sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Sala de aula - local de estudo ou de ascensão social?

É sempre bom conversar com os pré-adolescentes, principalmente os  dessa geração, cuja inteligência digital aflora em conclusões rápidas e coerentes. O diálogo com minha netinha  foi um dos motivos que me levou a escrever sobre esse tema, o outro foi a experiência de 35 anos no magistério...



Sala de aula - personagem importante no desenvolvimento humano



Sempre me pergunto sobre o papel que a sala de aula representa para as crianças, adolescentes e adultos. Muitos dirão que é o local de aprendizagem e não posso dizer que não, porém os conhecimentos específicos que ali são desenvolvidos não estão em primeiro lugar da pirâmede para os alunos. Existe como o próprio *Bordieu afirmava, um desejo de ascensão social, porque ninguém pode negar que ela encerra um grupo em constante interação e o mais importante: a busca por classificação; ou você lidera, assume uma posição de destaque ou se isola, não se integra, e procura outros subgrupos de menos prestígio para se relacionar. 

A hierarquia ali presente traz a figura do professor como líder, entretanto, os  novos parâmetros e rumos que a Educação tomou coloca os alunos em evidência, agrupados ou não, em posição privilegiada. Recordo-me dos meus tempos de aluna, já bastante  distantes em que a disciplina e a ordem eram obrigatórias, havia o medo de errar, a ansiedade por melhores notas, a luta interna para conter-se e não expressar livremente  anseios e revoltas, uma vez que qualquer atitude indisciplinar gerava expulsão, assim como reprovação por três anos consecutivos ocasionava o jubilamento, que nada mais era que a exclusão de qualquer escola pública; apenas as particulares acolhiam o aluno nesse caso, o que na época, causava o desprestígio da escola privada em detrimento da pública que tinha o conceito de excelência pela população. Apesar de todas exigências no setor da educação na década de 60 e 70, era visível a projeção de certos alunos dentro da escola, fosse por porte físico privilegiado, por pertencimento a familias de prestígio na esfera social da cidade ou até mesmo, por aproveitamento e desempenho escolar. Nesse sentido, lembro-me de uma aluna que não vou citar o nome, que causou grande impacto, digo até alvoroço em nossa turma com sua transferência para o nosso grupo: havia um comentário, diria até um alvoroço; uma explosão de disse-me-disses sobre ela no aspecto físico, independência feminina e carisma.Assim que chegou, revelou-se dominante e admirada garantindo seu status de líder. Desde o curso primário, hoje chamado de Fundamental 1, destaquei-me não por porte físico; era uma pessoa bastante comum, extrovertida, apreciadora de literatura, música e poesia o que me impulsionavam a declamar em todas as solenidades e comemorações cívicas,  tornando-me em consequência bastante conhecida na escola que frequentava, o que foi diminuindo no ginásio, hoje Fundamental 2, uma vez que comemorações cívicas resumiam-se mais em desfiles acompanhados da fanfarra em que tive oportunidade de participar. Como obtivesse sempre excelentes notas no primário era sempre elogiada e colocada em posição de destaque. De memorização rápida, participamos eu e um colega até de um certame na rádio local, um concurso de perguntas muito acompanhado pela população escolar. De algum modo, consegui manter meu lugar na hierarquia social. Agora me pergunto: e aqueles discentes sem desempenho relevante, de baixa classe econômica, sem porte físico marcante e comportamento introvertido, que tipo de classificação recebem ou recebiam? Algo inevitável e injusto, todos são seres humanos.

Atualmente tudo mudou, a maneira como se vê educação hoje difere radicalmente, o desenvolvimento no aspecto social apesar de ser um dos principais motivos que impulsionam a educação, não são suficientes para evitar bullying, cyberbullying, violência verbal e até  física, haja vista a liberdade de expressão de que os alunos dispõem, até o ponto de desrespeitar, agredir e até matar seus professores, direção e funcionários envolvidos no processo.  Mais de três décadas no magistério público estadual possibilitam essas conclusões e constatações feitas aqui por essa autora. 

Mesmo com toda essa estrutura, alguns educadores mais ousados arriscam-se a indispor-se contra o sistema batendo de frente com o problema, agredindo alunos e funcionários tentando manter seu status de líder da pirâmide educacional. Há aqueles que desrespeitam os direitos discentes, avançando além da sua função assediando moralmente e até sexualmente seus discípulos. Uma grande parte, felizmente, cumpre sua árdua missão de entregar muito e receber pouco como retorno, seja no caráter financeiro, afetivo e reconhecimento da dignidade que a profissão envolve.  

As escolas privadas não são diferentes, contudo apresentam  uma particularidade gritante: a necessidade de manter a clientela a qualquer custo, principalmente em tempos de competição capitalista selvagem, até diria. Nesse caso, os professores são praticamente obrigados a dar atenção a todos, valorizar  veladamente alunos provenientes de famílias com maior poder aquisitivo. Para que mantenha seu emprego nessas instituições o professor deve ser totalmente ético, neutro em suas ideologias, seguidor comprometido do projeto pedagógico da escola em que trabalha. Quanto aos alunos dessas escolas, o caráter do ter sobrepõe-se sobre o ser, de forma que os de classe social mais favorecida predominam, exibindo produtos e acessórios de prestígio determinados pela grife e poder aquisitivo. Os demais alunos de classes em ascensão ou emergentes  absorvem a cultura vigente e sofrem na tentativa de acompanhar e até ultrapassar os primeiros. Os mais pobres conseguem ocupar os mais baixos patamares, são vítimas de bulying e levam por toda a vida uma baixa autoestima, apenas superada por esforço próprio ou a poder de sessões de análise conduzidas por um profissional.  

Em todas as salas de aula, não importa a qual categoria pertença, há intrínseca uma problemática geradora de insatisfação, de classificação e desclassificação de pessoas e grupos, de rotulações infinitas, julgamentos. O habitus citado por Bordieu em suas pesquisas impulsiona as ações humanas e estas são baseadas em aprendizagem no próprio lar ou com a sociedade, infelizmente, daí afloram os preconceitos de raça, cor, credo e religião e estereótipos diversos como a xenofobia entre outros. A sala de aula é muito importante, pensem sobre isso.

  

*Bordieu 1930-2002. Pierre Félix Bordieu foi um sociólogo francês de origem campesina. Foi filósofo de formação e docente na École de Sociologie du Collège de France. Um grande pensador.

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quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Linguagem digital x encontro presencial

 Parece incrível, mas as mudanças que ocorreram após o século XX, são relevantes no aspecto da interação humana, ressaltando-se que até um tempo atrás os diálogos só aconteciam de forma presencial, hoje...




A atualidade  nos reserva coisas novas que já se tornaram hábitos: o diálogo digital, feito de forma on-line, tão presente nas redes sociais, palestras, conferências, aulas... No início de sua utilização, causava estranheza, desconforto, agora se mostra como uma necessidade. O processo do distanciamento social de caráter físico difundiu-se principalmente durante a pandemia;  uma mola impulsionadora de grande poder que aproximou as pessoas de uma forma diferente, imaterial, porém, como única maneira de proporcionar comunicação entre todos os setores da sociedade, salientando-se que o discurso à distância revela uma grande vantagem perante o contato presencial: não é prejudicado pela barreira do espaço físico uma vez que podemos interagir com cidadãos de qualquer lugar do planeta.

Mas não foi esse o motivo que me levou a criar esse texto. O objetivo é mostrar que a medida que usamos essa linguagem virtual e nos habituamos a ela, verificamos o quão eficiente nos tornamos no sentido de entender o interlocutor do outro lado da tela,  seus sentimentos, sua raiva, o seu contentamento, tédio. Aprendemos com a conversa diária a descobrir o que há por trás das entrelinhas, o que cada internauta pensa, conclui, seus sentimentos e emoções seja pela própria pontuação utilizada, pelo tipo de fonte usada, pela ironia constante nas frases, pelo que deixam de escrever...

Os leitores devem participar de redes sociais e entender o que estou a dizer aqui, quem de vocês já não postou um comentário qualquer,  seja em Facebook, Instagram, Twitter entre outros; quem não está inserido em um grupo de Whatsapp? Este pela convivência diária com os mesmos integrantes nos tornam verdadeiros psicólogos, gestaltistas com um poder de análise surpreendente. Ali são descobertos, os líderes, vaidosos, orgulhosos, hipócritas, os displicentes, tímidos,  os sinceros, os invejosos, os carentes...

Percebemos por exemplo, quando há cumprimentos para aniversariantes aqueles que deixam de parabenizá-lo, ou elogiam demasiadamente apenas alguns dos integrantes, em detrimento de outros. Há quem manipule os diálogos chamando à atenção só para si, não dando importância ao que os demais dizem ou postam. São coisas até divertidas de se observarem. Alguns usam de ironia nos falsos elogios com a finalidade de ferir outros e há até os diálogos agressivos, que usam a linguagem de forma crítica em relação  a algum comentário feito pela pessoa que não apreciam. Há quem necessite de ser amparado, ouvido em suas fraquezas e tropeços pela vida... Muitos se ausentam por não se identificar com os outros, e, felizmente há quem seja sincero, simpático e verdadeiro  em sua conduta. 

