprido!



Alguém já disse uma vez:" Semeia, semeia mestre. No grande Cosmo, tu és semeador, tu és a presença, a pessoa. Não podes fugir à responsabilidade de semear... Não digas o solo é áspero...O sol queima...Não é tua função julgar a terra, o tempo, as coisas. Tua missão é semear."
Mais importante do que a semente a ser lançada no solo, é o exemplo que tens a dar.Sobretudo o exemplo da importância de dar amor. Hoje lanças o germe, joga-o na terra inculta e seca e todos os dias rega-a  para que ela se reproduza, cresça e dê lindas flores para enfeitar a vida e dar alegria às pessoas.
Se ela não vingar, por ter caído entre pedras, ou em ambiente árido, não te desesperes: tenha a certeza de que seu exemplo de humildade ao lançá-la sem presunção, será visto  e admirado.
Porque aquele que cultiva  amor, com amor será recompensado. Aquele que ensina a amar, por todos será amado. Aquele que age com simplicidade por todos será entendido.
Não creias que tua missão é fácil, ela é uma das mais difíceis tarefas que existem na face da terra. Por vezes terás medo de não conseguir lançar a semente, por outras, muitos obstáculos deverão ser transpostos para que possas semear.
Procure conhecer o solo em que trabalhas, sem contudo discriminar este ou aquele chão: na tua função de mestre e ao mesmo tempo aprendiz; se julgas, muitas vezes poderás errar sendo surpreendido com uma bela flor que nasce em campo  estéril e infértil. Na tua profissão de preparador de solo é teu dever cuidar dele adubando-o e regando-o até que se torne apropriado para o plantio, bem como é tua missão saber que todo o chão pode produzir diferentes tipos de flores, desde que não descuides dele.
Não demonstres preferências ou apego a determinado solo, semeia em todos eles para que obtenhas um vasto jardim florido.
Não reclames das dificuldades e das adversidades, se há muitas pedras no teu caminho, procure retirá-las com paciência e determinação; se a semente cai entre a vegetação impiedosa que tenta sufocá-la e impedir que nasça, ajuda-a para que respire e cresça, assim como é teu dever separar a boa semente da erva daninha que nunca deve ser lançada devendo ser arrancada quando necessário, se nascer entre as flores.
E nunca se esqueça:
O bom ensinamento transforma, lapida, fortalece. O bom exemplo será seguido e multiplicado. O altruísmo da tua ação salvará a Terra e todos os homens que nela vivem...

domingo, 14 de junho de 2020

Fala-se muito em racismo, preconceito de cor, raça. Entretanto, creiam,o pior deles é o de classe social. Sofremos diariamente com isso e, particularmente em mim, calou-me fundo desde à infância através da figura de minha mãe...




