terça-feira, 7 de março de 2023

Uma homenagem que incomoda

 Amigos leitores, desculpem-me a franqueza, porém ultimamente, as datas comemorativas são cansativas, as atividades relacionadas estendem-se por semanas, o estrago que fazem em nossa paz é incomensurável...



😠😠😠😠!



Mês de março. Quando ele se aproxima, logo me recordo do período em que lecionava: todos os anos, consecutivamente a comemoração do dia da Mulher. Cada oito  de março para mim e acredito para muitos que não têm a coragem de assumir, era entediante. Aquela mesma historinha de sempre de mulheres queimadas na fábrica de tecidos americana, preconceito e machismo que temos que trabalhar incansavelmente como outros vários projetos que vêm de cima para baixo e que não podemos discutir. 

Assunto chato para redação, não há atrativo em escrever sobre um monte de baboseiras repetitivas que envolvem a data num momento em que muitas das principais interessadas não estão nem aí para filhos, maridos, família ao contrário da idolatração do gênero que coloca todas em um pedestal de ouro, mostradas sem direito algum, em uma comiseração de dar medo.  Nunca me senti assim, e olha que sou mulher...

Nessas horas de março, não canso de abençoar minha aposentadoria que me livrou de fazer o que não queria, perdendo horas preciosas que poderiam ser dedicadas a ensinar de fato o que mais interessava para a vida: a arma do conhecimento para enfrentar a luta diária.

Como se não bastasse, minha residência é próxima do Parque Tietê Armênia,  estádio da Lusa e Parque Anhembi... Estes dois últimos terceirizados e com uma agenda bastante ativa. O maior problema é que a comemoração do dia da Mulher começou com dois dias de antecedência e despertei já na manhã do dia três, sábado com um barulho ensurdecedor de possantes caixas de som, que pareciam estar a serviço de São Paulo inteiro e do demônio, dado a intensidade e altura do volume nos aparelhos que fizeram as crianças aqui da quadra do meu prédio perderem o páreo, e olha que têm uma garganta...

Guitarras estridentes apresentavam na maioria músicas latinas e pop e os baixos reverberavam de tal forma que refletiam no estômago, causando enjoo. Parecia que todos deveriam compartilhar do mesmo gosto musical e da cara de pau de passar por cima da lei do silêncio, e ela existe, ultrapassando todos os decibéis permitidos e de lambujem, muitos mais.

Por incrível que pareça, a atividade de lazer durou todo o sábado até, acreditem, quase quatro  da matina. Consegui dormir mal e acordei com o mesmo inferno por esse horário. O domingo mesma coisa, até saí do apartamento para me certificar de onde vinha aquela desgraça toda, temendo que os famigerados bailes de rua, principalmente os funks estivessem acontecendo, o que por força de providência divina não ocorria  e percebi a movimentação no Parque Tietê, onde um palco gigantesco fora montado. Pensei em reclamar, mas para quem? Só se fosse para Jesus, porque a própria polícia ali estava para dar segurança ao evento... Não estava no local  para que se fizesse cumprir a lei do silêncio... Em uma outra ocasião, registrara um caso parecido no site da prefeitura da cidade e até hoje, já se passaram quatro anos aproximadamente e nada de resposta.

Engraçado que quando é para trabalhar, todos são considerados escravos, submetidos a sofrimento, entretanto  para lazer destrutivo da tranquilidade alheia os mesmos varam a noite com prazer e não são escravos, isso se dá voluntariamente? Pelo amor de Deus!

Aquilo me reforçou , me condicionou negativamente com a data da homenageada, resumindo-se em repúdio e por que não dizer ódio? No domingo, o mesmo. Despertada com a mesma cena do sábado, roguei a Deus para que calasse aquele bando de insanos, e à noite, ela veio para me salvar: a bendita chuva que caiu a cântaros, dissipando a turba e acabando com aquele festa indesejável para os moradores do bairro em que resido. 

Eu cantava por dentro: "Chove chuva, chove sem parar!" Nunca amei tanto uma chuva como essa que chegou de surpresa, ditando sua lei que ninguém pode violar...

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

 Serão os filhos para o mundo?


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Deixei de prestar atenção à estrada e suas belas paisagens, para me concentrar em uma entrevista com a competente psicóloga Cleuza Canan concedida através do rádio. Especialista em tratamentos e terapias em favor de dependentes químicos, falou pelo menos durante uma hora aproximadamente sobre o tema, esclarecendo vários pontos importantes a respeito.

Para introduzir o assunto, explicou sobre os vários tipos de drogas tanto as lícitas como as ilícitas e não apontou pontos positivos em  nenhuma delas; tanto o  cigarro quanto o álcool trazem malefícios ao sistema nervoso central, atuam na região frontal desenvolvendo uma falsa ideia de prazer temporário, cujo efeito passa, induzindo o indivíduo ao uso, o que vai desenvolvendo dependência química. Sobre a nicotina, os estudos apontam que a toxidade do produto não atinge apenas o fumante, mas também a quem estiver próximo.