Lembrei-me aqui de uma visita que fiz ao blog de um seguidor e o assunto que ele desenvolvia era sobre a atividade de ciclismo urbano, no qual houve a citação de um ciclista que havia cruzado grandes avenidas de São Paulo fora das ciclovias. Postei apenas um comentário ressaltando a coragem daquele cidadão, a realizar tal trajeto, comparando à roleta russa que poderia até levá-lo a acidentes de percurso, quando do nada, alguém que não conhecia não gostou do comentário e iniciamos uma verdadeira guerra verbal de opiniões. De nada adiantava dizer que, infelizmente, não há o devido respeito ao ciclista por parte dos veículos de grande porte, a outra parte usava um discurso agressivo que desceu à mediocridade quando revelou-se chulo, repleto de palavrões, tendo como consequência à exclusão dos seus comentários pelo administrador do blog. Acredito que isso aconteça quando alguém perde em uma discussão, não aceita essa perda, passando a insultar seu parceiro. 

Voltando ao Whatsapp, ocorre ainda que alguns participantes adoram dar lições de moral repassando longos vídeos e geralmente não seguem nada do que ali é exposto, fazendo exatamente o contrário; mensagens que pregam a humildade quando o quem postou é extremamente orgulhoso; por vezes, egoístas exibem mensagens de altruísmo e solidariedade que não condizem com suas atitudes percebidas mesmo no diálogo virtual.

Enfim, tenho pensado  seriamente sobre isso. Chego a associar a participação nestes grupos com  Reality shows tão apreciados por telespectadores hoje:  só sobrevivem  até o final, aqueles que conseguem revelar valores que convençam de sua sinceridade, simpatia, humildade e autenticidade, os demais são excluídos. No grupo de relacionamento à distância é a mesma situação, muitos saem por não apresentar jogo de cintura, amabilidade, humildade ou sinceridade no trato pessoal ou não se sentirem aceitos pelos demais participantes.  

Chego à conclusão  de que o contato virtual realizado nos grupos de internet não são muito diferentes daqueles em que nos relacionamos presencialmente, o ser humano é complexo e nunca conseguiremos entendê-lo em toda a sua psiquê, aí reside a beleza e a motivação da vida, é preciso uma luta diária no sentido de construirmos um mundo melhor, mais sincero e empático. 

  









quarta-feira, 16 de novembro de 2022

As pérolas do ENEM

Após quase 35 anos a serviço da educação, como professora de línguas da rede pública estadual, acredito estar apta a escrever sobre o assunto.





 

Por longos anos, a tentativa de descobrir antecipadamente o tema a ser abordado neste exame foi em vão. Acredito que isto tenha ocorrido com  muitos professores como eu; fiquei sabendo que muitos educadores, professores de cursinhos preparatórios para os vestibulares do país chegam ao ponto de seguirem literalmente os passos dos preparadores da prova, descobrindo que bancas de jornais frequentam, a  que programas assistem, que livros leem, nessa tentativa; uma investigação infindável cujo intento quase sempre é infrutífero.

Verifico que a cada ano o nível cultural e de desenvolvimento dos alunos decai terrivelmente e apesar dos slogans pregarem o contrário, é assustador o grau a que projetos curriculares utópicos aliados a falta de atitude e envolvimento intelectual dos alunos e  incompetência docente em vários casos  têm levado grande parcela de nossos jovens das escolas públicas estaduais; incapazes de elaborar um parágrafo sequer em uma linguagem formal que apresente correção gramatical. Nem sequer frases coesas e coerentes  fazem parte do seu discurso escrito,  pobre e muito aquém do que o Exame cobra, o que me deixa terrivelmente triste perante a impotência de atitude a que o professor é submetido perante os parâmetros curriculares impostos pela Secretaria da Educação. Abro aqui um parênteses para incluir outros vilões responsáveis pela decadência de conhecimentos linguísticos e de outras áreas: as redes sociais e mídia em geral. O conteúdo digital que chega através da internet é imenso e grande parte dele de muito boa qualidade, ocorre que esse tipo de leitura formal contida em artigos científicos, arte, reportagens sérias que não vêm carregadas de ideologias políticas há muito deixou de interessar o jovem pelo próprio distanciamento que ele apresenta desse tipo de padrão linguístico. E, regra geral, não há interesse em algo que não conseguimos compreender. As consequências são graves e colorem um quadro dantesco no campo educacional, pois os adolescentes entregam-se ao lazer das redes sociais, satisfazendo-se com a enorme quantidade de jogos e sites de relacionamento, utilizando da linguagem do internetês, sem obrigatoriedade da correção gramatical, já que esse discurso é um misto de linguagem coloquial, abreviaturas, siglas em inglês e outros recursos, bastante distante do que é cobrado em avaliações externas.   Em muitos casos, os jovens aventuram-se pela dark internet, geradora de verdadeiros monstros sociais, haja vista  não apresentar regulação legal, ética ou valores dignos do ser humano. Os programas televisivos pouco apresentam de novo, repetitivos, muito pouco oferecem em qualidade e cultura. Reafirmo a impotência do professor como agente de mudanças necessárias na área da educação primeiramente quanto ao conteúdo programático, pois  quanto à carga horária disponibilizada pelo sistema às aulas de Língua Portuguesa, atualmente, mostra um número de aulas satisfatório, uma vez que são oferecidas diariamente, o mesmo não acontecendo em Língua Inglesa; apenas duas aulinhas semanais e exclusão da disciplina em alguma série do Ensino Médio. Apesar das grandes mudanças de cunho social que envolveram todas as áreas da Educação, uma delas, não pôde e não pode ser mudada: a qualidade da linguagem. Pela sua  própria efetividade responsável na compreensão, padronização de caráter prestigiado nas áreas científicas, o padrão formal torna-se  uma obrigação e ponto. Falando sob conteúdos do currículo de Línguas,  todo educador se vê envolvido e praticamente obrigado a cumprir planos de caráter puramente, perdoem o neologismo, "polititesco": comemoração das mesmas datas durante todo o ensino básico; coisas que alunos já estão cansados de saber através da mídia massiva que exibe diuturnamente os mesmos exaustivos e enfadonhos temas, não saindo do mesmismo de sempre. Obviamente, se temos esses projetos a desenvolver é notório que cada um deles envolverá grande parte das aulas na confecção de cartazes e outras atividades em detrimento do exercício da construção e reconstrução de texto específicamente formal,  extremamente criterioso que ocuparia todas as aulas e ainda, em alguns casos, dependendo da dificuldade do aluno seria insuficiente. Grande número de  instituições privadas e estaduais, da atualidade,  formadoras de professores na área de Letras, não os capacitam para esse fim. Por experiência própria e diálogos com esses profissionais, depreende-se que não conhecem gramática de estilo, figuras de linguagem; gramatica normativa, ortoépia, prosódia, grafia; sintaxe de colocação, concordância, regência entre outras. Por que os grandes homens da educação, criadores de currículo, instituições inteiras público-privadas  não veem isso? Usam um tapa-olho ou são obrigados a usá-los? Como permitir a oferta desse tipo de formação medíocre? Já adentraram em uma sala de aula? Porque qualquer leigo que observe os seus próprios filhos, evidencia a fraca competênica desenvolvida nas instituições públicas e grande parte das particulares no âmbito de linguagens principalmente. Nessas últimas, os pais sofrem para custear um filho apenas para obter maior atenção e garantia de segurança, não que toda a rede estatal esteja entregue às traças,  mas grande parte realmente deixa muito a desejar. Durante as aulas, uma parcela considerável de educadores dedica-se apenas a conduzir seus discípulos a absorverem a sua própria ideologia política, não respeitando a individualidade, a vontade e o espírito de análise crítica do discente. Isso é tão forte, que os próprios gestores não têm a força necessária para impedi-los. O resultado reflete-se no nível de conhecimento, no desinteresse, ausência do exercício na disciplina específica, além de visão unilateral do mundo. Fanatismo de tipo algum produz excelência. 

Esse assunto merecia uma Conferência entre todos os envolvidos, com cartas na mesa, jogo duro, orientação na cultura da educação, noções de altruísmo; um mestre não é colocado nesse posto nobre para induzir, obrigar alguém a pensar como ele. O tema desse ENEM 2022 não poderia ser diferente pelo andar da carruagem socialista que tomou conta de todo o mundo e por que não dizer de todo o processo educacional:  "Desafios para a valorização de comunidades e povos tradicionais do Brasil". Um misto da área de história, geografia física e política com viés sociológico.  Apesar de ser  apologeticamente apresentado com base numa reportagem da jornalista Vivian Souza do G1 e estar entre as finalistas do prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos  e outros textos de apoio  o assunto a ser desenvolvido não é nada atraente, nada que motive ou instigue alguém a escrever, é o mesmo cânone de sempre, a mesma nota dó que de tanto tocada já desgastou o piano. Minorias, miséria, carência, diferenças, vêm acompanhando a árdua vida humana do estudante. Ninguém se preocupa em indagar do que o jovem realmente precisa, os valores que vêm desenvolvendo na escola, pois através deles todos os problemas são evitados e resolvidos e o principal: ao desenvolver o valor respeito, todo o ser será respeitado, o humano, o animal e o material. A liberdade excessiva que contraria a disciplina necessária a qualquer atividade intelectual  foi deliberadamente aceita e convive-se com ela diariamente.  Como escrever um texto desse quilate em uma linguagem de cunho  formal que não está ao  alcance do discípulo?  O que o ENEM espera com os temas que elege? Verificar a competência escritora ou verificar o nível de sociologia política que ele adquiriu? Não ficará sabendo, as dificuldades são imensas... 