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Fantasia de fitas

Vai longe o tempo, lá pelos idos de 1957 ou 58 quando comecei a me entender como gente. Ouvia sempre os queixumes de minha mãe, mulher mais trabalhadeira como aquela nunca vi em toda minha vida!
É, ela dizia num reclamar quase lamento, nunca me valorizaram. Meu sogro dizia sempre: vou dar os móveis de presente de casametno, só que, "conforme a noiva,serão os móveis". 
E assim havia sido, mobília simples para uma noiva de família pobre como ela. Que diferença para o presente da filha, requintado e caro naquela época. Isso foi tornando minha mãe uma pessoa amarga, baixa autoestima, angustiada. Doutra vez, lembro-me por volta de meus nove anos, necessitei de uma cirurgia; apendicite crônica; e ela costurando naquela semana inteira, trabalhando em lindo pijaminha branco de alpaca com detalhes de vivos verde-água nos bolsos da camisa e da calça. Mãos de fada, caprichosíssima em detalhes e acabamento, mas logo minha avó paterna chega em casa, e não lhe quero mal, absolutamente, que Deus a tenha em sua glória, uma vez que partiu há muito desta para uma melhor, ou pior, sei lá... Ao ver o pijama semiacabado que minha mãe labutava por terminar, pôs-se a chorar copiosamente, nos deixando constrangidos pela sua comoção enquanto pranteava e dizia entre soluços: "Não, não deixarei minha neta operar com um pijama desses, de forma alguma". Amanhã mesmo, irei ao bazar da Moda, (era um desses lugares frequentados por pessoas mais abastadas, economicamente na época em Araçatuba, residíamos lá por esse tempo) comprarei pijamas. Senti a decepção de minha mãe em seus bonitos olhos verdes que teimavam em segurar uma lágrima e, acho que desde essa época, ela foi se desvalorizando...
No dia seguinte, a caixa foi entregue com dois pijamas de jérsei (lembro-me até hoje, minha memória é fotográfica, não sei se isso é bom ou ruim), que nem se comparavam ao trabalho que estava fazendo, manualmente, muito mais valoroso e mesmo de melhor qualidade. E a frase que veio acompanhada com os pijamas, feriu mais do que navalha: "veja se se compara a esses trapos que você estava fazendo". 
Chorei muito, mas muito mesmo, ao ver o desalento e submissão de minha mãe, esperava que dissesse: "não, ela não vai usar esses pijamas, pode levar de volta, os meus são melhores, muito obrigada!". Contudo, abandonou seu trabalho, e lá estava eu no hospital com os tais pijamas de jérsei. Ah, como gostaria de dizer a minha mãe que essa foi uma lição ruim que ela me passou: não se dar valor.
 Gostaria de afirmar do fundo do meu coração, isso não se faz. Chegou um Carnaval, todas as primas com lindas fantasias compradas em bazares de prestígio da cidade e minha mãe, mais uma vez com suas mãos maravilhosas costurou uma fantasia de havaiana, lembro-me com detalhes: o cós era vermelho, se não me engano, e trazia preso nele várias fitas coloridas que iam até o comprimento do joelho, um top na mesma linha, muito bonitinho, enfim, qualquer criança no vigor da infância é muito linda. Entretanto,a fantasia era maravilhosa! 
E lá fomos nós para um clube da cidade chamado Clube dos Bancários. Não me recordo bem desse detalhe, mas vou inquirir minha mãe, ela deve ter pago para que entrasse no clube, não tínhamos posse, nem vida social de falsos ricos, meu pai era assalariado e dava duro em um frigorífico trabalhando e fazendo hora-extra para nos dar o sustento. 
Uma das primas, na verdade, filha adotiva de minha avó paterna, veio por obrigação nos cumprimentar rapidamente dizendo:"Que fantasia linda!" E logo se distanciou com as amigas em trajes luxuosos de dama antiga, sombrinha em rendas, cabelos arrumados, lindo vestido longo, espartilho e anquinhas, um luxo! Para minha mãe, isso foi o suficiente. Vi o resultado daquela observação rápida estampado em seu semblante onde o desânimo tomou lugar. 
Como criança que era, não percebi esse desprezo que ela disse estar no inconveniente comentário e o distanciamento rápido com  as amigas.
Isso calou fundo na alma de minha mãe. Sempre se acha inferior, isto fez com que preferisse se  afastar da vida social e familiar. Hoje, depois de bem amadurecida e calejada pelo efeito do tempo, a entendo perfeitamente! E tenho a dizer, que a pior forma de acabar com alguém é diminuir sua capacidade tendo como parâmetro a fútil vida social, a valorização do inútil e das convenções sociais, que passam por cima de sentimentos e valores preciosos que deveriam ser respeitados!

domingo, 24 de maio de 2020

Quanto tempo sem escrever nesse espaço... Não é falta de inspiração, é de tempo mesmo! Aliado ao desânimo de ter que escolher temas que não contrariem ideologias atuais... Sim, não há verdadeiramente uma liberdade na escolha de temas que devemos escrever, isso tolhe a criatividade, mesmo em um caderno aparentemente solitário como um blog. Mas hoje optei por uma crônica que volta a outro cotidiano mais antigo ...




Violão Seizi Tokyo | Folk | Eletro Acústico | Brown Burst - BarraMusic




Por onde você andará? 


