quarta-feira, 19 de abril de 2023

Geocentrismo X Heliocentrismo

 

😡😡😡



Não sei se é do conhecimento do leitor que o dia de hoje, além de outras personalidades, é da mesma forma,   dedicado a Nicolau Copérnico, um matemático, astrônomo e também monge. De origem polonesa, nasceu no século XV em 1473, numa era de progressos da navegação na Europa. 

Um verdadeiro cientista, o intelectual formou-se também em Medicina. No entanto, o seu maior destaque deu-se na área de astronomia, uma vez que através de estudos baseados em um observatório rudimentar que construíra em sua casa, pôde concluir que a Terra girava ao redor do Sol, contrariando a Teoria do Geocentrismo defendida pela igreja católica. Escreveu em 1530 e apenas cogitou seus estudos em 1543, no ano de sua morte.

Sua obra denominou-se "Das revoluções dos corpos celestes" e sob a supervisão da Inquisição nesse período, demorou longos trinta anos para ser publicada. Antes disso, o frade Giordano Bruno que tentara revelar seus estudos, foi condenado à morte por contrariar os dogmas da Igreja Católica.

E a ciência travava verdadeira guerra para mostrar teorias e estudos que confrontassem  os ensinamentos da igreja, como o que aconteceu com Galileu Galilei (1564-1642) que ao intentar comprovar a teoria heliocêntrica de Copérnico foi ameaçado de excomunhão e morte, retrocedendo e mesmo assim terminando seus dias em confinamento.

Conforme informações, apenas no século XVIII Isaac Newton consegue divulgar seus estudos sobre o heliocentrismo  e o papa Gregório XVI concorda  e admite o erro da igreja, tirando a censura dessas obras valiosas, pois todas as publicações daquela época passavam pelo crivo do Papa para poderem ser impressas. 

Como podemos entender uma coisa destas? Quantas vidas valorosas, horas de estudo desperdiçados, premiados com censuras e martirizações? A justificativa apoia-se no fato de assumir um erro, perder o poder sobre fiéis e também não conseguir colocar em evidência apenas a Terra e o homem feito à semelhança de Deus como um ser que não era o centro do universo.

Tais fatos revoltantes e incompreensíveis aconteceram e acontecem até hoje pelos mais variados motivos: políticos se os estudos vão contra ideologias do momento; religiosas se contrariam dogmas das instituições; sociais e econômicas se atrapalham o lucro e a ambição desenfreada. Quantas vezes tomamos conhecimento de invenções de medicamentos, ou outros produtos que nem sequer conseguem ganhar a divulgação na mídia por ameaçar grandes grupos.

É triste, mas a história se repete, contra os poderosos, não há quem possa...


pesquisa em: Toda a matéria

wikipedia

domingo, 9 de abril de 2023

Oração de Páscoa




freepick





 Hoje se comemora uma festa tradicional de fundo religioso, o que para a inocência infantil se resume a um dos mais doces presentes: o ovo de chocolate. Mas apesar dessa cultura milenar, vem a pergunta: por que Páscoa? 

Segundo informações colhidas de sites da internet, a palavra provém do hebraico pessach significando passagem. Da mesma forma, para o povo judeu, representa a sofrida travessia do Mar Vermelho por Moisés e seu povo com o propósito de fuga do jugo egípcio em busca de liberdade em uma Terra Prometida. Para os cristãos praticantes com formação católica, principalmente, a data é celebrada como a ressurreição de Cristo, a passagem da funérea morte à vida eterna.

Falando um pouco mais dessas heranças histórico-culturais,  nos esbarramos na crença dos romanos que nos aproxima mais do hábito de presentear com ovos de chocolate àqueles que nos são caros. Conforme pesquisamos, tomamos conhecimento de que aquele povo acreditava ser a Terra de formato oval, cujo nascimento seria proveniente segundo eles, de um ovo que perdera a casca (o que não nos surpreende, uma vez que a questão da forma da Terra é até hoje fruto de questões controversas e motivo de discórdia entre muitos cientistas). Mas voltando aos romanos, nesta data, costumavam presentear com ovos de galinha coloridos.

 Há ainda outras simbologias envolvidas, a maioria delas de caráter sacro como aquela de que Maria Madalena ao visitar o sepulcro de Cristo, encontrara-o aberto e um coelho seria encontrado ali como prova de ser a primeira testemunha da ressurreição,  tornando-se assim o símbolo da Páscoa. E por último, deposita-se no ovo a simbologia de vida, de seu nascimento.

Verificamos assim, que a palavra páscoa traz vários significados em sua essência, ficando condicionada à crença de diversas culturas e etnias. 

Voltando a ideia mais doce, dos presentes de chocolate, vemos um casamento perfeito entre a inocência infantil desprovida de maldade e malícia que espera ansiosamente pela agradável surpresa e o comércio massivo, a concorrência selvagem no mercado capitalista pela sobrevivência e lucro no mundo em que vivemos hoje. 

Do mesmo modo, não podemos nos esquecer da ausência deste hábito em muitos lares pela dificuldade financeira, o que deve ser motivo de  preocupação para todos nós. 

Nesse ponto, apenas para ilustrar como esse presente marca a existência infantil, recordo-me com fidelidade de um grande ovo de Páscoa que ganhei de minha saudosa avó, Carlita, por volta dos meus sete ou oito anos, fato que me deixou encantada  ao recebê-lo: envolvido caprichosamente em papel chumbo prateado, celofane incolor e decorado com um grande laço verde-bandeira. E o sabor então! Verdadeiro chocolate, sem traços da industrialização moderna, a pureza do cacau que esquentava os lábios em contato com ele! Coisas e sabores do passado  que jamais voltarão. Para nossas crianças, não há parâmetros felizmente, e o que conhecem é o que amam.

Entretanto, para mim, a Páscoa se resume além dos sabores, em confraternização sem preço daqueles  que amo e por isso não canso de agradecer a oportunidade de mais um ano de vida junto deles. Embora não conseguindo reunir todos aqueles que desejamos, temos a alegria de nos sentar em uma mesa junto dos filhos, netos, familiares, compartilhando um almoço feliz com a doçura dos chocolates e mimos tão essenciais para as crianças. 

Desejando a harmonia e a confraternização familiar, pois a data é uma comemoração da família, peço a Deus que una  e abençoe essa instituição, evitando sua desintegração que é cada vez mais comum na sociedade hodierna, e que, da mesma forma, afaste a violência entre casais, proporcionando uma Páscoa com chocolate para todas as crianças independentemente de sua classe social, essa é a minha oração e espero que a de todos.




Pesquisa histórica em:

www.google.com

www.bbc.com/portugese/geral43577512

sindeducacao.org


sexta-feira, 31 de março de 2023

É possível conseguir uma alimentação saudável atualmente?

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Entre outras comemorações, 31 de março celebra o dia da Saúde e Nutrição. Escolhi esse tema para discutir hoje porque é polêmico e adoro assuntos dessa natureza controversa, uma vez que como de costume, prega-se uma filosofia praticamente impossível de acontecer, enquanto muitos se convencem de que estão fazendo a coisa certa...

Já tenho vivido muitos anos, observado e ganhado experiências ao longo deles, dessa forma, tenho propriedade para versar sobre diversas matérias.

Hoje, temos a ciência e a tecnologia à mão para evidenciar detalhes sobre o funcionamento do nosso corpo; produtos criados aos milhares para fins nutricionais, drogas lícitas vendidas livremente no mercado para estes fins, adquiridos com facilidade se o cidadão dispõe de meios financeiros para obtê-los.

Conforme o tempo passa, sentimos seu peso em um organismo que já não trabalha como dantes, as carências vitamínicas, o desgaste físico e mental é evidente e nunca se falou tanto em uma alimentação balanceada, saudável com a finalidade de uma melhor qualidade de vida na idade adulta e senil.

