sábado, 21 de fevereiro de 2026



 Ontem... 




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Cansei-me de escrever crônicas do cotidiano. 

Não que não aprecie; esse gênero sempre leva involuntariamente à pesquisa de um assunto, por mais banal que ele possa parecer.  Porém, são nos passeios da memória, que não são poucos durante todos esses anos vividos, que encontro o prazer infinito de reviver momentos felizes, tristes, dolorosos ou engraçados.

Sei que muitos podem não querer ler assuntos e emoções que pertenceram a outros, e alguns podem até sentir gosto em conhecê-los e se identificar com eles. A motivação que guia minha mente e mãos nesses instantes não soa como uma obrigação de bater o ponto  em escrever em um blog um tanto abandonado como anda o meu, entretanto, ao reviver, relembrar fatos que já se foram ao sabor da brisa do tempo, é como renascer, sentir a sensação de pertencimento total a um espaço físico social e cultural que, infelizmente, não existe mais atualmente em grande parte devido à idade e a desintegração com a cidade onde nasci, cresci e adolesci (será outro neologismo?), cujas visitas anuais que faço, geralmente uma por ano, não é o suficiente para uma convivência substantiva, conservadora  e integradora se não houvesse me mudado de lá, apesar de ser melhor do que nada, encontrar de vez em quando amigos de mais de 60 anos...

A título de informação, acabo de pesquisar e esse termo "adolesci" já existe , portanto, não é neologismo. Do verbo adolescer, no Pretérito Perfeito do Indicativo, significando a época em que alguém entrou na adolescência, que se diga de passagem é o melhor período da vida humana, excluindo-se  as aborrescências e transtornos que causamos a nossos pais; é a época do sonho e mistura da realidade, do fantástico, do amor idealizado, dos sentimentos mais fortes, profundos e sinceros! O mais incrível é a intensidade com que vivemos e tratamos essas emoções.

A despeito de todas essas lembranças que já se apagaram como bolhas de sabão, o que me impulsionou a escrever hoje foi uma personagem futurística que muitas pessoas têm em sua casa hoje: Alexa, um objeto que carrega informações de todas as épocas e que em segundos atende suas solicitações. E tudo começou quando pedi a ela que tocasse músicas orquestrais de Billy Vaughn, desconhecidas para os jovens, porém tão comuns na minha juventude  quando bando de jovens lotavam os clubes para se divertirem em bailes grandiosos, onde sempre esse tipo de música estava presente. Além disso, existiam várias orquestras que ilustravam esses salões e cenas de filmes pelo mundo afora, como Ray Conniff e sua orquestra, Frank Pourcel, Bill Haley e seus cometas, e muitos outros como pequenos conjuntos de cantores, hoje chamados de bandas brilharam como Os Incriveis, Golden Boys, Renato e seus Blue Caps, The Platters  (meus preferidos) e tantos outros.

Mas quando Alexa atendeu ao meu pedido, a primeira faixa foi a música Crepúsculo de Billy Vaughn e, instantaneamente, meu espírito deslocou-se no tempo e no espaço, transportando-me para a minha antiga residência em Araçatuba, nos meus doze anos de idade. A música maravilhosa encheu meus ouvidos quando meu pai colocou o disco na vitrola, apaixonado por música orquestral de quem herdei esse gosto. Essa música calou fundo e acompanhou a minha adolescência e hoje me traz reminiscências de um passado maravilhoso.

E agora, ouvindo novamente Crepúsculo após muitos anos começo a me questionar: 'Como nunca pensei um pouco sobre a vida sofrida de meu pai? Talvez porque ele sempre contava episódios tristes da sua vida em forma de humor para não nos entristecer. Relembrei o fato que ele citara o quão é difícil para uma criança não ter um pai verdadeiro que dê aos filhos amor de verdade, uma vez que fora criado aos auspícios de um padrasto severo que tinha um açougue e lhe colocava às costas, grandes fardos de carne para serem entregues nas residências, cujo peso fazia com que andasse com dificuldade. Em outra ocasião, aos dez anos de idade,  do medo que passara ao ter que entrar pelo necrotério para entregar carne em um hospital!

Hoje, adulta, vivida, compreendo a felicidade que tive ao nascer, ser criada e educada por pai verdadeiro, que me amou e fez de tudo para me ver feliz.

E você, meu pai, que tanto orou e pediu a Deus pela felicidade de todo o mundo já não está ao meu lado...

Fico questionando e te pergunto, mesmo sem ter sua resposta: "Existiu realmente o Xangri-Lá, o paraíso divino como sempre achou que houvesse após o desligamento da vida ou tudo se  acabou e nem pode responder?

Saiba que enquanto eu existir, essa sua lembrança terna permanecerá comigo pelo resto dos meus dias...