quarta-feira, 12 de maio de 2010

Badaladas Crepusculares

Badaladas crepusculares




Foi quando eu passava ao lado da Praça da Sé. Passava próximo daquela arquitetura colossal, rodeada de pessoas de todos os tipos que saíam apressadas do trabalho buscando o aconchego de seus lares e outras que ali perpetuamente usam aquela região como abrigo e meio de sobrevivência sem se importarem com aquela magnitude gótica cujos sinos, naquele momento repicavam sonoramente as badaladas das dezenove horas.

Confesso que, partircularmente, o soar dos sinos sempre me tocou nas maiores profundezas de meu âmago, trazendo à minha cabeça inúmeras reflexões: e é na idade dos cinquenta anos que estes pensamentos me visitavam com mais frequência. Não que seja ligada à religião ou a ela me entregue, mas o tanger dos sinos é algo tão significativo que parece remontar e nos levar a outras existências. Esta música que repercurte nos ares, principalmente ao anoitecer nos leva a devaneios: Quantas vezes esta melodia sagrada soou? Em que momentos invadiu a alma de milhares de seres? Momentos tristes, como os funéreos, festivos como os natalinos, matrimoniais e tantos outros.

Parece-me dar o poder de vislumbrar minhas outras vidas em que acompanhava funerais ao ritmo dos sinos, ou de inúmeros Natais em que anunciavam a missa do galo, ou ainda indo a épocas mais remotas, o anúncio das vitórias nas batalhas medievais, onde acompanhavam os generais ao fazer o balanço de vivos e mortos em seus exércitos.

Enfim, dado a profundidade que significam para mim fazem com que jamais possa me ligar a rituais litúrgicos que não utilizem a plangente música dos sinos...

terça-feira, 20 de abril de 2010

Ser avó








Nunca pensei nesta idéia. Mas quando menos esperava e já sentia muito longe esta possibilidade, como num passe de mágica, ela chegou.
Nasceu Sara. Uma linda menina que vi crescer na barriga de minha nora durante nove longos meses sofridos e esperados ansiosamente. Porém, até poucos dias tudo era tão abstrato e impalpável!
E hoje, à luz crepuscular do dia 20 de abril ela abriu os olhos para este mundo.
E eu ainda nem a vi. Ela  está na cidade de Araraquara no hospital onde nasceu há quase trezentos quilômetros de São Paulo.No entanto, a sinto tão próxima, uma ligação espiritual imensa que une nossos seres e nos enche de alegria!
Conto os minutos e segundos para tê-la em meus braços, abraçar meu filho, ainda um bebê crescido  para mim, e minha nora, minha segunda filha que me proporcionou esta felicidade imensurável.
Agora começo a sentir o que é ser avó: sentir a vida pulsar intensamente de novo,  ser mãe pela terceira vez, ver a vida com outros olhos; o do amor, o da sensibilidade e da renovação.
Sara, enquanto aguardo impaciente a tua volta, te desejo toda saúde e felicidade que este mundo pode te dar, junto de seus pais e parentes que já te adoram antes mesmo de te conhecer. Que eles tenham saúde e união para que nada do que precises te falte, sobretudo o amor familiar.
 E que sejas muito bem- vinda neste lar que construímos com carinho para você!

terça-feira, 6 de abril de 2010

Se eu pudesse viajar no tempo...

Há muito tempo em uma prova ou concurso foi pedido o desenvolvimento do tema: “Se eu pudesse viajar no tempo”
Fiquei instigada a participar também e meditando a respeito da sociedade atual em comparação com um passado não muito distante escrevi o texto abaixo cujo conteúdo fiz publicar em um jornal da cidade de Rio claro onde residia na época:

Se eu pudesse viajar no tempo com certeza não gostaria de vislumbrar um mundo futurístico, pois creio que muitas coisas para mim tristes, estariam reservadas: a automatização do ser humano com o absoluto predomínio da máquina implacável-personagem principal, em detrimento do próprio homem- que lástima! Meios naturais: vegetação, ar, águas, totalmente transformados pelas mãos dos chamados, progresso e desenvolvimento.
Por esses e outros motivos é que jamais compraria uma viagem para uma visita ao futuro, mas certamente iria para locais de um passado não muito distante... A minha juventude!
Na velocidade da luz, voaria para os fins da década dos sessenta e indubitavelmente encontrar-me-ia em uma das praças da minha querida cidade natal. Não como está nos dias de hoje; semidestruída, ocupada por mendigos e pessoas dominadas e corrompidas pelo vício.
Hoje, a praça já não é a mesma de outrora. A miséria espiritual e econômica da humanidade ali está representada, hasteando suas bandeiras pelos quatro cantos. Evita-se passar por ali, por medo, ou até mesmo para impedir que uma depressão imensa tome conta de nós; seres que a vimos em todo o seu esplendor, exibir sua fonte de águas coloridas pelas luzes noturnas de domingos gloriosos, agora mascarada de abrigo para sub homens reproduzindo diariamente o cenário de “Os Miseráveis” onde da mesma forma Victor Hugo nos apontou tão fielmente uma amostra da deplorável decadência e indignidade moral a que o ser humano foi relegado.
Antes, era a praça local mais solicitado da cidade, ponto obrigatório de encontro para reuniões domingueiras, de comentários, entrosamento, lazer, alegria... E sobretudo interação entre os homens que podiam ainda na época serem assim chamados em toda a totalidade do significado que esta palavra encerra. Não haviam ainda lhe sido roubados totalmente os aspectos morais, espirituais, humanitários e, sobretudo a sua liberdade de pensamento, amplamente desenvolvida através da análise e espírito crítico coerentes.
Nessa época em que todos lotavam as praças com seus sorrisos sinceros, onde toda a classe social era bem-vinda, não havia ainda adentrado no coração das pequenas cidades, o germe dos meios de comunicação de massa, que tanto contribuíram para levar o homem ao isolamento, ao distanciamento do seu companheiro e da realidade de sua cidade.
E com que simplicidade e prazer se expectava o fim de semana com seus personagens áureos: cinema e praça!
Assistiam-se aos filmes que eram discutidos, analisados e admirados por toda a coletividade, numa verdadeira terapia que ainda não permitia a proliferação de psicólogos e psicanalistas- coisas do futuro...
A população vibrava feliz com seu pequeno cinema, seu mundo encantado, sem a monotonia, solidão e saturação diária produzidas pelas videolocadoras encerradas em suas fitas apropriadas para o consumo em larga escala- capitalismo cultural.
Produzia-se arte que não se caracterizava como comércio de consumo, não se corrompia ao poder de grandes grupos.
Romeu e Julieta I,II,III...Jamais!
Ah! que vontade de voltar...