Nesse ponto, começam as incongruências; já temos convivido com essa palavra, quando dizemos ângulos congruentes, estamos significando iguais da mesma medida, enquanto que o prefixo in adicionado, traz a negação, a incoerência entre dois pontos: é inegável que precisamos manter uma boa nutrição, no entanto, conseguimos esse intento?

Vamos por partes, o que é uma boa nutrição? São inúmeras as informações que lotam sites científicos, de cunho popular, orientação médica entre outros: vitaminas, proteínas, carboidratos na medida certa, fibras, oleaginosas, açúcares, entre outras que o organismo necessita.

A primeira questão que gira em torno do primeiro grupo, o  das vitaminas, é a questão econômica: poucos são aqueles que conseguem comprar frutas e verduras para manter uma dieta equilibrada nesse país, que disponham de capital para mantê-la, em especial os aposentados com  apenas um salário mínimo que precisam manter todas as suas despesas com tão pouco, principalmente num momento em que os preços estão pela hora da morte. 

Não podemos mais nos referir ao velho ditado "por preço de banana", pois a fruta rica em potássio já está valendo ouro, uma vez que seu preço passa de dez reais a dúzia, que dirá as demais frutas, as sofisticadas que aparecem na mídia como verdadeiros milagres para o corpo e a mente. Da mesma forma, as verduras apresentam um aumento sistemático de preço a cada semana. Pagamos muito por uma verdadeira bomba de agrotóxicos, adubos e pesticidas.

O que dizer então das proteínas? Carnes de qualquer tipo são praticamente produtos proibidos para muitos bolsos; leite, ovos já não podem mais substituí-los, pois entraram na mesma corrida do ouro; produzidos e enriquecidos com alta tecnologia, são oferecidos em larga escala para exportação e praticamente fugiram de muitas mesas que não têm poder aquisitivo para sustentá-los.

Os sofisticados oleaginosos nem precisam ser lembrados, são artigos de luxo, não servem para todos que deles precisam, restam ainda os carboidratos que também sofreram alta de preço, entretanto, vêm em maior quantidade como o caso do arroz e do macarrão. Enfim, a questão dinheiro pesa muito na balança do prato saudável.

Outra questão envolvida no tema é a qualidade dos produtos oferecidos à sociedade de maneira geral: altamente processados, industrializados trazem em sua composição altos índices de produtos químicos do tipo conservantes, corantes, aromas e outras porcarias mais que enfiamos goela a dentro sem opções de um orgânico acessível e de qualidade fiel. Os famigerados transgênicos, cuja aceitação veio através de um próprio e conhecido presidente da república apresentou-se como solução momentânea na questão da quantidade de oferta, entretanto,  foi o xeque-mate na questão de uma dieta alienígena, cujos consequências só poderão ser avaliadas ao longo dos tempos e já  começam a produzir seus efeitos nocivos na saúde da população, que atribulada,  atrás do seu pão de cada dia, não se dá conta e nem tem tempo ou a cultura necessária para se envolver nesse caso. E vox populi, vox dei, embora saibamos que o produto transgênico nem entra no continente europeu.

Alimentos totalmente inapropriados na dieta infantil mostram sua cara sorridente nas prateleiras dos supermercados a altos custos e baixos atributos para a saúde física e mental, enlouquecendo progenitores que não resistem ao choro de seus filhos e acabam em um tremendo sacrifício adquirindo esses falsos nutrientes. Os embutidos oferecem sérios riscos  cardiovasculares acompanhados dos açucarados responsáveis por altos índices de colesterol e glicemia no organismo infantil e de adultos. 

E a fome em pleno século XXI é realidade não apenas nos países paupérrimos ao redor do mundo, mas nele todo; uma fome funcional, assim como acontece na educação com os analfabetos funcionais, querendo significar que não se chega a morrer sem alimento, contudo o povo come muito mal, o que não se apresenta como ponto favorável a uma boa saúde.

E nesse ponto, eu pergunto ao caro leitor: temos condição de cumprir o que esse dia representa?



quarta-feira, 22 de março de 2023

Até quando é preciso repetir a nota dó no piano?

 Parece brincadeira, entretanto mais um ano se passou  e estamos aqui a falar sobre o mesmo assunto de sempre...O dia mundial da água potável.




👀



Dizem que quando tocamos a mesma nota musical em um instrumento, ele desafina. Pode não ser verdade, mas isso chateia e é sinal de que não estamos sabendo usá-lo devidamente.

Em plena era do desenvolvimento tecnonólogico, evolução da comunicação ao ponto de domínio de informações sofisticadas, conhecimento da vida em outros planetas e satélites, nos esbarramos com o básico do básico: o ser humano não sabe cuidar do seu planeta, não preserva, destrói, polui, macula o seu próprio habitat. Diferentemente das outras espécies, torna-se nesse aspecto um ser irracional, que agride seu meio ambiente e em especial uma coisa sagrada, o princípio da vida e sobrevivência: a água.

Sabemos que o dia 22 de março foi estabelecido pela ONU como dia mundial dedicado ao líquido precioso, milagroso que, infelizmente, está se acabando não diria aos poucos, contudo, sistematicamente. Temos recursos aquíferos inigualáveis a muitas partes do mundo, cuja escassez tem levado ao caos e ceifado muitas vidas, porém essas campanhas de conscientização  não estão sendo o bastante para mobilizar, convencer as pessoas de que devem cuidar de suas águas sob a pena de perderem suas vidas, uma vez que não há condições vitais sem elas.

O que cansamos de ver em nossa caminhada diária, nas grandes e pequenas cidades, são cidadãos cuja denominação não condiz com a atitude, atirando papéis, embalagens plásticas, entre outros detritos pelas calçadas, ruas, rios, mares. Como uma verdadeira máquina de lançar lixo, cuja eficiência é de difícil combate, têm causado um dano irreversível às reservas hídricas, uma vez que entopem bueiros causando enchentes, poluem rios, mares, matando os animais em seu ecossistema sem escrúpulo ou remorso algum.

Mas e como fica a Educação nas escolas e no lar destas pessoas? Na verdade, inexistem, são ineficientes didaticamente e uma prova disso está estampada nas atitudes apresentadas e citadas acima. Não há mais a seriedade necessária que imprima uma marca de caráter ética e consciência social com raríssimas exceções.  E o melhor exemplo vem das atitudes, que servem modelo à sociedade em geral. Lembro-me de ver minha mãe guardando pequenas embalagens em saquinhos em sua bolsa para que não maculassem os passeios e ruas da cidade. Atualmente, se vamos a um simples cinema, vemos o lixo acumulado e fora das lixeiras que há para esse fim, se estamos em uma praia, temos que conviver com a sujeira e detritos por toda a areia e nas águas, pois não há preocupação alguma em recolhê-los e colocá-los nos locais destinados a essa finalidade, enfim, há o constante desprazer em ter que conviver com um ambiente desagradável e mal-cheiroso, por qualquer lugar aonde vamos.

É uma vergonha nacional, não há fiscalização, punição para um crime hediondo destes, que privará as gerações futuras de sobrevivência e sustentabilidade, causada pela inércia do poder público, falhas terríveis na educação e formação de caráter de seus filhos. 

Dessa maneira, vemos rios inteiros morrendo a cada dia, o que me mortifica por dentro em constatar que como um câncer, a  inconsciência e teimosia humanas levarão a todos da má qualidade de vida à própria morte e privação deste recurso tão essencial para os homens.

O que mais indigna é constatar que um rio do porte do Tietê venha sendo tratado com um desprezo sem igual, sofrendo com eutrofização visível em grande nível e o pior, nas cidades do interior paulista, porque em São Paulo ele já é submetido a depósito de entulho, esgoto, produtos empresariais, lixo doméstico de toda a sorte, situação que precisa ser cuidada com urgência. Quem observa em suas viagens e acompanha o curso deste importante rio, pode constatar esse crime ambiental impune, banalizado que parece não ser  reconhecido, pelo menos, não temos visto atitudes sérias tomadas no sentido de consertar ou deter essa mancha que vem se abatendo sobre nossos mananciais e lençóis freáticos. 