Quando o tema é atraente, motivador,  inspira a escrever, do contrário, é uma lista de palavras em um discurso artificial sem alma, apenas  para obtenção de nota, permitido somente aos que conseguem manejar com habilidade esse jargão.  Isso a meu ver é pura covardia, é engodo, não condiz com o que pode e tem sido ensinado nas escolas.


terça-feira, 8 de novembro de 2022

 




O dia mundial da água  já passou... Foi em 22 de março. Criada em 1993, pela Organização das Nações Unidas, (ONU) essa data traz como objetivo principal a preservação dos mananciais de qualquer tipo ou tamanho como garantia da sobrevivência do ser humano nesse planeta magnífico chamado Terra.



Foto do rio Tietê na cidade de Salto (maio de 2022).


Terra, planeta água?


Parece inacreditável,  mas a foto acima é do rio Tietê. Servindo populações de todo o Sudeste nacional por mais de 6000 anos, essa fonte importante abastece uma grande parte do interior paulista, percorrendo 1100 quilômetros, abastecendo 62 municípios paulistas antes de desaguar em outro gigante; o rio Paraná. O incrível nisso tudo é que nasce na Serra do mar a aproximadamente 22 quilômetros do oceano, mas a geologia do terreno, faz com que ele tome o caminho inverso...

Se alguém já teve a chance de visitar a sua nascente, pôde perceber a diferença na qualidade da água. A foto que ilustra o texto foi tirada por mim e mostra a degradação, a miséria humana, sua capacidade e poder de destruição. Deus nos dá a pureza, a garantia de uma vida saudável e o homem  transforma em veneno, tornando impraticável a potabilidade daquelas águas. 

Estamos brincando com a natureza? O que ela tem a nos devolver com essa atitude insana, irresponsável? É do conhecimento de muitos que a água própria para o consumo, a chamada água potável existe na proporção de apenas 2,5 % em nosso planeta.  

As agressões começam nas grandes cidades, em São Paulo, por exemplo, é tradicional um grande rio como o Tietê servir de esgoto, receber lixo e detritos sem tratamento sério, obtendo como resultado mudanças lúgubres nesse manancial, que se manifestam pela cor escurecida, textura grosseira e odor insuportável. Entretanto, infelizmente, como é grande o poder de adaptação do homem,  todos acostumam-se com essas irregularidades, fechando os olhos para o problema ou lavando as mãos à moda de Pilatos... Afinal, a labuta diária,  corrida pelo dinheiro, a falta de planejamento e  organização social afastam as atitudes racionais que deveríamos tomar, repudiando essa situação inadmissível.

Aqui na capital paulista, inúmeros foram os mandatos de prefeitos  que fecharam os olhos e apesar de slogans como "Cidade Belezura", Cidade Linda" entre outros,  jamais moveram uma palha para mudar esse quadro triste, e pelo que podemos perceber o rio Tietê está morrendo aos poucos. Viajando de São Paulo para a cidade de Salto podemos constatar essa triste realidade; a eutrofização, ou seja, a poluição das águas por detritos faz crescerem as algas, em consequência disso,  há redução de oxigênio e morte do ecossistema aquático.  Do alto da pequena serra na Estrada dos Romeiros, temos a visão da perda tremenda de grande parte do rio, inclusive, trechos consideráveis em que a água foi substituída pelas algas...

Não entendi até o dia de hoje o porquê de slogans que não condizem com o estado real das coisas... Como desconsiderar um tesouro destes  de que o Brasil dispõe, enquanto outras nações sofrem com a escassez de rios e lagos? Como não arregaçar as mangas e colocar os mananciais como prioridade, como principais fontes de saúde e vida para a população? Os termos"Belezura" e "Linda" soam jocosamente quando passamos e constatamos essa calamidade toda.

Grande alarde é feito hoje em eventos internacionais que tratam do meio ambiente, a falácia toma conta dos homens públicos e dirigentes de países que levam seus depoimentos em nível mundial, mostrando em seus discursos a existência de  grandes projetos, cuja  realização  na prática não acontecem. Vemos a cada dia a extinção das águas potáveis, lençóis freáticos, dos nossos rios e mares sem que nada seja feito de eficiente, que corte o mal pela raiz, que garanta a sobrevivência dos nossos ecossistemas.Uma grande parcela da sociedade é terrivelmente culpada por tudo isso: grandes e pequenas empresas inconscientes que lançam seus resíduos industriais nas águas; grandes mineradoras que maculam com mercúrio o ambiente aquífero visando apenas poder e dinheiro; da mesma forma grupos do agronegócio poluem as águas com uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos; pessoas que utilizam o curso dos rios para nele escoarem embalagens, detritos, animais mortos  e até móveis numa amostra deplorável da ausência de cidadania e empatia. Sabemos de longa data, que as propriedades da água são ausência de cor, de cheiro e sabor. Qualquer criancinha no início de sua instrução acadêmica é orientada nesse sentido, então por que continuamos ou deixamos que essas ações aconteçam, que essas propriedades sejam alteradas?

Países bem estabelecidos financeira e, sobretudo, culturalmente já passaram pelo problema e o resolveram como o caso do rio Tâmisa da Inglaterra,  que travou uma luta incansável durante os anos de 1850 a 1970, entendendo o valor daquele recurso para o país . Da mesma forma, a Europa realizou um trabalho magnífico com  rio Reno durante 20 anos,  e dispondo de 15 bilhões de dólares para  a despoluição de produtos industriais e agrícolas que maculavam a pureza das águas. 

Muitos amigos com quem converso diariamente em um grupo da adolescência, alegam que o rio Tietê ao noroeste do estado ainda está bem cuidado, mas todo o cuidado é pouco, é preciso manter a vigília diária, a reação pronta contra qualquer tipo de ameaça e isso independe de apenas uma região, uma vez que se os detritos aumentam no leito de um rio vão contaminando todo o seu  percurso fluvial.


Para que um tesouro do quilate do rio Tietê seja resgatado, é necessário antes de tudo, vontade, consciência, humanidade, ética, sensibilidade e porque não dizer espírito de trabalho. Tratamento de  qualidade na questão de esgoto, fiscalização criteriosa dos grupos empresariais; fiscais éticos que não façam olhos grossos à causa; população mais educada e passível de punição em caso de crime ambiental; do contrário só teremos doenças e morte. 

De nada valem os discursos vazios em grandes congressos, porém,  distantes da realidade. Palavras que se esvaem ao vento...

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

 Saudade é a palavra em que se resume o dia de hoje...








SAUDADE...




Sentada em frente a esse ecrã, ao som de pérolas musicais de um passado distante, entretanto, vivo,  presente em meu ser, sinto  mil coisas passarem pela minha cabeça... Lembranças infinitas de coisas e pessoas que já não estão perto de mim; algumas muito especiais, que se foram, mas deixaram um exemplo magnífico como lição de vida aos pobres coitados como nós que ainda carregamos cada qual a sua cruz pelos caminhos da existência; quantas decepções sentidas ao peso dos anos que não podemos mudar, divergências   que nos conduzem ao sofrimento,  frente à  discordância de opiniões, levando muitas vezes ao erro, à má interpretação e até à morte ... 

Quantos se perderam por caminhos incertos da vida, uma grande parte desistindo ou entregando-se a eles. A grande questão é como saber viver. Não nos faltam fórmulas mágicas em mensagens de texto e obras musicais lindas, contudo impraticáveis como regra geral. Entretanto, cada um  sabe quais são suas preocupações e tentamos da melhor maneira nos adaptar e procurar mitigá-las como podemos.

Amigos são poucos com que podemos contar, as barreiras do tempo e do espaço efetuaram seu papel na ação do distanciamento, até mesmo irmãos afastaram-se no afã de cuidar da própria família, restando apenas uma saudade infinita de tempos que não voltam mais. Choramos os mortos, lamentamos nossas perdas, sabendo que um dia também, espera-se que alguém se lembre e chore por nós.

Por que todo o dia de finados nos leva à reflexão existencial? É um dia deveras melancólico que, obrigatoriamente nos conduz a um balanço de nossas atitudes, abrindo caminho para que possamos mudar algumas delas ou, mantê-las. Só posso dizer que tudo se resume em Saudade! Uma preciosa palavra que não existe pelos inúmeros idiomas com essa precisão do termo em Língua Portuguesa...