Assistindo a um programa cultural erudito, coisa difícil de se garimpar nesses terríveis dias que estamos vivendo, onde o tema pandemia se repete nem digo diariamente, mas instantaneamente, o solista de violão, por sinal perfeito, de sobrenome Camarero interpretou uma linda melodia, composta pelo saudoso Dilermano Reis.
Como a nossa mente associa os fatos! Esse é um exemplo gritante de associação de ideias: de Dilermano, a Abismo de Rosas, música maravilhosa interpretada ao violão que muitos relacionam a temas bucólicos, sertanejos... Entretanto, a sonoridade, o conjunto harmonioso, carregado de tristeza, embala nosso espírito e nos leva muito longe no tempo e no espaço...
 E foi o que aconteceu comigo. Deixei de ouvir a TV, numa viagem pelo tempo, encontrei-me em um trem de ferro na década dos anos finais de 1960, contava então com meus róseos 15 anos, em todo o vigor da juventude! Por incrível que pareça, ainda me lembro da roupa que usava: um conjunto na cor ocre ou mostarda, composto por uma calça comprida, boca de sino e uma blusa sem manga, decote V, ornada com três sutaches coloridos a acompanhar o desenho da cava do decote. Várias pessoas da família acompanhavam a minha viagem até a cidade de Corumbá, Mato Grosso do Sul. Além de meus pais e irmão, minha avó paterna, um primo e meu namorado. Ao chegar ao destino, conheceria meu avô paterno, há muitos anos separado de minha avó. Ficaria hospedada na casa de um tio, irmão de meu pai e aproveitaríamos para uma consulta, digo, quase espiritual, com uma senhora chamada Cacilda, famosa por fazer curas milagrosas naqueles tempos. A fama dela crescera tanto, que todos iriam consultá-la, cada qual com seu problema de saúde. Mas isso não vem ao caso nesse relato.  
A viagem, sufocante, um calor abrasador e o trem acabava de quebrar pela segunda vez. O tédio, o desânimo  tomava conta de todos nós. Por sorte, meu namorado trouxera o violão, estávamos arranhando algumas músicas populares da nossa adolescência, quando ele se manifestou humilde, voz baixa, cabelos alongados, à moda da época, rosto simpático:
-Posso? - referindo-se ao violão.
Passamos o violão e com a habilidade de um virtuoso ele começou a tocar Abismo de Rosas. Fez-se silêncio mortal no vagão parado. Cada acorde tocava mais a alma, produzindo as mais variadas emoções. Não sei se a mim, um pessoa sempre muito sensível, apaixonada pela música erudita desde criança, quase me levava às lágrimas. Quando terminou, todos o aplaudiram comovidos, ele agradeceu tímido, sem soberba ou vaidade. Desceria logo, o trem já estava em movimento e logo chegou a Campo Grande, onde desceu. Nem me lembro do seu nome, contudo, ficou um vazio, uma lacuna  inexplicável no ar, que até hoje me frustra por nunca mais ter encontrado aquele artista silencioso.
Casada atualmente,  na idade madura, rosto marcado pelas experiências vividas,   depois de tanto tempo, ainda me pego cismando e pintando aquela cena, para mim emocionante e me pergunto, se estará vivo, morto, casado, solteiro,  sem a certeza de uma resposta concreta. Terá continuado  com sua música e seu talento? Ou tudo terá sido abandonado?
Na incerteza, uma única certeza, creiam, ele salvou aquela viagem enfadonha! 

terça-feira, 17 de dezembro de 2019



Boa-noite,

A falta de inspiração, inúmeras vezes nos leva a pesquisar temas diferentes e aleatórios para desenvolver, sem compromisso algum. Isto ocorre agora comigo. No intervalo de uma semana da comemoração do Natal, não encontro um assunto relevante para desenvolver, já postei uma mensagem  natalina...