Esta semana uma balsa que transportava grãos pelo rio Tietê na cidade de Araçatuba, encalhou nesses igarapés, que nada mais são do que a própria eutrofização das águas, devido a lixo acumulado nas águas que a apodrecem e levam seu oxigênio, destruindo o biossistema, peixes e outros animais fluviais. 

O que mais será preciso? Que todo o rio seja tomado para que não tenhamos energia elétrica, aderindo às caríssimas usinas de carvão? Que não tenhamos mais peixes para alimentação? E ainda se fala em transporte fluvial, é piada? Corremos o risco de não termos sequer um copo d'água para matar nossa sede se essa pouca-vergonha e insensatez continuar... 

terça-feira, 14 de março de 2023

Zoológico de A a Z...

 O texto de hoje versa sobre eles, os animais de maneira geral. Por que os seres humanos teimam em humilhá-los?







É impressionante como o homem tem o poder de tripudiar sobre os animais. Tal fato dá-se, acredito, pela sua superioridade intelectual, (por vezes, em alguns casos, aqueles raciocinam bem mais) e por covardia, por se paramentar de armas de fogo contra as quais não há saída.

Além de escravizar, "domesticar" (o que possivelmente significa a transformação à condição  humana) o sentimento de posse, faz com que o agrida fisicamente, ferrando, marcando e fazendo-o de transportador de carga, entre muitas outras funções como a de guia, palhaço, fonte de riqueza e até segurança... São muitos anos de jugo, tempo suficiente para que o que vou citar abaixo não acontecesse...

Quando o homem ou mulher não tem uma higiene esperada, são chamados de quê? Logo os inocentes porcos servem de parâmetro para nomeá-los pelo mesmo nome, enquanto o dócil suíno só segue seu instinto animal...

E se a mulher não tem princípios de moral, logo é denominada de vaca, cadela, galinha, égua e até cachorra, às vezes por não agradar às pessoas com quem se relaciona.

Burro ou mula  é a alcunha dada àqueles que não são intelectualmente privilegiados, assim como anta ou toupeira, enquanto cabra é um ser desprezível. "Eta, cabra da peste!" ou o espanhol "Cabrón," demonstrando que o costume não é apenas do nosso país, mas  vai além da escala  nacional. Da mesma forma, macaco, que é o mais execrável dos animais, assim como  ovelha negra na questão de incitar preconceito e crime inafiançável,  acompanhado do humilde veado, que se citado, é considerado crime de homofobia assim como gazela...

Se o pobre tem altura privilegiada, logo lhe vem o apelido de girafa; se gordo; baleia, elefante ou hipopótamo, cognomes que podem ser identificados como  contravenção à gordofobia...

Cobra e víbora se alguém comete o deslize da traição, bem como raposa se a pessoa é sorrateira e age às escuras; se não é favorecido fisicamente é feio como o cão!

Pata choca, se não há agilidade nas ações e movimentações que se espera. Bode foi a denominação de orientais por muito tempo...

Se há tendências a se apoderar do que é de outrem já aparece a designação de Rato, gato, sendo que esse último felizmente é usado como elogio aos fisicamentes beneficiados. Papagaio e maritaca encaixam-se bem àqueles que falam em demasia.

Peixinho, se costuma ser subserviente, apadrinhado de alguém  ou oportunista no que diz respeito a levar vantagem sobre outro , e recebe a locução  adjetiva: de pavonice, se o sujeito é muito vaidoso. Se não é leal com amigos  um onça ou urso cai-lhe muito bem! Uma situação que foge do esperado: zebra é apropriado.

Felizmente, alguns desses malfadados animais venturosamente são usados como elogios. São esses os privilegiados: tubarão, para os mais poderosos em uma sociedade; leão para os fortes fisicamente, assim como touro para os sarados e musculosos. Se o indivíduo canta bem é um pássaro e até pode ser assemelhado a  um jegue, se bem dotado sexualmente...

Enfim, se ainda não há convencimento de que usamos os animais para representar as características humanas, que alguém se manifeste ao contrário...Tenho absoluta certeza de que o leitor conseguirá facilmente acrescentar mais uma letra para completar  o alfabeto de zoologia, quer tentar? 


terça-feira, 7 de março de 2023

Uma homenagem que incomoda

 Amigos leitores, desculpem-me a franqueza, porém ultimamente, as datas comemorativas são cansativas, as atividades relacionadas estendem-se por semanas, o estrago que fazem em nossa paz é incomensurável...



😠😠😠😠!



Mês de março. Quando ele se aproxima, logo me recordo do período em que lecionava: todos os anos, consecutivamente a comemoração do dia da Mulher. Cada oito  de março para mim e acredito para muitos que não têm a coragem de assumir, era entediante. Aquela mesma historinha de sempre de mulheres queimadas na fábrica de tecidos americana, preconceito e machismo que temos que trabalhar incansavelmente como outros vários projetos que vêm de cima para baixo e que não podemos discutir. 

Assunto chato para redação, não há atrativo em escrever sobre um monte de baboseiras repetitivas que envolvem a data num momento em que muitas das principais interessadas não estão nem aí para filhos, maridos, família ao contrário da idolatração do gênero que coloca todas em um pedestal de ouro, mostradas sem direito algum, em uma comiseração de dar medo.  Nunca me senti assim, e olha que sou mulher...

Nessas horas de março, não canso de abençoar minha aposentadoria que me livrou de fazer o que não queria, perdendo horas preciosas que poderiam ser dedicadas a ensinar de fato o que mais interessava para a vida: a arma do conhecimento para enfrentar a luta diária.

Como se não bastasse, minha residência é próxima do Parque Tietê Armênia,  estádio da Lusa e Parque Anhembi... Estes dois últimos terceirizados e com uma agenda bastante ativa. O maior problema é que a comemoração do dia da Mulher começou com dois dias de antecedência e despertei já na manhã do dia três, sábado com um barulho ensurdecedor de possantes caixas de som, que pareciam estar a serviço de São Paulo inteiro e do demônio, dado a intensidade e altura do volume nos aparelhos que fizeram as crianças aqui da quadra do meu prédio perderem o páreo, e olha que têm uma garganta...

Guitarras estridentes apresentavam na maioria músicas latinas e pop e os baixos reverberavam de tal forma que refletiam no estômago, causando enjoo. Parecia que todos deveriam compartilhar do mesmo gosto musical e da cara de pau de passar por cima da lei do silêncio, e ela existe, ultrapassando todos os decibéis permitidos e de lambujem, muitos mais.

Por incrível que pareça, a atividade de lazer durou todo o sábado até, acreditem, quase quatro  da matina. Consegui dormir mal e acordei com o mesmo inferno por esse horário. O domingo mesma coisa, até saí do apartamento para me certificar de onde vinha aquela desgraça toda, temendo que os famigerados bailes de rua, principalmente os funks estivessem acontecendo, o que por força de providência divina não ocorria  e percebi a movimentação no Parque Tietê, onde um palco gigantesco fora montado. Pensei em reclamar, mas para quem? Só se fosse para Jesus, porque a própria polícia ali estava para dar segurança ao evento... Não estava no local  para que se fizesse cumprir a lei do silêncio... Em uma outra ocasião, registrara um caso parecido no site da prefeitura da cidade e até hoje, já se passaram quatro anos aproximadamente e nada de resposta.

Engraçado que quando é para trabalhar, todos são considerados escravos, submetidos a sofrimento, entretanto  para lazer destrutivo da tranquilidade alheia os mesmos varam a noite com prazer e não são escravos, isso se dá voluntariamente? Pelo amor de Deus!