Saudade  de momentos  de liberdade de expressão, o que realmente não mais existe; todos se calam por medo de coação, de atraírem para sua vida perdas de uma sobrevivência mais tranquila financeira e mentalmente, porém menos felizes! Isso porque se afirma que vivemos em uma de-mo-cra-cia. Leda ilusão! hoje, o debate mais acalorado e sincero é definido como "discurso de ódio", poderia ser assim intitulado: " Cale-se, não tente convencer seu interlocutor sobre a realidade, do contrário..."

Saudade de uma discussão saudável em todos os setores da sociedade, diálogo que levava a soluções e, apesar disso,  conservação da amizade, sem o medo de precisar calar-se ou expor opinião ante o risco  de ser excluído, cobrado pelos donos da verdade! 

Saudade de quando a fraternidade entre os homens não permitia a presença de psicólogos, racismo, homofobia, peconceito, estereótipos entre tantos outros termos ofensivos que são debatidos hoje momentaneamente. 

Saudade dos tempos livres da infância e da juventude, quando a vida era um sonho colorido pincelado com a amizade e amores juvenis!

Saudade de poder viver livre de limitações físicas e mentais, saúde percorrendo todo o corpo até a ponta dos dedos!

Saudade de instituições educacionais que  formavam cidadãos de bem e não se detinham em projetos de vida insanos e utópicos em detrimento de conhecimentos básicos, aplicáveis à vida prática e desenvolvimento cultural verdadeiro nos campos da  arte. É óbvio que se chegamos a esse ponto da necessidade de conduzir crianças e adolescentes a construírem seu próprio caminhar pela vida é pelo motivo de que tudo desmoronou: os alicerces familiares, responsáveis pela formação do caráter dos filhos, desagregando a convivência de todos através de constantes separações, excesso de liberdade, didática dos meios de comunicação de massa,  paternidade e maternidade irresponsáveis, falta de respeito e ética...

 Ao mesmo tempo o estado, manipulador de opiniões, conta com o auxílio de meios de comunicação insensíveis aos reais problemas do ser humano, vivendo vergonhosamente do poder e dinheiro gerado pelas suas ações. Nunca na vida convivemos com tanta vulgaridade, corrupção e anticultura aliadas a falsas informações de grande parte da mídia, a real  responsável por tais atos e que aponta seu dedo acusador para quem não merece.

Saudade de tempos em que não havia tanta jurisprudência na área judicial, desviando-nos da Constituição e de direitos adquiridos por todos, incluindo aí os profissionais, familiares e sociais.

Fala-se da aversão à censura, porém extrapola-se na libertinagem e mau exemplo oferecido a crianças e adolescentes em mensagens indesejáveis no conteúdo  de novelas, filmes, numa tentativa velada de formar cidadãos com desvios de personalidade e por que não dizer, até intromissão na decisão da naturalidade dos fenômenos físicos e mentais esperados de um ser humano em desenvolvimento saudável.

Saudade de quando os profissionais poderiam agir livres, sem imposição de medidas, ou condicionados ao controle de seu  trabalho no momento histórico-político em que vivem sob o perigo de perder seu emprego e,  até em muitos casos, ser preso por agir livremente, pela sua autenticidade e senso de justiça!

É amigos, quando se vive o bastante, chegamos a muitas conclusões, porém não contamos com o respeito e a admiração dos mais jovens, que, infelizmente, veem na velhice insanidade, demência, inutilidade; coisas do mundo ocidental... Apenas o novo importa: roupa e de preferência de grife, bens materiais que lhes deem status social, pessoas para relacionamento, novos países, novas viagens e novas experiências! 

Filhos são para o mundo, ouvimos em altos brados e com isso eles se vão de nós, perdem a nossa convivência e lá estão a sofrer pelo mundo afora, longe de nossos conselhos e orientação quando estamos em plena  maturidade necessária para tanto... Seria cruel dizer "Filhos são para o mundo e os pais para as casas de repouso da vida quando forem um estorvo para eles?

Finados, resumiria Olavo Bilac na frase célebre: Saudade, presença de ausentes" e eu complementaria: "e de tudo que se e foi e que não pode mais ser resgatado..."


quarta-feira, 26 de outubro de 2022

 Um episódio desconfortável envolvendo questões políticas em um grupo de amigos da adolescência no Whatsapp, e o comentário de um dos membros do grupo a esse respeito foram a mola que me impulsionaram a escrever mais um texto.


Quando seremos nós mesmos?





O ser humano é complexo, é um misto de emoções diversas, tem a capacidade de amar, sentir saudade, arrependimento, compaixão e ódio...

Mas que sentimento é esse chamado ódio? Sabe-se que vem de longa data e é responsável pelo desmoronamento de amizades, amores, relacionamentos em geral. Em que momento ele nasce, apodera-se do comportamento, para liderar sozinho uma conduta destruidora? Através dele, grandes guerras foram planejadas e levadas a cabo, grandes amores foram exterminados, amizades quebraram seus laços e deram lugar ao isolamento e insatisfação. 

A humanidade, em outros tempos, de compreensiva, tolerante e  inofensiva passou à tolerância zero, a usar palavras rudes no trato, ações agressivas emocionais e físicas capazes de levar à morte; pôr fim a uma existência, muitas vezes de pessoas próximas, queridas; cônjuges, irmãos, vizinhos, parentes. Nada é capaz de deter uma pessoa acometida pelo ódio, desaparece o poder de análise e reflexão para ceder lugar a atos insanos que jamais poderão ser consertados ou esquecidos.

Temos como principais motivadores o materialismo selvagem,  o egoísmo, a vaidade ferida, a traição, ou até mesmo contradição de opiniões. Eu diria que a falta de respeito, o avançar no território ideológico de outrem, o orgulho, a apropriação da verdade seriam as principais causadoras deste mal que assola o mundo moderno . 

A mídia apresenta-se como a vilã capaz de gerar, bem como, instigar o ódio e inseri-lo no bojo da sociedade. Através dela, verificam-se a separação dos homens e seus pares, o racismo, o preconceito, a comparação e guerra entre os sexos e sua ideologia, a  inimizade política, a instabilidade entre casais e poderia aqui, enumerar milhões de incitações provocadas pelas mídias massivas como a televisão, internet em suas redes mundiais.

Muitos podem discordar de que os meios de comunicação tenham responsabilidade nessa tragédia toda, entretanto, se pararem para analisar, verificarão  a repetição maçante,  não de informações, mas de intenções, objetivadas por poder econômico e competição exacerbada em detrimento da utilidade pública e apresentação de uma cultura e educação de qualidade. Diante disso, estamos presenciando um racismo selvagem como nunca visto dantes, crimes de ordem político-partidária, homicídios e feminicídios em grande escala, isolamento social, preconceito econômico, ocasionados pela  divulgação de violência, tráfico de drogas e pessoas, produção de literatura que incita a banalização de sentimentos nobres, de valores imprescindíveis do ser humano, da sexualização precoce, da valorização de grandes marcas como forma de status,  da cultura inútil, entre tantas outras pérolas geradoras de enriquecimento para quem as elabora e as tornam pública. 

Os próprios assuntos tratados nas redes sociais tem seu princípio em temas levantados pela mídia; as pessoas esqueceram-se de como iniciar um diálogo saudável com suas próprias palavras e falam com a linguagem publicitária. 

Há sempre os partidários de opinião que se tomam como "donos da verdade absoluta", que além de não apresentar a ética de respeitar concepções contrárias a sua, agridem verbalmente seus interlocutores, usando palavras ofensivas que provocam o início de uma discussão que muitas vezes não acaba no território digital. É preciso lembrar que atitudes impensadas e não ponderadas afastam e magoam pessoas que poderiam ser nossas companheiras, aliadas nessa estrada única,  chamada vida.

Insistir muito em um tema é a matéria-prima dos jornais e reportagens atualmente, é uma forma de puxar a corda para formar paranoicos, seres sem raciocínio e robôs descontrolados. É lamentável, mas precisamos urgentemente nos libertar das mídias e reconhecer sua intencionalidade em criar adversidade e rancor!




E o que você, caro leitor pensa a esse respeito? Deixe aqui seu comentário, ele será muito bem-vindo!


terça-feira, 18 de outubro de 2022

 Não sei sobre o que escrever hoje, só sei que já é tempo...Muitos dias já se passaram desde a última mensagem postada, porém são tantos os assuntos que me perco divagando sobre eles e não chego a decisão alguma... Há dias que um tema surge como ideal para desenvolver, no entanto os afazeres diários não permitem que me envolva naquele momento e a inspiração vai embora como o vento que passa...Fico na dúvida entre uma crônica e um texto de opinião, mas acabo decidindo que hoje não é um bom dia para brigas, decido pela primeira...






A sinceridade favorece a oportunidade?