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Recorrendo a um site de busca na internet, verifiquei que a data de hoje faz alusão à religiosidade, uma vez que é dia de São Lázaro. Eu, particularmente, uma católica de batismo, crisma e algumas missas apenas, desconhecia a vida desse personagem da história bíblica...
Li também, que no dia 17 de dezembro se comemora o aniversário do famoso compositor Ludwig Van Beethoven, do importante escritor brasileiro Érico Veríssimo, além do Papa Francisco.
Todos esses ícones são de grande valor para a história do mundo, contudo, alguma coisa já foi ouvida sobre eles. Assim, resolvi me deter na história de São Lázaro, por curiosidade e durante a pesquisa me perguntava, se seria o mesmo Lázaro que, segundo a Bíblia, Cristo ressuscitara.
Descobri que é a mesma pessoa, Lázaro, cujo nome traz a etimologia grega e significa Eleazar na língua hebraica, quer dizer “Deus ajudou”. 
Era um fervoroso e adepto da doutrina de Cristo, oferecia sua casa para reuniões clandestinas da fé cristã, tão condenadas e perseguidas na época. No período, residia próximo a Jerusalém, na cidade de Betânia, era irmão de Marta e Maria e a amizade que existia entre ele e o salvador do mundo era muito profunda. Tão profunda, que quando ele morreu, Cristo chorou e realizou um grande milagre; o da ressurreição de Lázaro após vários dias de sepulcro.
Os registros históricos ainda comentam sobre a ida dele para Lamaca, na ilha de Chipre, tornando-se um bispo da igreja católica; da menção a dois túmulos para sua pessoa, uma vez que voltou da morte e, o mais surpreendente que não se trata de um leproso, cuja associação foi erroneamente considerada durante muito tempo.
Fico então a me perguntar a respeito da veracidade destes fatos tão perdidos no tempo e no espaço. Como crer neles, sem questioná-los, após inúmeras mudanças de postura que sofrem...
Muitos afirmam que é o mesmo Lázaro, o leproso, o ignorado e isolado homem condenado ao convívio de todos pela sua doença altamente contagiosa e sem cura na época.
Que me perdoe a Igreja Católica, porém torna-se difícil acreditar na vida de todos esses santos e na verdade sobre suas vidas. Talvez, mesmo não sendo prováveis esses episódios, a grande lição que ele nos passa é a da lealdade  acima de tudo, colocando em risco a própria vida a serviço da amizade.
Sendo este Lázaro, aquele que sofreu com a Hanseníase, fica a mensagem de um tempo cruel, sem recursos ou avanço da ciência, onde o reverso da medalha apresenta um quadro de discriminação desumana aos infelizes portadores dessa moléstia, relegando-os ao isolamento e exclusão da sociedade. 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019









E eis que outro Natal se avizinha, amarrado, lento, a passos de tartaruga...


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 Todo o Natal chega despercebido para mim, sempre acontece assim: muitos afazeres; a profissão exige demais e paga muito pouco pela quantidade de tarefas,  e a responsabilidade que elas encerram. Afinal, ser professor consciente não é serviço fácil, principalmente na atualidade, onde se tem a percepção da desvalorização do magistério a cada dia que passa. Um trabalho praticamente invisível para o estado, dificilmente suportado pelos alunos que não têm mais a disposição e vontade de desenvolver um currículo pesado como é necessário para a luta da vida profissional. Infelizmente, convivemos diariamente com casos escabrosos de discentes que mal conseguem escrever com letra cursiva razoável (aliás, diga-se de passagem, um problema de alfabetização que acompanhará o indivíduo por toda uma vida). Aprendi com a própria vida não ficar lamentando: em breve, acredito seriamente no fim da letra cursiva, apenas a digitação virtual restará...
Mas não estou aqui a escrever nestas páginas para enumerar as mazelas da educação, pois a matéria renderia um livro de muitas páginas... Iniciei citando o porquê da minha surpresa de todos os anos perante os primeiros ares natalinos.
Não consigo obter tempo suficiente para tudo que tenho que fazer nesta época: compra de presentes para todos, arrumação de enfeites e decoração, (consegui com dificuldade armar a pequena árvore e pendurar uma guirlanda semiartesanal na porta da entrada do apartamento); limpeza de casa, afinal, a festa de Natal será aqui em casa, dia 24; casa cheia para o almoço, graças a Deus. Dessa forma, tudo deverá estar organizado e limpo.
É preciso força, garra e saúde para dar conta de tudo nestes meus 68 anos... Entretanto, vou conseguindo com paciência, força de vontade. Não tive ainda tempo livre para fazer tudo o que preciso, geralmente as férias escolares vão começar já com o Natal batendo  à nossa porta. Aí sim, ele chega rápido, parecendo propositalmente nos deixar uma maratona para preparar tudo...
Volto a afirmar que isso não é  o mais importante, fazer uma ceia, um almoço, ter a árvore repleta de mimos e presentes que serão oferecidos àqueles que nos são caros, mesa farta e casa em ordem...
Há a grande necessidade de que o coração seja limpo, a alma seja pura, a consciência social esteja presente para o entendimento de  que a muitos não será possível nem sequer um alimento decente para colocar na boca, e isso muito me oprime e entristece: pessoas jogadas como lixo pelas ruas, subvivendo de migalhas, de esmolas, corrompendo o corpo e a mente para conseguir enfrentar a pesada jornada da vida.
Principalmente no Natal, não deve haver espaço para futilidades materiais de que muitos se ocupam; deve ser momento de reflexão, voltado a buscar formas de mudança para uma vida coletiva melhor. E a Educação que poderia realizar esse milagre, entregue às moscas e às traças por descuidos e despreparos de administração pública, pela negligência e ociosidade de muitos profissionais da área... Olha eu de novo batendo na mesma tecla, já disse que o assunto aqui é Natal...
Outro detalhe que borra a felicidade completa nesse dia de festa é a falta daqueles que já se foram, que fazem pesar a sua ausência e que são motivo de lembrança por um simples detalhe que aparece à mesa, ou na casa de maneira geral... Uma flor no vaso, um sorriso simpático, uma piada oportuna...
A vida é assim. Curta, passageira e carregada de momentos mais tristes do que alegres, (sabedoria daqueles que já passaram da idade adulta). Porém, para os mais jovens, é sinônimo de felicidade,  (percepção infanto-juvenil que enxerga o mundo cor de rosa e maravilhoso). E como é bom ter a ilusão da infância e da juventude! Ainda, em minhas reminiscências, guardo na memória os Natais de outrora sem nenhuma mácula, dor ou tristeza...
Contudo, é essencial que a vida continue, que a despeito de nossos sentimentos, respeitemos o desejo e necessidade de todos, que comemoremos com entusiasmo a paixão pela vida enquanto ainda a temos. Feliz Natal para o mundo e que tempos melhores consigam chegar para todos!