Aquilo me reforçou , me condicionou negativamente com a data da homenageada, resumindo-se em repúdio e por que não dizer ódio? No domingo, o mesmo. Despertada com a mesma cena do sábado, roguei a Deus para que calasse aquele bando de insanos, e à noite, ela veio para me salvar: a bendita chuva que caiu a cântaros, dissipando a turba e acabando com aquele festa indesejável para os moradores do bairro em que resido. 

Eu cantava por dentro: "Chove chuva, chove sem parar!" Nunca amei tanto uma chuva como essa que chegou de surpresa, ditando sua lei que ninguém pode violar...

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

 Serão os filhos para o mundo?


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Deixei de prestar atenção à estrada e suas belas paisagens, para me concentrar em uma entrevista com a competente psicóloga Cleuza Canan concedida através do rádio. Especialista em tratamentos e terapias em favor de dependentes químicos, falou pelo menos durante uma hora aproximadamente sobre o tema, esclarecendo vários pontos importantes a respeito.

Para introduzir o assunto, explicou sobre os vários tipos de drogas tanto as lícitas como as ilícitas e não apontou pontos positivos em  nenhuma delas; tanto o  cigarro quanto o álcool trazem malefícios ao sistema nervoso central, atuam na região frontal desenvolvendo uma falsa ideia de prazer temporário, cujo efeito passa, induzindo o indivíduo ao uso, o que vai desenvolvendo dependência química. Sobre a nicotina, os estudos apontam que a toxidade do produto não atinge apenas o fumante, mas também a quem estiver próximo.

Apesar de serem consideradas permitidas socialmente, trazem imensos danos ao organismo humano e no caso do álcool, classificou-o como uma das piores drogas que uma pessoa pode ingerir, no sentido da dependência e dos efeitos que causa, destruindo neurônios e a vida social do viciado. A profissional definiu alcoolismo como algo de que a pessoa não consegue se livrar e de que não pode deixar de usar. Não importa a quantidade, a frequência  e o mal-estar que sua abstinência traz, são indicadores da dependência. Atualmente, esse vício atinge o público mais jovem e até crianças de nove anos dado a facilidade de obtê-lo,  apesar da venda proibida  a menores.

Quanto às drogas ilícitas, houve a informação de que geralmente o uso  é mais comum em pessoas que já consomem as substâncias lícitas, sendo a canabis, a mais comum delas. Salientou que ao contrário do que muitos afirmam, ela é muito diferente do canabidiol, medicamento legalizado para tratamento de moléstias mentais. O primeiro é tóxico para o organismo, leva à dependência e causa esquizofrenia com o passar do tempo de uso, além do mais, por conta da banalização do consumo e informações errôneas, traz ainda um agravante quanto a preparação do produto: feito por pessoas comuns, sem preparo científico visa apenas lucro, não se importando com a qualidade da substância.

A psicóloga afirmou da importância do tratamento contra a dependência que impreterivelmente deve envolver internação, psicoterapia  e uso de medicamentos que façam uma limpeza no organismo, uma vez que no caso da maconha, a canabis impregna o cérebro. Muitas vezes não são apenas pessoas comuns que a utilizam, salientou que nos dias atuais, recebe muitos pacientes da área médica, esses profissionais que durante a pandemia de Covid-19 tiveram uma exacerbação de trabalho em sua jornada nos hospitais e usaram a canabis para relaxar e conseguir suportar uma carga exaustiva em seus empregos. O mesmo se deu quanto ao uso de barbitúricos, anfetaminas e benzodiazepinas, entre outros.

Foi abordada também a questão das bebidas à base de cola e outras que envolvem produtos químicos e  sintéticos que, da mesma forma, são nocivos à saúde, cabendo aos pais a responsabilidade no sentido de oferecer uma alimentação mais saudável a seus filhos.

A pergunta que não quer calar é: Por que razão nestes tempos modernos as pessoas procuram tanto os vícios para se alegrarem? Num passado não muito distante, os jovens em sua maioria levavam uma vida mais saudável em contato com a natureza e com pessoas ao seu redor. Havia sim, aqueles que procuravam substâncias lícitas e ilícitas, porém o número era irrisório se compararmos com a atualidade. Essa profissão de psicólogo, nem quase existia, os padres em seus confessionários exerciam essa função, ao ouvirem as pessoas, aconselhando-as, dando-lhes penitência, assim, aliviando sua tensão emocional.

A educação era única e exclusivamente dos progenitores, sem intromissão de mídias que produzem uma arte violenta e ambientes pouco recomendáveis aos jovens. A disciplina e limites de comportamento já se iniciava na própria escola, em ambientes sadios que cuidavam da cultura que transmitiam a seus discípulos com carinho e competência, formando o cidadão na sua totalidade com retidão de caráter.

O progresso tem vários pontos positivos, porém produziu pessoas tristes, que não conseguem encontrar a felicidade a não ser consumindo exageradamente e adquirindo vícios que não lhes favorecem a saúde física nem mental.

Tornou-se difícil educar um filho. Hoje dizem que são cidadãos do mundo, mas um mundo cão que não se importa nem um pouco com eles. 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

A cadeira esquecida

 

Entre outras efemérides, o dia 20 de fevereiro é dedicado aos animais de estimação... Assim...







 

Quando olho a velha cadeira de madeira da varanda, parece que vejo a sua meiga imagem.

Lembro que te salvei da morte com apenas três meses de vida. Tua primeira dona não te queria e te colocou portão afora usando uma vassoura. Recordo do teu olhar assustado, seu pelo amarelinho claro e grandes olhos azuis.

Foi paixão a primeira vista, percebi o perigo iminente que corrias enquanto assustado  e desorientado ganhavas a rua.

Por sorte, estávamos a pintar a nossa casa em Rio Claro, ajeitando daqui e dali, fazendo reparos na tentativa de melhorar a aparência daquele pequeno sobrado onde morávamos para colocá-lo à venda, antes de retornar à São Paulo definitivamente desta vez. Pude vislumbrar a cena que me deixou indignada e ao mesmo tempo preocupada, temendo que o pior acontecesse se ganhasses a avenida ao lado, onde os carros desenvolviam grande velocidade. Eram três gatinhos, seus irmãos; um deles de imediato foi atropelado na citada avenida perdendo a vida de uma maneira brutal; o outro, não consegui ver para onde foi, mas você, como se fosse mandado pelos anjos do céu, perpassou a grade em frente a casa onde estava e te pus a salvo, dei-lhe água e alimento.

Terminando o trabalho da casa, preparei-me para deixá-la, no entanto,  não tive coragem de abandonar-te ali, à mercê da própria sorte... Um filhote bebê de apenas três meses. Deixei de pegar o ônibus de volta, peguei carona com um ex-vizinho caminhoneiro que passaria pelo bairro do Butantã levando-te comigo em uma caixinha improvisada e bem fechada. Corri o risco de ser despejada do ônibus até o Centro de São Paulo onde morava. E lá estava você, sempre comigo. Te vi crescer, ganhar a idade adulta. Enfrentamos mudanças de apartamento, para um sítio em Igaratá, uma casa térrea em São Bernardo e finalmente para o nosso apartamento definitivo que foi a sua última morada.Curioso é que você seria um presente para minha filha, porém, ao se casar, ela não teve coragem de separá-lo de mim, dado ao apego entre nós dois.

Muitas passagens felizes, um relacionamento quase espiritual; você passou a entender uma infinidade de palavras do meu vocabulário e respondia no seu idioma felino todas as vezes que te chamava ao meu lado. Seu local preferido era a cadeira na sacada do apartamento, ali ficavas já na idade mais adulta entre a sombra das plantas, a tomar o sol da manhã, aproveitando aqueles raios benditos. 