Lá estou eu, em meus maravilhosos 21 anos, rosto alegre, corpo delgado e bem feito em um vestido branco e azul-marinho numa entrevista de emprego. Tarefa difícil era essa na década de 1973, em minha querida cidade natal de Araçatuba. Terra do gado, como era conhecida, os donos das terras, os fazendeiros proliferavam naquela região, e dificultavam a chegada de indústrias e empresas que eram vistas como um chamariz para afastar os homens do trabalho no  campo. Um calor infernal... Olhando para a rua asfaltada, dava para ver a evaporação em forma de fumaça saindo do chão! Ao menos, o vestido que usava era agradável em conformidade com a estação do verão, além de me tornar atraente. Havia realizado uma verdadeira maratona  em busca de aulas para ministrar, pois, recém diplomada em Letras, seria o ideal conseguir algo nessa área de formação. Entretanto, estava desistindo, muitas tentativas frustradas não estavam nada animadoras nas sessões de atribuição.

Noiva, a aliança fininha no dedo, quase não chamava a atenção. Perdida em pensamentos mil, ali estava eu entre vários candidatos esperando a minha vez de entrevista que por sinal, naquela época não era nada complicada, só que naquele momento, não tinha conhecimento disso. Não estava estressada, sentia a ansiedade normal da espera. A empresa que solicitava a vaga de secretária era a Nestlé, localizada próximo à rodovia Marechal Rondon, aliás acabo de pesquisar o endereço, situa-se  na própria rodovia, quilômetro 31, Jardim Nova Iorque. Lembrei-me do antigo namoradinho de infância, cujo pai era dono daquela localidade, daquele projeto imobiliário. Distraída, fui bruscamente tirada de minhas divagações com o chamado do meu nome e a informação da sala em que deveria entrar.

O rosto simpático do entrevistador me surpreendeu, esperava por alguém sisudo, de meia idade, sério e compenetrado, mas não, era jovem e bastante comunicativo. Começou por tomar informações sobre minha idade, escolaridade, por qual motivo procurava por aquela vaga de secretária e respondi a verdade, pois nunca soube mentir, era um livro aberto a qualquer leitor. Expus minhas dificuldades em encontrar colocação em minha área profissional, a minha inexperiência por não ter tido oportunidade de desenvolver um tipo de trabalho até aquele momento. Pareceu-me que estava agradando, quando ele me pediu que datilografasse  um pequeno texto  na máquina de escrever, uma vez que naquela época não havia a teconologia de um computador ou de um celular como nos dias de hoje. Apesar de tocar piano, havia feito curso há bastante tempo, não era nada hábil e o que logo foi notado pelo entrevistador. Não me deixei intimidar, disse a ele que não tinha prática, mas que teria o maior prazer em treinar incansavelmente e conseguir esse objetivo se conseguisse uma oportunidade. Quanto ao teste de conhecimento em Língua Portuguesa e redação,  me saí  muito bem e ele me disse que poderia começar a trabalhar e com  o tempo a minha habilidade em datilografia podia melhorar. Estava tão feliz com essa afirmação que não reparei que ele começou a olhar intensamente para a minha mão direita, a da aliança de noivado.

Foi quando perguntou se aquela aliança era de compromisso ou um simples anel. Respondi que sim, que era um anel de noivado e que no próximo ano trocaria de mão, pois pretendia resolver um namoro de sete anos através do casamento.

Foi como botar água na fervura, como muitos dizem em linguagem popular. Ele fitou-me como que com pena e afirmou que infelizmente, a empresa não contratava moças noivas prestes a se casar. Inconformada e até um pouco decepcionada com o meu excesso de sinceridade, (deveria ter afirmado que era um simples anel, sem compromisso algum), e também por minha ingenuidade (quantas daquelas candidatas não deveriam ter retirado alianças de noivado ou até mesmo de casamento antes da entrevista?), questionei o porquê daquela atitude empresarial, daquela discriminação, e ele, gentilmente foi dizendo que mulheres noivas se casam, têm filhos e aquela empresa encarava esse fato como um empecilho à assiduidade e comprometimento quanto à profissão. Revelei a minha opinião, argumentando que quem é profissional, realmente não deixa de cumprir sua obrigação, mas não teve jeito, com o mesmo sorriso simpático que ele me recebera, estendeu-me a mão, agradecendo minha presença, desejando-me boa-sorte e me dispensando literalmente.

Agradeci e ainda meio atônita, saí dali sem emprego e sem promessa alguma  de sucesso nesse intento. Até hoje, já realizada e aposentada em minha profissão de professora me questiono se a sinceridade e a ingenuidade valem a pena nesse mundo tão competitivo e difícil!


Gostaram da crônica ou ela não foi relevante ou agradável, deixem comentários, eles são bastante bem-vindos!


quarta-feira, 16 de março de 2022

 


E a vida continua...



Fazer um blog é muito bom, escrever nele melhor ainda. Porém, a dita liberdade de expressão que muitos afirmam estar presente nos dias atuais não condiz com a realidade, apenas a teoria ostenta um lindo discurso utópico e mentiroso. Não temos liberdade alguma, não somos donos de nada, nem de nossa própria casa, carro, filhos e o que é pior:  da nossa própria vontade. Deliberar contra o gado ordeiro e disciplinado nunca foi tão difícil,  nunca discriminou e criminalizou o destemido que ousa contradizer a verdade estabelecida. Vivemos num mundo cruel, hipócrita e desleal em que meias verdades são tomadas como veracidade e viram lei; e acredito: se Cristo voltasse a Terra e se se rebelasse contra esse sistema nojento e vil, certamente seria cruelmente assassinado de forma mais covarde e mais severa que a primeira. Essa é a tristeza, a pedra no sapato do blogueiro, do twitteiro ou de qualquer outro influenciador digital que acaba se acostumando, tal qual no período da ditadura militar, a escrever sobre temas outros, diversos dos que queria realmente versar...




😪

Verba volant, scripta manent

A frase latina acima significa que a palavra dita voa e a escrita permanece. Por essa razão, principalmente nos presentes dias,  temos tanto medo da scripta  pelo motivo de ela permanecer durante os tempos registrada em algum lugar material ou virtual.
E o mais incrível é que temos uma mídia altamente competente para dominar o grande público e enfiar-lhes cérebro adentro, qualquer ideologia que lhes apeteça: quando surgiu a composição de Zé Ramalho na década de 79, "ei, vida de gado, povo marcado, e,  povo feliz", não estávamos num estágio de abdução tal  como o que nos encontramos hoje. Essa indução forma um grande rebanho que se revolta contra  alguns seres pensantes do planeta se eles diferem na forma de pensar. Assim, corre-se o sério risco de ser preso, ou até mesmo linchado pela esmagadora maioria que politicamente correta, defende seu ideal de unhas, dentes e  o corpo todo se necessário for.
Como e quando aconteceu tudo isso? Inicialmente, a partir do momento em que os seres humanos deixaram de se encontrar face a face em praças e locais públicos distanciando-se de seus pares para se "esconderem" nos lares em frente a um aparelho de TV. Nesse momento infeliz, a mudança começou a se operar de maneira macabra, covarde e intencional, muito embora quase ninguém tenha se dado conta disso. E num crescendo contínuo o desenvolvimento tecnológico da comunicação  ganhou dimensões assustadoras fazendo seu trabalho com excelência até chegar onde estamos.
Se acha exagero, basta conversar com alguém e prestar atenção no seu diálogo, que é produto da mídia; ideias próprias ninguém mais as tem, e se alguém ousa demonstrá-las, é cruelmente crucificado com palavras ofensivas que o faz sentir a pior das criaturas. Muitos se omitem e seguem a corrente por temer até perder seu emprego e criar inimizades.
Todos os setores da sociedade são vítimas desse processo de manobra e a marca que atingiu chega a tal dimensão que é praticamente impossível uma reversão.
Me lembrou agora a célebre frase que os policiais em filmes americanos sempre despejam  sobre seus réus: "Tudo o que disser, será usado contra você no tribunal", provocando um silêncio temeroso, uma vez que até a  exposição verbal (verba volant) torna-se extremamente perigosa. Imagine então  a palavra escrita (scripta manent)  quão grave se torna em seu teor; escrever com propriedade e reflexão torna-se arriscado, para qualquer autor que se aventure a sair dos modelos pré- construídos e eleitos como verossímeis  por todos.
O leitor já assistiu a um filme intitulado "Idiocrassy", lançado em 2016? Estamos já naquele estágio da população bitolada e sem raciocínio lógico que ali se presencia, ou até pior.
Tudo isso só ocorreu por um motivo: a crença absoluta, a ausência total de ceticismo que tomou conta da sociedade. Tudo é aceito passivamente; e a partir disso fica difícil, pois teremos uma missão muito mais impossível  do que remar contra a maré de um rio.Como afirmei na introdução, nos bons tempos, não pagávamos tantos impostos como hoje, não havia, IPVA, Imposto de renda agressivamente conduzido, juros bancários abusivos, e tantas outras explorações a que somos submetidos nesses tempos ditos tecnologicamente desenvolvidos. O planeta sendo destruído e dilapidado, terrivelmente explorado para enriquecer alguns e escravizar outros que também são seres humanos. Os filhos, maior patrimônio de uma família, sendo didaticamente educados por meios de comunicação de massa em detrimento das lições de vida paternas ou terei que politicar corretamente incluindo maternas? Os profissionais condicionados à obediência de um sistema se quiserem continuar a ganhar o seu pão de cada dia, porém seu ideal totalmente estrangulado e distante.
Ridículas essas colocações que nos humilham, nos antagonizam até sermos rotulados de neonazistas, neofascistas, neos sei lá o quê, se nosso diálogo difere do discurso que nos foi sutilmente imposto.
Para compreendermos melhor essa situação, basta olharmos um pouco retrospectivamente e relembrar de como a adolescência é vulnerável nesse sentido; os artistas que idolatramos foram usados, venderam-se por status, ascensão social, fama e consequentemente nos usaram para que os fins sórdidos vingassem. E assim continuam até hoje, de forma mais atroz ainda. É preciso uma vida razoavelmente longa e  pensante para que possamos tirar algumas conclusões sábias, entretanto, devem ser  guardadas num cofre de segurança máxima, pois são joias raras que não são identificadas por leigos. 
Muitos dirão ao ler textos como esse: " Será que o autor endoidou?" Estará em suas perfeitas condições mentais?
Infelizmente, não há mais solução e muitos já aderiram à frase:
"Não pode com eles, junte-se a eles"! Ou então: "Aceita que dói menos!"