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Boa-noite. O texto de hoje é a respeito da demolição de um imóvel cuja ação visualizei hoje a caminho do trabalho...

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Sonhos desfeitos

Dirigia pela Rua Araguaya  no cruzamento com a Carnot, no bairro do Pari, trajeto que faço rotineiramente em direção à escola onde leciono, quando para minha surpresa, o sobrado da esquina mostrava o seu interior semidestruído, a exibir um cenário de entulhos amontoados ao longo da sala. Eram pedaços de parede, largos tijolos amontoados, resquício dos bons tempos, época em que os materiais usados, de maneira geral, eram muito superiores em qualidade.
Confesso que me senti incomodada e por  que não dizer, entristecida com a ausência visceral daquela moradia que visualizava todos os dias ao passar por ali. O congestionamento favoreceu minhas divagações sobre aquele acontecimento e me acompanharam por todo o caminho. 
Uma casa carrega em seu interior muitas vivências, inúmeras passagens: alegres, tristes, engraçadas ou fúnebres. Traz na sua construção , primeiramente, um mundo de expectativa, de sonhos que finalmente se concretizam e realizam as pessoas que tanto lutaram para conseguir um ideal, tão difícil nesses nossos dias, quase impossível para muitos.
Quantas surpresas agradáveis, confraternização entre famílias, horas de amor, mas também de desespero, desafetos  e separações... Isso é toda uma vida! Por esse motivo, não consigo me conformar com demolições, pois dão o fim em  histórias de vida. Ao deixar de existir, uma construção dessas jamais sobreviverá na lembrança daqueles que a habitaram. Como dizia o poeta Toquinho, " uma aquarela que um dia enfim, descolorirá"... 
Por enquanto, ainda não vi esse dissabor acontecer com a casa de minha infância e pré-adolescência, que continua a mesma na minha doce cidade natal, Araçatuba e espero nunca vislumbrar tal fato. Entretanto, esse triste evento ocorreu em um velho sobrado (dizem que tombado...) na região da Avenida Brigadeiro Luís Antônio com a  Paulista. Era alugado, ali passamos pelo menos dois anos, meu filho abrira uma pizzaria ao lado, e , todos convivíamos diariamente sob aquele velho, mas amigo teto... Ainda tenho na memória o desenho de seus cômodos, o velho piano na sala, onde na época aprendia e ensaiava a valsa maravilhosa de Ernesto Nazareth, "Coração que sente". Foi por aquela época, em 2010, que nasceu minha netinha. Logo nos mudamos, porque os negócios não iam bem e vimos com pesar, após algum tempo, a casa ser praticamente derrubada, ficando apenas o seu esqueleto. Foi transformada em uma grande loja comercial. Até hoje quando passo por lá, sinto um aperto no coração por não ver mais aquela imagem que nos abrigou durante algum tempo.
Não deveriam haver demolições, em hipótese alguma, deveriam acontecer...Por que isso ocorre? Venda do imóvel, certamente, falta de conservação e manutenção, vaidade, desejo de modernização... São muitos os motivos, mas para mim, nenhum deles justifica essa violência contra a memória e a vida e meu coração assim como o do magnífico Nazareth é um coração que sente...