O primeiro susto...Você se mostrou doente, os olhinhos irritados e sempre a lacrimejar, perdeu o ânimo, a vontade de brincar com as bolinhas de papel-alumínio de que tanto gostavas, ainda respondendo de forma triste os meus apelos...

No veterinário, após exames, soube que estava com problemas respiratórios, mas graças a Deus descoberto em tempo, o que me deixou ainda mais apegada a ti. Já sem a companhia dos filhos, todos casados, cada qual seguindo a sua estrada, lá estava eu, apenas com o marido e Nini, meu amado  e inseparável gatinho.

Ficaste bom, a alegria voltou ao meu lar. Compartilhamos excelentes momentos juntos, até que um dia após anos daquele triste incidente, observei que já não apresentava mais a disposição de antes. Julguei ser culpa da idade, 14 anos, não eram poucos para a vida de um felino...

Entretanto, conforme os dias passavam ligeiros, sua condição foi piorando, lamentavelmente. Correndo novamente ao veterinário, após baterias de exames, confirmou-se: comprometimento dos rins em franco desenvolvimento. 

Para meu sofrimento, acompanhei sua agonia de tratamento, soro, injeções intermináveis, coisas que te deixavam totalmente agressivo, para minha surpresa, um animal cuja docilidade era impressionante. Regressando a casa, demonstrando uma ligeira melhora, fui incansavelmente administrando todos os medicamentos que lhe foram prescritos. 

Veio a piora, agora, não mais sustentava sua linda e imponente cabeça, sempre cabisbaixo e mudo...Deixou de comer para  o meu desespero.

Muitos amigos me aconselhavam a levá-lo para a Eutanásia. Não tive coragem de ser a carrasca que extermina a vítima indefesa. Jurei que suportaria até o último instante, até o último suspiro que darias, sem desistir de te acompanhar e lhe dar ajuda. 

E foi o que ocorreu após uma semana. Fostes tranquilo, numa noite estrelada e fria entre minhas lágrimas de tristeza e dor.

 Nunca mais te esquecerei,  e ainda hoje, fitando a cadeira vazia de que tanto gostavas, penso numa nova versão da música folclórica americana Old Shep:

"Se os gatos têm um céu, só uma coisa eu sei: Nini, você tem uma morada maravilhosa"...

 

* A música Old Shep é uma canção americana do campo, imortalizada na voz de Elvis Presley, que conta a história de um cão que o próprio dono teve que exterminar, porque estava muito doente. 

E no final ela diz: "If dogs have a heaven, just one thing I know, Old Shep, has a wonderful home" ( Se cachorros têm um céu, só sei de uma coisa: Old Shep, você tem uma morada maravillhosa).

 

domingo, 12 de fevereiro de 2023


Progresso X Qualidade de vida



Muitas vezes, me pego pensando sobre  o progresso e me questiono sobre a evolução espiritual da espécie humana...


💀😈😈



Por certo, ela não evoluiu proporcionalmente; infortunadamente, evoluiu para pior.  Ouvindo uma programação dominical sobre pecuária e avicultura, as vozes dos repórteres foram se tornando distantes em minha mente, cedendo lugar a análise e reflexão, uma vez que uma tremenda revolução tecnológica tomou conta de grande parte da vida dos homens do campo que dispõem de capital para financiá-la. São mudanças que trazem maior rentabilidade e certeza desse lucro no sentido de derrubar de forma selvagem a concorrência menos favorecida economicamente neste setor. 

Por um lado,  apoiadas pela publicidade milionária,  essas novas transformações são apontadas como responsáveis por favorecer positivamente o bem-estar animal,  assistido cientificamente  e sistematicamente ao lado de uma bioética que na maioria das vezes não tem força para agir de forma contrária. Desse modo, vemos grandes criações de gado leiteiro reduzindo o rebanho a seres mecanicamente conduzidos, por exemplo, com uma alimentação voltada basicamente à produção de leite de modo inconsciente, através de máquinas, que longe de terem a suavidade da mão humana na ordenha, conduzem os pobres animais a inflamações e casos de câncer de úbere, visando apenas obtenção de lucro e poder. Hormônios de crescimento aplicados insanamente produzem o amadurecimento precoce para  o abate, assim como a utilização de produtos  químicos objetivando um  efeito de carne mais macia e apetitosa, que roubam do animal a possibilidade de longevidade e vida natural. A alimentação reduzida a rações fabricadas em uma grande indústria  que almeja apenas redução de custo para o criador abrindo margem a aumento de lucratividade,  afastando definitivamente o orgânico e o sabor natural dos alimentos que o animal poderia saborear em um passado não muito distante, sem falar na fecundação, totalmente artificial, privada do contato físico, gerando milhões com o aumento da produção. Uma engenharia genética obcecada por aprimoramento da raça, mais preocupada com o armazenamento e venda de sêmens do que com o próprio bem-estar animal.

Muito triste tudo isso. O que falar então sobre a avicultura, em que o confinamento dos animais aproveita os mais exíguos espaços das granjas infinitas, voltados essencialmente para a produção de ovos ou abate, afastando para sempre o modo clássico da criação desses pobres seres, atualmente, proibidos de contato com o solo e uma vida saudável no campo. Novamente, através da tecnologia, os hormônios aplicados favorecem um crescimento precoce que garante um abate em menor tempo, gerando maior fonte de renda ao produtor. Em muitos locais, o controle de qualidade leva a destruição dos animaizinhos que não oferecem os requisitos exigidos pelo mercado, acabados como objetos em máquinas trituradoras. Algo terrível de se acreditar, mas acontecia e devem acontecer em vários locais.

Nesse momento, paro para indagação: a que ponto chegou a maldade humana absorvida pela avidez da obtenção de lucro. Tecnologicamente, o avanço é exponencial da mesma forma que a alma do ser humano que perde toda a sensibilidade e humanidade em detrimento do poder econômico e status social, deturpando-se, afundando-se na lama da mecanicidade, transformando-se em um robô movido pelo dinheiro apenas. Sem contar que o nosso país figura como grandioso no segmento, ao lado da China, Estados Unidos e países da União Europeia.

Manter a receita bilionária de maior produtor tanto no abate como produção de insumos não é nada fácil, torna-se uma verdadeira guerra e coincidentemente aparecem as doenças trazidas por vírus e bactérias que por vezes atingem todo um rebanho trazendo um prejuízo incalculável para os criadores: é a febre aviária, aftosa, maculosa, suína, doença da vaca louca e outras mazelas mais, tão oportunas para exterminar a concorrência...

Para a população consumidora, a qualidade do produto não beneficia a saúde, uma vez que absorvemos todo o pacote químico e tecnológico a que o gado é submetido. Há a possibilidade de um orgânico, caríssimo em que temos que  confiar, sem possibilidade de  acompanhamento ...

Resta a pergunta: há como resgatar a vida natural de outrora?

O leitor pode imaginar e responder.



domingo, 5 de fevereiro de 2023

A primeira sociedade é uma instituição falida?


 imagens: freepick



 Entende-se por uma sociedade, a união de pessoas que trabalham conjuntamente para alcançar um objetivo. Buscando cumprir  metas, muitos sentimentos são envolvidos para se atingir um fim. Entre eles estão presentes inúmeros interesses como garantia de  status, projeção social, além dos econômicos obviamente. Existem grupos que se formam com o intuito de pesquisa científica, outros se voltam para fins filantrópicos; ainda há aqueles de cunho exclusivamente profissional; enfim, são inúmeros.

Quando o envolvimento entre os membros de um grupo tem por base emoções, principalmente de caráter afetivo, temos o grupo familiar. Certamente, a primeira sociedade de que se tem notícia no mundo, a família como é concebida originalmente traz em seu bojo como princípio e base principal o amor. Durante muitos e muitos séculos, essa foi a sua  principal concepção: desejo sincero de formar pessoas dignas, felizes e aptas para a vida em sociedade. Nesse caso, a questão afetiva sobrepujava interesse financeiros e escusos, funcionando com o objetivo único de sucesso dos seus membros. É óbvio, que sempre existiram as exceções à regra, mas nestes,  o final era sempre de fracasso,  desintegração e desestruturação de seus elementos.