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

 

O título desse texto, fala de uma possível volta através do tempo e do espaço...


Reencontro


Eu te conheço de tempos imemoriais...

Não sei precisar de quando, se há centenas, milhares ou até mesmo milhões de anos, ou de séculos. O inexplicável se faz presente nesse caso. Só sei dizer que quando te vi pela primeira vez, senti essa sensação de conforto, bem-estar que só se atinge quando laços infinitos ocorreram desde as mais remotas épocas. Não há certezas sobre a imortalidade da alma, nem da existência de outras vidas, mas, seguramente, do fundo do meu ser, sinto aquela familiaridade, aquela proximidade que só duas almas gêmeas podem sentir...

Uma pena que a distância foi sempre uma constante em nossas vidas, o afastamento de tudo aquilo que embalava o corpo e o espírito foi mais forte e o crepúsculo chegou insensível, trocando o sonho pela realidade crua, fria. Apesar de a vida ser um navio que não podemos governar e  que nos leva a inúmeros continentes, você sempre vai ser a primeira página do livro de minha memória, e nesse caso, o que é o espaço físico, se em um segundo, atravesso a barreira do tempo e revivo os poucos momentos que compartilhamos juntos em sintonia perfeita como só o Cosmo pode ser...

Eu te conheço de tempos imemoriais... Não sei se isso ocorre contigo também, mas acredito do fundo do meu coração, que sim...

 Que estradas anteriores trilhamos, que momentos vivemos juntos em uníssono, que tipo de relacionamento tivemos? Por que essa certeza de harmonia e conexão tão profunda? Quando me perco nessas divagações, o que me vem à mente são páginas amareladas de um livro envelhecido, decorado com lindas guirlandas de flores silvestres a enfeitar uma trilha distante, mas tão presente que me acompanha por toda essa existência.

Se há uma música que possa representar tudo isso, esse amor infinito, milenar é a Serenata de Schubert, cuja doçura e romantismo são profundos e voláteis como a vida... Até mesmo o segundo movimento tão doce da Patética de Beethoven também seria propícia;  a parte final do Noturno opus 9 de Chopin já representaria em sua  tristeza,  a saudade, a impossibilidade do re-encontro. Certamente, trago um espírito muito antigo, onde o clássico sempre ocupou o primeiro lugar, as valsas inebriantes de Strauss parecem me transportar para vetustos  salões  de baile, onde rodopiavam saias imensas  a farfalhar fartura de tecidos, a espalhar perfumes de sândalo e de flores pelo ar.

 Já sei que nessa passagem não mais nos uniremos, nem mesmo para um simples diálogo que poderia ser capaz de constatar essa irmandade de almas. As convenções sociais, o peso do nosso ego e toda a carga emocional que carregamos em nosso pobre cérebro, não deixam que sejamos livres como as crianças o são ao manifestarem suas vontades.

Às vezes, me ponho solitária a olhar para o céu e as estrelas, procurando uma justificativa para esse mistério que me atormenta a respeito da imortalidade da alma, da comunhão com pessoas como tu, que nunca deixaram de ocupar lugar na minha memória. Não se trata de brincadeira, ou até mesmo de traição a outros que nos são caros, o ser humano tem uma capacidade enorme de amar, se a alma não é pequena, como dizia o nosso grande Fernando Pessoa, porém, é uma lacuna muito grande, que a todo o momento precisa ser preenchida ou até mesmo, amortecida com o apoio e carinho desses anjos que nos rodeiam e nos prezam, presentes e que  fazem valer o nosso difícil  dia a dia.

Aprendi a duras penas que a vida é um sopro, que pode se esvair no esconder da lua em uma nuvem rendada, através do pôr do sol, ou durante o cair dos pingos de uma chuva. O que virá depois é um mistério indesvendável para nós, pobres mortais, incertos e ignorantes de todas as leis que nos regem. Mas, apesar de tudo, quando tudo acabar, fica o sentimento do possível reencontro, em qualquer dia, hora ou lugar...

 

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

 Pesquisando no site de busca Google, fiquei sabendo que hoje é comemorado em todo o mundo O dia Mundial da Corrupção...




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O tema é um prato cheio para desenvolvimento de um livro, creio eu, uma vez que  vivemos em tempos de crise existencial,  tremenda inversão de valores, falta de empatia e humanidade que transformaram o ser humano em uma máquina mortífera que extingue e derruba pessoas por motivos banais.

O questionamento a se fazer é: quando esse comportamento bestial foi transformando homens e mulheres em indivíduos descontrolados emocionalmente, frios e cruéis. Segundo o filósofo, Jean Jacques Rosseau, um pensador do século XVIII, o homem é produto do meio em que vive. Nesse modo de pensar, qualquer pessoa independente do seu material genético, seria moldada pela sociedade em que ela está inserida. Desta forma, há possibilidade de transformarmos um anjo em demônio durante o período de alguns anos de convivência em um meio de corrupção, valores indignos e moral duvidosa.

Realmente, ao que temos assistido atualmente é exatamente isso; muitos culpam a educação de má qualidade em nossa instituições como responsável pelo quadro, esquecendo-se de que os primeiros ensinamentos que levarão uma criança até os sete anos à constituição de seu caráter é tarefa familiar, roda de amigos entre outros grupos sociais. Assim, quando o infante passa a frequentar uma escola, já traz uma bagagem bastante relevante na definição de sua personalidade, ficando a escola responsabilizada a efetuar difíceis e quase impossíveis mudanças de comportamento em seus alunos.

O termo corrupção provém do latim corruptionem significando rompimento, deterioração, processo ou ato de corromper. E em países como o nosso pobre Brasil, isso é comum em grande parte da sociedade. Há corruptos em todos os gêneros, idades e classes sociais. Homens públicos que deveriam ser o exemplo de retidão de caráter, envolvidos em crimes e deslizes graves, fazendo com  que o cidadão perca a confiança e a credibilidade, acreditando que não há mais como conviver socialmente entre pessoas de bem.

A causa deste mal é certamente o exagerado valor dado  ao dinheiro e poder em detrimento de princípios espirituais dignos que deveriam prevalecer na  formação do ser humano. Pelo dinheiro, políticos aceitam e dão propinas em benefício próprio, apropriam-se de bens públicos, colocam em evidência seu poder e dele abusam, entregam riquezas e vendem sua própria nação em troca de fortunas e privilégios pessoais.

Para o  cidadão comum de maneira geral, torna-se prática apossar-se de materiais de propriedade da empresa em que trabalha, alegando ganhar pouco e justificando esse ato corruptível. Parece que alguns brasileiros já nascem com o instinto de roubar seu par ou adquirem essa tendência na mais tenra idade. E o fato não ocorre apenas no nosso país, embora ele esteja arraigado no espírito nacional. A deformação moral manifesta-se também na atitude de falta de sinceridade, na inveja que leva à vileza ao ponto de "puxar o tapete" do seu próximo como forma de garantir apenas o seu bem-estar, construindo felicidade sobre a tristeza dos outros. 

Providências deveriam ser tomadas urgentemente, um planejamento familiar seria muito oportuno, haja vista a dedicação irrelevante dos pais na criação de seus filhos... Quem não tem tempo de se dedicar a eles, não devem colocá-los no mundo para serem criados pelas ruas ou abandonados em depósitos, como creches e escolas dando-lhes a difícil tarefa de fazer o que não realizaram, mudar o que estragaram, devolver a dignidade que lhes foi roubada...


quinta-feira, 3 de junho de 2021

 A pedido de amigos, resgato aqui algumas memórias dedicadas a um meio de transporte deveras antigo, dois séculos de existência: a bicicleta, uma vez que hoje, 03/06 é o seu dia...