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Estive em Ouro Preto e Mariana há dois ou três anos, nas férias de junho. Minas é um lugar apaixonante, diga-se de passagem. As paisagens naturais, o caráter histórico das cidades nos fazem voltar no tempo, numa imersão ao passado, uma coisa impressionante. Com tanta beleza natural, não se pode entender como tragédias que acontecem e ainda acontecerão por lá, podem ser permitidas... O texto de hoje vai relembrar momentos tristes vividos pelo povo mineiro.



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A cidade de Mariana fica próximo a Ouro Preto em Minas Gerais. Em novembro de 2015, uma tragédia inesperada e inaceitável levou 19 vidas. Quase quatro anos depois, em 25 de janeiro de 2019, outro triste evento do mesmo tipo na cidade de Brumadinho, causou a morte de centenas de pessoas.
Tanto a Samarco, responsável pelo primeira ocorrência,  quanto a Vale do Rio Doce são mineradoras poderosas financeira e politicamente, sendo que a última explora 70% dos minérios como ferro, do Brasil. O questionamento que se faz, primeiramente é de ordem existencial e ecológica: por qual razão o homem vem exagerando na extração de recursos da terra; uma loucura e avidez por status e poder dominou o cérebro humano e quanto maior a empresa, mais insaciável é o seu desejo de obter mais e mais lucro. Os próprios políticos não têm mais autonomia e dependentes de outros mercados afirmam diariamente a necessidade de crescimento do país, e nessa roda-viva, nesse afã de correr em busca de poder, não há mais tempo nem vontade de reflexão, de análise de ações, quais as consequências que essas atitudes acarretarão a longo e médio prazo para o planeta e para a natureza. 
A vida humana não é mais cuidada, sua segurança parece ser de pouca importância, uma vez que não houve precaução ou prevenção desses acidentes como forma de evitá-los. Os pobres trabalhadores do entorno que diariamente ofereciam seu trabalho foram simplesmente engolidos por uma cachoeira de lama, suas residências soterradas, a vida dos sobreviventes destruída pela tristeza de perder parentes e amigos que nunca mais voltarão, além de se verem privados de seus recursos hídricos, em sua grande parte poluídos pelos rejeitos de minério... 
Atualmente, todos se esqueceram, pois a dor só não passa para quem sente na pele, e viveu toda aquela catástrofe. As responsáveis tentaram, como sempre, comprar as vítimas sobreviventes, oferecendo dinheiro e benefícios, entretanto, jamais poderão repor as vidas que se foram... A mídia cumpriu seu papel de forma pouco eficiente, pois deteve-se a mostrar sensacionalisticamente, entrevistas antiéticas, com pessoas que perderam familiares, interrogando-as em momentos inoportunos e pouco agradáveis, buscando apenas elevar sua audiência aos níveis mais altos. Em nenhum momento, cobrou das mineradoras, entrevistas que esclarecessem seu descaso em prevenção, ausência que gerou o triste episódio.
A sordidez é tal, que hoje, em muitos canais de televisão há como que um comercial favorável à mineradora Vale, o qual exibe uma lista de benefícios que a empresa vem fazendo para reparar seu dano, que diga-se de passagem, é irreparável. Sabemos que a mídia só se importa com sua posição no ibope e por esse motivo, já nem se lembrará mais de entrevistar qualquer um dos sobreviventes da tragédia para saber como está subvivendo sem seus parentes próximos, sem a pureza de sua água, sem seus bens adquiridos com tanto esforço...
E assim vamos assistindo no Brasil, do palco da destruição, a subida vertiginosa de empoderados, aqueles que vivem da miséria alheia, explorando a natureza sem respeito algum, outros que produzem informação de má qualidade que favorecem e dão voz apenas a quem detém o poder. O estado de Minas e outros tantos que conservam represas, que se cuidem, porque não há garantia alguma de que outras calamidades como essas não voltem a acontecer. 
Se podemos apontar alguma solução é no sentido de cobrar dos nossos candidatos eleitos pelo voto direto, uma atitude mais séria e sensata que valorize a vida humana e a ética no trato do meio ambiente. Quanto à mídia massiva e podre, podemos resolver de forma muito mais simples: privando-lhe a audiência, em sinal de consideração àqueles que foram aviltados e privados do seu bem mais precioso: a convivência diária com seus entes queridos.