Como exemplo, podemos citar casamentos contratados por interesse e acertos entre pais que exerciam muito mais a função de comerciantes, visando lucro e oferecendo seus filhos como mercadorias. Revendo a história geral, temos o caso do imperador romano Júlio César, assassinado pelo próprio filho adotivo, Brutus; entre muitos outros casos que ocorreram no passado. Entretanto, quando a família recebeu uma organização religiosa o objetivo foi a monogamia, um sistema ainda patriarcal onde a palavra do pai era essencial, o propósito era a preservação dessa estrutura.

Podemos observar que atualmente esse conceito vem sendo dilapidado vorazmente através do tempo. Nessas novas eras em que a tecnologia ganha espaço vital entre os seres humanos e em grande parte tem sido apontada pela causa de facilitação da poligamia, desentendimentos e até mortes é que nos questionamos como chegamos nesse caos sem solução. Certamente, basta lermos algumas informações científicas para  tomarmos ciência do tamanho do mal causado aos membros familiares por uma separação: desajustes emocionais, personalidades distorcidas, violência, criminalidade, autismo, doenças psíquicas, somáticas e tantos outros. 

O problema crucial encontra-se na falta de amor: casa-se por interesse financeiro e  ascensão social, e o resultado é simplesmente jovens na flor da idade unindo-se a idosos endinheirados. Será amor? Com raríssimas excecões, é lógico que não, união em que se aguarda avidamente a morte do parceiro para a posse de fortunas econômicas. Quando não,  muitos já sobem ao altar (ou melhor, nem sobem, amasiam-se) com a intenção de separação se não der certo.

Perdeu-se totalmente a noção de dignidade e caráter. Se não temos família, e sim a desestruturação, a sociedade conta com um rebanho de jovens perdidos pela vida, sem orientação alguma, privados de bens materiais, alimentação e vida digna, entregando-se à mercê da sorte, formação duvidosa, marginalidade. Nada se pode fazer, uma vez que o caráter é formado basicamente aos sete anos de vida. 

Não há interesse em controle de natalidade, nem ouvimos falar disso, quando muitos casais que não poderiam ser responsáveis sequer por um animal de estimação, lotam o exíguo espaço com filhos que não podem criar decentemente. E o resultado aí está: mal caratismo geral, falta de noção moral, ética, empatia, civilidade e compaixão. 

Diz-se que o casamento hoje, é uma instituição falida, verdade nua e crua, a liberdade  cedeu lugar à libertinagem, ao prazer desenfreado, sem limites e egoisticamente o ser humano destrói o mundo ao seu redor... 

domingo, 29 de janeiro de 2023

Pérolas esquecidas







 Muitas vezes me pergunto por que razão ele não é lembrado. Aliás, grandes compositores, os mais preparados para fazer música não são nada valorizados no nosso país. Motivos? Os mais variados; não há interesse em cultuar música erudita, afinal quem a ouve refina seu corpo e espírito, além de desenvolver o processo cerebral. Em muitas fazendas bem sucedidas, o gado tem seu momento de música orquestral erudita, e ficou provado que vivem com melhor qualidade. 

Estou falando aqui de Zequinha de Abreu, cujo nome completo era José Gomes de Abreu, o pianista que se especializou na composição de chorinhos como ninguém. Não é preciso estudar música para saber o que esse ritmo nos traz, contagiante melodia popular nascida nas décadas de 1870 no Rio de Janeiro, geralmente interpretada por flautistas, violões e cavaquinhos, deu fama a vários compositores brasileiros como Ernesto Nazareth, Antonio Callado, Chiquinha Gonzaga entre outros. Ditosos tempos do final do século XIX, em que a cultura de qualidade era oferecida nas grandes e pequenas cidades, antes do início de um filme, no cinema, as pequenas orquestras apresentavam melodias eruditas.

O conhecido Tico-tico  no fubá, Sururu na cidade, Pintinhos no terreiro, são alguns chorinhos maravilhosos de Zequinha de Abreu, porém, a sua obra-prima centralizou-se na criação de valsas. Apaixonei-me por essas composições por volta do meu quarto ano de estudo de piano. Branca, uma música maravilhosa, de 1910 é um dos exemplos de melodia que entram em nosso âmago e nos fazem viajar através dos tempos, visualizar cenários de salões de festas luxuosos onde o instrumento principal era o piano. Branca, possui uma letra musical que narra a história de uma jovem que se apaixonou, entretanto, não ficou com seu amor que partiu e a deixou. 

São valsas tristes, que parecem combinar com a personalidade deste músico incomparável. Nascido em Santa Rita do Passa Quatro em 1880, iniciou sua carreira de médico, mas não a terminou porque sua vocação era a música. E fez muito bem, pois as jóias que produziu são pérolas que  apesar de esquecidas no cofre do passado presenteiam as poucas pessoas que  se prestam a abri-lo, infelizmente. Atualmente, com nossa educação no fundo do poço, nem afinação as pessoas apresentam, as composições são mais faladas num discurso pouco  musical, o que já era de se esperar num momento em que disciplinas importantes foram retiradas do currículo escolar em detrimento de outras insignificantes, que repetem a mesmice e a inutilidade. 

Sobreviveu como pianista trabalhando na Casa da música, em São Paulo, de propriedade dos irmãos Vitale. Lembro-me bem do nome dessa editora que vinha sempre gravada nas partituras musicais que eu  estudava incansavelmente. Ali, Zequinha  interpretava suas lindas melodias e era aplaudido pelo público presente. Chegou a formar em 1934, uma banda composta por 35 elementos, a Zequinha de Abreu, ainda quando residia em sua cidade natal.

Já em São Paulo, onde tocava às tardes na Casa da Música, levava sua vida mergulhado em suas composições, quase não saía de casa, os dois filhos de seu casamento já estavam criados e bem colocados. Assim, em uma bela noite de 1935, foi convidado por amigos músicos para um encontro. Na volta, ao encaminhar-se para tomar o bonde, sofreu um enfarto fulminante em frente ao Hotel Piratininga, na rua General Osório, quis reagir, não conseguiu, suas últimas palavras foram: "Ai, meu Deus".

Zequinha de Abreu, como gostaria de tê-lo conhecido...Para te dizer o quão importante você foi e continua sendo, imortalizado em suas peças melancólicas...

"Tardes silenciosas de Lindoya, onde o sol morre tristonho. Tardes em que toda a natureza, enche-se de um ar de sonho..."


domingo, 22 de janeiro de 2023

 A caminho da cidade de Guararema, ao ligar o rádio do carro, ouvi na Rádio Bandeirantes a entrevista com o Dr. Fábio de Abreu, neurocientista, pesquisador, psicólogo, psiquiatra entre outras formações que lhe são atribuídas em relação ao estudo da mente humana...





(Google images:freepick)




É possível vencer?


Manhã agradável de verão, o céu limpo e azul.

 Pela janela do carro observo a paisagem de pinheiros e bambuzais a caminho da formosa cidadezinha de Guararema, que diga-se de passagem é um local que serve de exemplo para muitas cidades; extremamente limpa, bem cuidada e preservada em cada canto, exibe paisagens agradáveis, seja às margens do rio Paraíba do sul, o Parque da Pedra Montada,  a Ilha Grande, em meio à mata Atlântica ou as lindas pracinhas repletas de história e flores.