Ontem, hoje, sempre


Palavra nascida na França, o vocábulo bicyclette, deriva do francês. Etimologicamente formado do prefixo latino bi e do grego, kýklos e cyclos nos alerta de que se trata de uma composição por hibridismo, já que junta línguas diferentes, significando veículo de duas rodas.

Mas não foi por esse motivo que resolvi escrever esse texto. Novamente, me voltam os passeios pela memória, já enevoados pelo avançado do tempo. Vejo-me, criança ainda, dengosa e chorona, sempre me olhando no espelho da cristaleira, o que me levou à alcunha de “Maria Cristaleira”. Sorte que cresci uma menina muito sensível e piedosa até dos matinhos que pisava no quintal...

E a bicicleta? Ela chegou por volta dos meus 6  anos, uma Mercswiss, verde para aliviar a carga que meu pai carregava na sua própria bicicleta: minha mãe, na garupa, trazendo ao colo meu irmão ainda bebê e eu na cadeirinha próximo ao guidão. Por vezes para efeito de zombaria, algum passante gritava: “Lotação!”

Jamais me envergonhava disso. Hoje, analisando esses tempos passados, onde o cenário era constituído por bicicletas e charretes e alguns carros esporadicamente, concluo que aquela geração contribuiu para a pureza do ar e preservação da saúde, algo que nos dias atuais não é possível acontecer; o carro se tornou além de meio de transporte principal, uma forma de status social, o que lamento muito.

Aprendi a andar de bicicleta com o auxílio de meu pai: alguns tombos e arranhões e lá íamos nós para todos os cantos, cada qual no seu veículo ao sabor do vento. Certa ocasião, ficou decidido que iríamos de bicicleta a um sítio que meu avô paterno possuía, não me lembro se em Taveira, ou outro local alguns quilômetros distante de Araçatuba. Um calor de 40 graus, pleno verão, ausência da mais leve brisa e um areão que por várias vezes me faziam derrapar e parar, o que para meu espírito infantil, parecia não ter mais fim! Era um grupo até grande de adultos e a menor era eu que ficava para trás, castigada pelas dificuldades do caminho, porém o final feliz, embaixo da amoreira gigante, com sua sombra reconfortante e os frutos doce-mel. Lembro-me do vestidinho branco todo manchado de vermelho-vinho e das repreensões:

-Não vai sair mais, mancha de amora não sai...

E a bicicleta acompanhou-me por toda a minha vida, lembro-me de meu avô materno com sua companheira inseparável, fizesse chuva ou sol a caminho do trabalho na Fábrica de Tanino; das velhas histórias de meu pai com sua bicicleta voadora (motivo de piada no jornal do Frigorífico T. Maia onde trabalhava); das minhas idas já em uma Monark, aos 11 anos às aulas de piano; do primeiro namoradinho buzinando na porta de casa com sua bicicleta toda equipada com buchinhas coloridas, flâmulas e outros adornos da época, apavorando-me com medo de que minha mãe percebesse... 

Ah, como é rósea a infância e a adolescência!

Se bem que, de uma hora para outra deixei de adorar a bicicleta, os passeios nesse veículo maior já não tinham o mesmo sabor delicioso da infância... Voltei a usá-la em São Paulo, entretanto, o trânsito feroz das avenidas não encorajava seu uso e os passeios eram sempre no entorno da represa  Guarapiranga, local maravilhoso na década de 80, hoje impraticável e inseguro. Mudando-me para Rio Claro também a usei várias vezes para ir ao trabalho , e hoje vejo minha filha elegendo-a como meio de transporte...

Acredito que cada um de nós tenha histórias maravilhosas para contar nesse dia de hoje, dia da bicicleta. São reminiscências de um tempo que ainda hoje, voltam com a mesma intensidade e emoção e valem a pena ser relembradas.   

 

 

quarta-feira, 2 de junho de 2021

 Parece que criaram dias para tudo....O assunto é polêmico, mas temos que escrever sobre qualquer um deles, esse foi inspirado num grupo de Whatsapp que frequento , cujas efemérides são publicadas diariamente.





For sale?


Dia do homem, dia da mulher; dia do trabalho, dia do avô, dia do amigo e até dia do pólen....

Porém o que ainda não havia visto é o dia da prostituta. Ia me esquecendo de que hoje isso virou profissão, citada como o mais antigo ofício desde tempos primordiais.

Antes, essa profissão era conhecida como promiscuidade, venda do próprio corpo, entretanto, atualmente atribui-se  nobreza, coragem e desafio a quem se dedica a ser uma meretriz, "mulher da vida" como se chamava no passado. Engraçado, por acaso as outras mulheres consideradas de boa moral não tinham vida? É deveras, no mínimo bizarro, atribuir vida àquelas que apenas desenvolviam a profissão do sexo para todos.

E existem de todos os tipos e categorias: as que se oferecem a preços módicos, outras a valor de ouro, e algumas que nada cobram em troca de seus serviços; acredito que as mais valorosas e que têm realmente amor à árdua profissão. É ironia, mas há uma ponta de comicidade ou tragicomédia  em tudo isso. Em países do primeiro mundo, como na Bélgica, por exemplo, são expostas como bonecas nas vitrines, exibindo seus corpos como forma de propaganda para que sejam "consumidas"como um produto qualquer à venda no mercado.

Acho que alguém do sexo masculino seria a pessoa mais indicada para falar sobre isso.... Nos meus tempos de juventude, havia locais que as segregavam, conhecido como "zona de meretrício", o que também é jocoso dizer por se apresentar como algo discriminatório. Aquelas mulheres eram visadas, marcadas pelo seu destino que geralmente se consumava ocasionado  por algum desgosto que as fizeram procurar refúgio naquele malfadado lugar, onde viviam e muitas vezes "subviviam"  a duras penas por toda uma existência. Houve uma época em que qualquer contrariedade amorosa levava o "sexo frágil" ao convento ou ao prostíbulo. 

E de repente, esse assunto me fez lembrar do áudio contendo um relato de funcionária da prefeitura, agora no período de pandemia. Contava que uma cidadã ligou perguntando se seu comércio poderia abrir, e a atendente respondeu que os produtos deveriam ser vendidos, mas não consumidos no local e sim em domicílio. O seu espanto foi quando a mulher respondeu que o seu negócio era comércio de garotas de programa...

O dia da prostituta trouxe-me também a memória de um episódio que aconteceu em uma zona de meretrício próximo à Araçatuba, no chamado Trevo, na saída da cidade. O homem era sueco e não estava acostumado a pagar por esse serviço em seu país, contratou a mulher e quando tudo terminou, ela quis receber. Indignado, recusou-se  a pagar, mas como ela insistisse comunicando-se por mímica (imagino como seriam, essas mímicas), ele pôs-se a quebrar tudo no local, saindo em seguida e pegando um táxi até a casa onde estava hospedado, que por sinal era a residência de um amigo, um cabo do exército. Não tardou para que a  polícia aparecesse na casa do tal cabo e prendesse o rapaz que levado à delegacia, acabou pagando todo o prejuízo efetuado na casa da profissional do sexo. 

Se me perguntarem se o caso é realmente verídico, aconteceu com o marido da minha cunhada, que nem de longe sonhava com o que acontecera, estava às vésperas de seu casamento e acabou acompanhando o futuro esposo à delegacia de polícia para explicar melhor o fato, uma vez que ele não falava um português eficiente para esclarecer o acontecido... 

Águas passadas, hoje ele já repousa na glória do eterno e a prostituta que lhe serviu não deve ter tido destino diferente...

Dia da prostituta, um dia para se refletir...

domingo, 14 de março de 2021

 




(Google images)

Aeternum  (Para sempre)



A noite chega sem vontade, tingindo de escuro as cores alegres da tarde que aos poucos deixa cair seu véu...Noite nublada, sem estrelas, convida à meditação, lembranças que vão desfilando na mente, compondo páginas de experiências vividas. 
A maioria das pessoas recomendam nas redes sociais através de memes e vídeos comoventes que se inicie o dia agradecendo, reconhecendo todas as coisas boas que nos acontecem e aconteceram até agora. Também há muitas que afirmam que devemos estar sempre serenos, aceitando a fase da vida em que nos encontramos, que a chegada da velhice é algo muito natural, e que a resignação deve ser sempre nossa companheira...
Entretanto, não há fórmulas mágicas  para que sejamos ou ajamos como todos afirmam ser necessário. Em um dos grupos de relacionamento que tenho frequentado diuturnamente, alguém disse que o maior valor da vida é nos tornarmos na idade madura, melhores com a progressão da vida em suas várias fases.
Porém, o que dizer de alguém que apresenta uma figura como a minha? Temperamento quixotesco, desde a infância, construída de quimeras e situações fantásticas em que a poesia sempre substituía ou melhor, adornava a realidade, eufemizando situações, colorindo com cores fortes e vibrantes os dissabores, aromatizando agradavelmente as ocasiões festivas ou funestas...
Quero dizer que não vi a velhice chegar, nunca acreditei nela, sempre foi a fantasia quem guiou meus passos: na infância era a Cinderela, a Branca de Neve, a Bela Adormecida... Na adolescência, a viajem através da dança, da música, dos ídolos famosos que me emprestavam asas para voar, e num estalo, tudo passava, como num róseo carrossel; vieram as transformações físicas, o casamento, a chegada dos filhos, a separação deles, reconstrução da vida!
Hoje, me acho num grupo de relacionamento virtual da cidade onde nasci, onde passei minha adolescência e parte da vida adulta...Vejo nas fotos frias, rostos envelhecidos, cabelos pintados com o branco da passagem do tempo, ouço e respondo falas distantes que me perguntam coisas de dantes, das quais nunca me esqueci! Sinto-me em relação àquelas pessoas queridas que comigo estudaram desde a infância como se houvesse pegado uma estrada dentro de um carro veloz que engoliu a distância avidamente e foi deixando para trás todas as emoções, rostos,  cores, vozes e locais que eu tanto frequentei e amei. 
De repente, eis que estamos juntos novamente, na frieza do ecrã do celular a postarmos fotos antigas ou atuais, tentando resgatar o elo que nos ligou durante tanto tempo! As amigas, os colegas de classe, o antigo namoradinho da pré-adolescência... Fotos de pessoas amadas que se foram; entre professores, amigos, um coisa muito surreal!
Quero dizer-lhes que foi um acontecimento muito marcante esse retorno ao convívio mesmo que virtual, e revelo que ainda continuo aquela mesma menina sonhadora de outrora, não sinto a velhice, assim como não senti nenhuma fase da minha vida com o gosto cruel da realidade... Sim, sou um Quixote na versão feminina, e sinto pena de mim... Sinto pena de mim por tudo que não vi passar, por toda a realidade que fantasiei, pela simplicidade que guardei até hoje em meu espírito, por tudo que esperei acontecer e não aconteceu, pela determinação de sempre seguir em frente, sonhando, esperando o melhor para mim e para todos.
Se me tornei uma pessoa melhor, isso não sei dizer, os sonhadores não tem maldade no coração, isso eu garanto, todavia,   apenas as outras pessoas podem avaliar isso, durante o tempo...
Não julgo, não espero nada das outras pessoas, apenas lembro e sinto! E perante a minha visão de sonho, quero dizer que todos vocês foram personagens fantásticos que compuseram o livro da minha vida, cada qual no seu papel, e sempre estarão guardados no cofre dourado da memória...

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

 


 Há quanto tempo... Torna-se cada vez mais difícil colocar aqui neste espaço algumas palavras. O que devo dizer? Preciso continuar minha missão...




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Mais um Natal que chega, desta vez vestido de cinza, sem aquele toque tradicional de magia e festa como sempre costumamos esperar e sentir. 2020 foi um ano surpreendente e ao mesmo tempo de mudança de vida, mas os hábitos que surgiram foram desagradáveis: uso de máscaras, excesso de cuidados de higiene, coisas que foram nos distanciando obrigatoriamente do costumeiro conviver com as pessoas, troca de afetos e carinho. O gelo da distância marcou ainda mais e foi afastando pouco a pouco os seres em todos os setores: no trabalho, na família, nas reuniões sociais e afetivas.

Ah, e o malfadado grupo de risco! Quanto medo, quanta orientação e presença diária de slogans e depoimentos massivos que mataram muita gente de medo  e de depressão ...

Não pudemos oferecer apoio moral à família, comparecendo para dar o último adeus àqueles que nos eram caros. 

Desta vez, não houve um alerta que sempre me avisa de que o ano está acabando e que o Natal se aproxima,  como avistar de repente lojas com produtos natalinos à venda em exposição ou propagandas anunciando a chegada da festa.

O trabalho antes tão próximo de alunos jovens e adolescentes tornou-se tão vazio, tão vago, resumindo-se a imagens  que pouco a pouco foram desaparecendo das câmeras para dar lugar a fotos ou iniciais congeladas inexpressivas e estáticas.  Os áudios foram silenciando para muitos que preferiam usar chats e escrever ao invés de falar.

Salas enormes foram se extinguindo para dar lugar a cinco ou seis participantes, o que ainda trazia imensa felicidade porque nos  fazia acreditar que alguns discípulos confiavam no árduo trabalho do professor. Reuniões exaustivas na profissão que triplicavam  o volume de trabalho, cansando sobremaneira, muito mais do que da forma presencial como era dantes...

Trabalhos maravilhosos presenciais de teatro, musicais e de dança resumiram-se a podcasts feitos com grande sacrifício para reunir a todos.

Não sei como explicar, mas esse ano não haverá Natal. Não como sempre foi, com a liberdade de expansão de sentimentos, comunicação e confraternização. A miséria econômica gerada pelo desemprego massivo, será responsável por menos sorrisos nos rostinhos infantis, menor acolhida àqueles que já não podem mandar um desafio a um novo ideal pelo avançado da idade...

        As mudanças não serão estáticas, não terminarão com a chegada de uma tão aguardada vacina... Sinto que uma brusca alteração na ordem das coisas, será um processo contínuo, um domínio do tecnológico em detrimento do humano, anunciando friamente que o fantasma da automação que se iniciara no passado,  agora solidifica-se e vem para ficar, tomando espaço maior empurrando o artesanal, a ação humana para segundo plano, exibindo vaidosamente sua superioridade amedrontadora  na perfeição artificial, breve substituta de  muitos ofícios que dependiam outrora do ser humano.

É um Natal de meditação, de preocupação com o  futuro, em que a consciência social não trará ajuda ante a monstruosa proporção da crise que se avizinha e progressivamente dá seus passos assustadores...Elevemos nosso pensamento aos céus esperando o melhor, que nada disso se torne realidade, amém ...




quinta-feira, 15 de outubro de 2020

 O  dia de hoje é especial, dia do professor. O meu dia!  15 de outubro sempre esteve tão presente na maior parte da minha vida que agora aposentada e trabalhando como professora novamente,  nada melhor do que refletir e escrever sobre ele. A figura de professor é por várias vezes comparado a um semeador, não de flores, mas  a semente do exemplo, do ensinamento, do esclarecimento, da luz que acaba com as trevas da ignorância e do mal. Parabéns a todos os professores, mas somente àqueles que procuram ser mestres de verdade, sem egoísmos, sem vaidade, sem reclamações. A despeito da sua condição pouco favorável e quase sempre irreconhecida do seu mérito, que o prazer de semear invada a sua vida, e lhes encha a alma de felicidade e satisfação do dever cumprido!



Alguém já disse uma vez:" Semeia, semeia mestre. No grande Cosmo, tu és semeador, tu és a presença, a pessoa. Não podes fugir à responsabilidade de semear... Não digas o solo é áspero...O sol queima...Não é tua função julgar a terra, o tempo, as coisas. Tua missão é semear."
Mais importante do que a semente a ser lançada no solo, é o exemplo que tens a dar.Sobretudo o exemplo da importância de dar amor. Hoje lanças o germe, joga-o na terra inculta e seca e todos os dias rega-a  para que ela se reproduza, cresça e dê lindas flores para enfeitar a vida e dar alegria às pessoas.
Se ela não vingar, por ter caído entre pedras, ou em ambiente árido, não te desesperes: tenha a certeza de que seu exemplo de humildade ao lançá-la sem presunção, será visto  e admirado.
Porque aquele que cultiva  amor, com amor será recompensado. Aquele que ensina a amar, por todos será amado. Aquele que age com simplicidade por todos será entendido.
Não creias que tua missão é fácil, ela é uma das mais difíceis tarefas que existem na face da terra. Por vezes terás medo de não conseguir lançar a semente, por outras, muitos obstáculos deverão ser transpostos para que possas semear.
Procure conhecer o solo em que trabalhas, sem contudo discriminar este ou aquele chão: na tua função de mestre e ao mesmo tempo aprendiz; se julgas, muitas vezes poderás errar sendo surpreendido com uma bela flor que nasce em campo  estéril e infértil. Na tua profissão de preparador de solo é teu dever cuidar dele adubando-o e regando-o até que se torne apropriado para o plantio, bem como é tua missão saber que todo o chão pode produzir diferentes tipos de flores, desde que não descuides dele.
Não demonstres preferências ou apego a determinado solo, semeia em todos eles para que obtenhas um vasto jardim florido.
Não reclames das dificuldades e das adversidades, se há muitas pedras no teu caminho, procure retirá-las com paciência e determinação; se a semente cai entre a vegetação impiedosa que tenta sufocá-la e impedir que nasça, ajuda-a para que respire e cresça, assim como é teu dever separar a boa semente da erva daninha que nunca deve ser lançada devendo ser arrancada quando necessário, se nascer entre as flores.
E nunca se esqueça:
O bom ensinamento transforma, lapida, fortalece. O bom exemplo será seguido e multiplicado. O altruísmo da tua ação salvará a Terra e todos os homens que nela vivem...