 A reportagem transmitida pelo rádio referia-se ao mal de Alzheimer,  que atinge muitos idosos e até pessoas de meia-idade, trazendo inúmeros transtornos e tristezas às famílias, cuja única solução para o caso são as internações nas famigeradas clínicas de repouso. Com isso, o aumento de idosos acometidos por esse mal lotam essas casas, mais parecidas como locais de segregação e isolamento daqueles que deram tudo por seus filhos e hoje são um estorvo para as famílias, que sem tempo para dedicar-lhes, acabam optando por interná-los.

Mas a questão aqui a ser abordada não é essa, diz mais respeito à entrevista do influente doutor Fábio. Dizia ele que os motivos que acarretam esse mal estão relacionados principalmente a hábitos, estilos de vida, alimentação, ausência de leitura e atividade física e, principalmente ao uso indeterminado de telas de computador e redes sociais. 

Concluí que os hábitos estão muito relacionados à cultura que elegemos como padrão de conduta diária e estreitamente ligadas a nossa educação, uma vez que o que ensinamos para uma criança, a acompanhará pelo resto de seus dias. Este ensinar não é responsabilidade única da escola, mas também dos pais, avós e cuidadores de crianças de modo geral. Neste caso,  o exemplo, na maioria das vezes, vale mais do que palavras repetidas ao vento. Assim, se cultivamos a preguiça, a inércia infantil como forma de obtermos silenciar e dispensar trabalho com os infantes, é óbvio que os mantendo à tela de celulares, jogos eletrônicos entre outros, estaremos condenando-os para sempre à falta de atividade física, à carência do contato físico com a natureza e do próprio ser humano, causando outro problema relativo à comunicação e desenvolvimento social.

Segundo o neurocientista entrevistado, quando a doença se instala ela causa uma lesão na parte frontal do cérebro, responsável pela tomada de decisão, trazendo a confusão, falta de autonomia em resolver qualquer tipo de problema, por mais simples que seja levando à demência e perda total da memória.

A preguiça em outros tempos áureos da religião católica era rejeitada de forma muito didática; incluída nos pecados capitais faziam entender que devemos nos mexer, trabalhar e realmente surtiam efeito, em grande parte, dado ao estilo de vida de outros tempos em que carros nem eram bastante comuns entre os bens familiares e eram substituídos pelo caminhar ou o uso de bicicleta. Além do mais, passeios geralmente eram piqueniques em contato direto com a natureza, rios, cachoeiras, entre outros.

Conforme os tempos foram se modernizando, em minha jornada de professora, já convivia com crianças que nunca observavam um pássaro a voar, um rio a correr e a própria chuva que mais conheciam pelas telas de um computador; eram crianças que apresentavam déficit de atenção, falta de coordenação, pânico ao terem contato com pássaros próximo a elas. 

Acredito muito, embora não seja cientista ou médica, que padrões fixos rotineiros de comportamento não incentivem ou exijam do cérebro o exercício de que ele necessita para se manter plástico e saudável. Obviamente, o problema da idade degenera neurônios que não voltam jamais, porém sempre há uma forma de condicionamento do corpo físico e da mente, isso é inegável. Se alguém sempre age da mesma maneira a guardar objetos sempre no mesmo lugar; se desenvolve rituais habituais em suas ações, não proporcionam crescimento algum ou ativação neurocerebral. As tão famosas "mudanças de hábito" são salutares e proporcionam um exercício na parte frontal de tomada de decisões.

Quanto à alimentação, vivemos o momento único do caos. Os costumes mudaram radicalmente nos tempos modernos. Adeus a uma alimentação saudável: as commodities geradas em larga escala principalmente na agricultura adquiriram um aspecto estritamente comercial, com objetivo único de lucro, carecendo de uma aparência vistosa para o mercado, carregadas de agrotóxicos e adubos sintéticos, extremamente nocivas e  inadequadas para o consumo. Além de tudo isso, hoje, ninguém mais, na população jovem, com raríssimas exceções apresenta disposição para preparar alimentos para o consumo diário, entupindo-se de produtos prontos, cheios de conservantes, aditivos, aromas e corantes. Quando não, aquecem o mercado gastronômico das redes de delivery, que causam empobrecimento econômico e salutar, dado à falta de assepsia no transporte e muitas vezes no preparo de alimentos cuja procedência às vezes é desconhecida. A engenharia genética, apesar de todos pregarem como fantástica, traz a modificação dos genes dos alimentos, um problema ainda desconhecido a ser enfrentado num futuro próximo.  

A privação da leitura é algo que impera atualmente entre as novas gerações ocasionadas pela preguiça mental e provocadas pelo constante uso de telas, em que as mensagens já vêm prontas e não proporcionam a construção da imaginação. Nesse caso, o prejuízo vem com um adicional no caso da linguagem, que vem sendo desconstruída e substituída pelo internetês, sem norma gramatical que produz uma informação que não contempla o exercício da norma padrão aceita socialmente. 

O nobre Dr. Fábio não citou como vilã a televisão. Acredito que esse meio de comunicação é bastante incentivador de Alzheimer, uma vez que a repetição constante de informações e ideologias em todos os períodos do dia ocorrem em todos os canais de TV aberta, umas com  mais ou menos intensidade,  funcionando não apenas como uma formadora de padrão de comportamento unificado e estendido a toda a população, como também atingindo um nível de manipulação cerebral que se aproxima da terrível propaganda subliminar, nociva a qualquer cérebro em formação e adulto, agindo didaticamente diuturnamente em nossos lares, não oferecendo oportunidade alguma de ativação da imaginação e de crescimento cerebral.

Finalmente, o entrevistado abordou a questão de abandono de causa pela família quando seu idoso é diagnosticado com esse mal: desanima, não procura meios de atenuá-lo ou evitá-lo abandonando-o a sua sorte. 

Acredito que dado aos problemas e dificuldades abordados acima, fica bastante difícil conseguir sucesso num caso desse. A falta de atenção,  o isolamento a que os idosos são inevitavelmente submetidos são barreiras instransponíveis na maioria dos casos. Vivemos em tempos terríveis, onde há muito, o narcisismo e o egoísmo imperam. 

Fica aqui a ressalva: ainda restam algumas moedas de ouro no cofre, que sabem valorizar aqueles que lhes são caros...

sábado, 14 de janeiro de 2023

Bougainvillea Spectabilis

 Não me recordo ao certo quando escrevi essa crônica, sei que residia na cidade de Rio Claro,  é possível que tenha sido em meados de 1989...



Três Marias, Unha de gato, Sempre viçosa, Buganvilha...Não importa o nome, só sei que umas folhinhas tenras surgindo à flor da terra, mostrando todo o seu vigor, esnobando o verde, produto da seiva forte causaram em mim um efeito bombástico.

Várias tinham sido no decorrer daquele ano as tentativas de possuir um pé de primavera, fosse de qualquer cor ou tipo no canteiro próximo ao extenso muro. Inúmeras mudas eu conseguira: fosse onde fosse e encontrasse a tal planta, sorrateiramente, lá estava eu com uma amostra para tentar reproduzir em casa. Cultivava-as com todo o esmero e carinho, dava-lhes todos os cuidados necessários, contudo, conforme os dias passavam, elas arrefeciam e morriam.

Em mim, já havia se esgotado a esperança de ter um exemplar desta espécie em meu jardim, sobretudo, numa inesperada manhã de março, desabrochou o que eu tanto esperava; finalmente meu sonho se concretizara, provando que meu esforço não fora debalde. A felicidade que invadia meu ser era imensurável, mista de crescente avidez em conhecer qual a cor daquela preciosidade vegetal e consequentemente de onde viera, qual a muda que vingara, afinal foram tantas...

Talvez não seja compreensível diante da simplicidade do espécime, o meu interesse, porém, confesso, sentia-me como um botânico que encontra uma raridade da flora! Fitando aquele pequenino vegetal por alguns instantes, esquecia-me da fraqueza humana tomando a posição de um Deus que observa com orgulho a sua criação.

A expectativa para descobrir a cor e a proveniência perseguiram-me por três longos meses. Por manhãs e tardes consecutivas regava-a satisfeita, vendo o seu franco desenvolvimento; visualizei seus galhos subirem, ganharem a altura do muro e, logo após, dobrarem-se sobre si mesmos, embora , para meu contentamento total aguardasse a reprodução das flores. 

Na minha ignorância, eu desconhecia que aquelas que pensava serem flores e que tanto aguardava na minha ingenuidade, nada mais eram do que o prolongamento das folhas, as chamadas brácteas, como acontecem com outras plantas, como o Bico de Papagaio, por exemplo.

Em uma tarde  cujo vento frio gelava toda a cidade, percebi que as folhas das extremidades mostravam-se ralas, minguadas. Elas estavam caindo, não havia dúvida alguma! Mas como?! Ainda ontem eram tantas e de um verde exuberante, viçoso!

Sobressaltada e até indignada corri até lá esperando o pior quando constatei tristemente que havia um exército cortador combatendo por ali. Voei para a despensa e, em segundos, já com a isca de formigas em meu poder, pus-me a distribuí-la  entre as destruidoras que logo percebendo o cheiro irresistível mudaram a estratégia do ataque. De repente, erguendo o olhar por entre os galhos e folhas, descobri minúsculas "florzinhas" que apontavam, mostrando uma longinqua tonalidade laranja.

O deslumbramento cedeu lugar à incerteza; todas as pétalas tenras mostram ao nascer, essa cor.Conjeturava que se fossem realmente coral, seria oriunda do Horto Florestal onde certa vez fizera  um passeio e na avidez de possuir um exemplar, retirara às pressas uma muda que trazia perto de si os seguintes dizeres: " Bougainvillea Spectabilis", não toque nas plantas. Lembro-me ainda, que a escondera sob o blusão  depois de certificar-me  não haver alguém por perto...

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Os dias passam-se arrastados, a minha ansiedade faz com que pareçam ainda mais vagarosos. As saúvas desapareceram, tombaram, e as poucas sobreviventes abandonaram a pugna, mas os galhos do meu pé de primavera voltam a cobrir-se de pequeninas folhas verdes. E agora, , embalado pela brisa fria, o cacho de flores cresce e exibe uma cor cenoura bem firme....

sábado, 7 de janeiro de 2023

Todos, todas e todes...


Como é difícil conviver com as constantes agressões que a língua portuguesa sofre a todo o momento...

(Texto inspirado em um vídeo postado por um amigo em um grupo de Whatsapp)


😱








Olavo Bilac, o mestre parnasiano, cultuou o nosso idioma, colocando-o num pedestal descrevendo sua pureza e estética, um dos últimos a ser criado a partir do latim, e cita: "Última flor do Lácio, inculta e bela!"  O poema melodioso traz o título  "Língua Portuguesa" e merecia ser lido por todo brasileiro que preze sua pátria e honre sua língua. 

Contudo, ao que parece, não é mais reconhecido ou de bom tom ser patriota ou cultivar a cultura linguística num momento em que se prega a abertura das fronteiras, a obrigatoriedade da cidadania mundial e projeção da língua inglesa como franca, conhecida em qualquer parte do mundo. A tendência é que a linguagem anglo-saxônica venha para ficar como língua universal, dado às constantes agressões que as línguas nativas sofrem; a cada ano, milhões de termos as invadem e vão substituindo muito outros. Como exemplo, no nosso país, a palavra entrega já não existe mais, foi erradicada; delivery a substituiu, assim como  os termos que  até já se encontram incorporados aos nossos dicionários. São tantos os vocábulos que comecei a escrever um roteiro de uma peça teatral cujo personagem usa a cada frase que profere duas a três palavras em inglês: é na academia, no mercado imobiliário, no shopping e em tantos outros locais. 

Lá em meados da década de 2000, quando meu filho se preparava para enfrentar o vestibular da FGV, verificamos que em um deles, o tema da redação fora sobre o desmoronamento da nossa língua pátria; sinal de que naquela época, ainda havia uma preocupação em preservar e valorizar a cultura nacional. Lembro-me bem que na proposta da redação havia um texto de apoio que falava sobre um projeto de lei com o intuito de uma providência nesse sentido.  Atualmente, poucos se importam com essa questão. Tal fato deve estar fazendo Bilac revirar-se em seu túmulo, podem crer.

Essa questão incomoda muito aqueles que ainda têm a capacidade e a virtude de serem  estudiosos e cultivarem seu espírito crítico. A pergunta que não quer calar é: todas essas mudanças nos serão relevantes, trarão algum benefício no futuro ou nos tornam mais escravos do que já somos atualmente? Ainda nos resta alguma chance de escolha, podemos contradizer e ter opinião própria? De antemão, já respondo que não temos mais esse direito, quando a maioria dos povos foi abduzida, teve sua vontade sequestrada pelo convencimento através de propaganda veiculada através de artistas, jornalismo de opinião, indução inescrupulosa e nojenta que prendem em sua teias milhares de almas, causando a transformação e a satisfação de egos através do sonho de consumo, calando suas vozes e unificando seus pensamentos, tolhendo a diversidade do livre arbítrio, roubando da sociedade a capacidade de reflexão e análise perante os fatos, bem como sua tomada de decisão ou conclusão. Não há mais, com raríssimas exceções, seres pensantes com capacidade de tirar conclusões próprias, infelizmente. Com o advento da globalização, a linguagem virtual, a projeção do inglês como meio básico de comunicação, verificamos a dificuldade em valorizar a língua nacional. 

Voltando a falar da integridade da língua portuguesa, cito aqui o trabalho dos gramáticos realizado durante anos e anos no intuito de polir, abrilhantar e tornar elegante o falar e o escrever de uma população; e não falo aqui da gramática descritiva, ou da histórica que trazem cultura e aprofundamento nos conhecimentos linguísticos, refiro-me mesmo à gramática normativa, acessível a qualquer cidadão comum que queira usar adequadamente a linguagem, que aprecie a finesse e o bom gosto, coisas que estão sendo consideradas antiquadas pelos mais jovens, uma vez que a Educação que lhes é oferecida nas instituições de ensino valorizam outros conteúdos em detrimento do esmero na articulação da língua. Posso falar com propriedade sobre isso, haja vista ser professora de língua portuguesa e inglesa durante 35 anos; experiência  que me proporcionou  assistir tristemente a decadência sofrida na educação pública estadual. Se os gramáticos pudessem fazer um manifesto, acredito que o fariam ao ver tanta barbárie e desrespeito com as línguas e sua respeitabilidade.

Criam-se termos, neologismos absurdos sem coerência ou necessidade alguma. Há algum tempo, uma apresentadora por pouco não publicou um dicionário para favorecer sua carreira, o que desastrosamente seria funesto para a alfabetização dificultando ainda mais o trabalho dos educadores que trabalham nessa área. Ainda essa semana, ouvimos indignados, autoridades que ao cumprimentarem seu público eleitor, ou melhor dizendo, seus súditos, citaram: todos, todas e "todes". Mas que bela lição estão passando, num momento que quase ninguém mais se preocupa com essa questão! Gostaria de saber qual a intenção oculta nessa citação, uma vez que o uso do pronome  todos por si só, já seria suficiente para englobar a totalidade dos ouvintes e espectadores daquele discurso. É quando bate uma insegurança total no nosso futuro como nação brasileira, uma desconfiança e incredibilidade na qualidade do ser humano ocupante de um cargo público tão importante, que deveria ensinar a população através de um discurso formal e correto  e não transmitir o inadequado,   dificultar ainda mais o manejo da língua...  

E com lágrimas nos olhos podemos dar outra interpretação ao segundo verso da primeira estrofe do poema de Olavo Bilac: língua portuguesa, "És, a um tempo, esplendor e sepultura... "