Apesar de serem consideradas permitidas socialmente, trazem imensos danos ao organismo humano e no caso do álcool, classificou-o como uma das piores drogas que uma pessoa pode ingerir, no sentido da dependência e dos efeitos que causa, destruindo neurônios e a vida social do viciado. A profissional definiu alcoolismo como algo de que a pessoa não consegue se livrar e de que não pode deixar de usar. Não importa a quantidade, a frequência  e o mal-estar que sua abstinência traz, são indicadores da dependência. Atualmente, esse vício atinge o público mais jovem e até crianças de nove anos dado a facilidade de obtê-lo,  apesar da venda proibida  a menores.

Quanto às drogas ilícitas, houve a informação de que geralmente o uso  é mais comum em pessoas que já consomem as substâncias lícitas, sendo a canabis, a mais comum delas. Salientou que ao contrário do que muitos afirmam, ela é muito diferente do canabidiol, medicamento legalizado para tratamento de moléstias mentais. O primeiro é tóxico para o organismo, leva à dependência e causa esquizofrenia com o passar do tempo de uso, além do mais, por conta da banalização do consumo e informações errôneas, traz ainda um agravante quanto a preparação do produto: feito por pessoas comuns, sem preparo científico visa apenas lucro, não se importando com a qualidade da substância.

A psicóloga afirmou da importância do tratamento contra a dependência que impreterivelmente deve envolver internação, psicoterapia  e uso de medicamentos que façam uma limpeza no organismo, uma vez que no caso da maconha, a canabis impregna o cérebro. Muitas vezes não são apenas pessoas comuns que a utilizam, salientou que nos dias atuais, recebe muitos pacientes da área médica, esses profissionais que durante a pandemia de Covid-19 tiveram uma exacerbação de trabalho em sua jornada nos hospitais e usaram a canabis para relaxar e conseguir suportar uma carga exaustiva em seus empregos. O mesmo se deu quanto ao uso de barbitúricos, anfetaminas e benzodiazepinas, entre outros.

Foi abordada também a questão das bebidas à base de cola e outras que envolvem produtos químicos e  sintéticos que, da mesma forma, são nocivos à saúde, cabendo aos pais a responsabilidade no sentido de oferecer uma alimentação mais saudável a seus filhos.

A pergunta que não quer calar é: Por que razão nestes tempos modernos as pessoas procuram tanto os vícios para se alegrarem? Num passado não muito distante, os jovens em sua maioria levavam uma vida mais saudável em contato com a natureza e com pessoas ao seu redor. Havia sim, aqueles que procuravam substâncias lícitas e ilícitas, porém o número era irrisório se compararmos com a atualidade. Essa profissão de psicólogo, nem quase existia, os padres em seus confessionários exerciam essa função, ao ouvirem as pessoas, aconselhando-as, dando-lhes penitência, assim, aliviando sua tensão emocional.

A educação era única e exclusivamente dos progenitores, sem intromissão de mídias que produzem uma arte violenta e ambientes pouco recomendáveis aos jovens. A disciplina e limites de comportamento já se iniciava na própria escola, em ambientes sadios que cuidavam da cultura que transmitiam a seus discípulos com carinho e competência, formando o cidadão na sua totalidade com retidão de caráter.

O progresso tem vários pontos positivos, porém produziu pessoas tristes, que não conseguem encontrar a felicidade a não ser consumindo exageradamente e adquirindo vícios que não lhes favorecem a saúde física nem mental.

Tornou-se difícil educar um filho. Hoje dizem que são cidadãos do mundo, mas um mundo cão que não se importa nem um pouco com eles. 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

A cadeira esquecida

 

Entre outras efemérides, o dia 20 de fevereiro é dedicado aos animais de estimação... Assim...







 

Quando olho a velha cadeira de madeira da varanda, parece que vejo a sua meiga imagem.

Lembro que te salvei da morte com apenas três meses de vida. Tua primeira dona não te queria e te colocou portão afora usando uma vassoura. Recordo do teu olhar assustado, seu pelo amarelinho claro e grandes olhos azuis.

Foi paixão a primeira vista, percebi o perigo iminente que corrias enquanto assustado  e desorientado ganhavas a rua.

Por sorte, estávamos a pintar a nossa casa em Rio Claro, ajeitando daqui e dali, fazendo reparos na tentativa de melhorar a aparência daquele pequeno sobrado onde morávamos para colocá-lo à venda, antes de retornar à São Paulo definitivamente desta vez. Pude vislumbrar a cena que me deixou indignada e ao mesmo tempo preocupada, temendo que o pior acontecesse se ganhasses a avenida ao lado, onde os carros desenvolviam grande velocidade. Eram três gatinhos, seus irmãos; um deles de imediato foi atropelado na citada avenida perdendo a vida de uma maneira brutal; o outro, não consegui ver para onde foi, mas você, como se fosse mandado pelos anjos do céu, perpassou a grade em frente a casa onde estava e te pus a salvo, dei-lhe água e alimento.

Terminando o trabalho da casa, preparei-me para deixá-la, no entanto,  não tive coragem de abandonar-te ali, à mercê da própria sorte... Um filhote bebê de apenas três meses. Deixei de pegar o ônibus de volta, peguei carona com um ex-vizinho caminhoneiro que passaria pelo bairro do Butantã levando-te comigo em uma caixinha improvisada e bem fechada. Corri o risco de ser despejada do ônibus até o Centro de São Paulo onde morava. E lá estava você, sempre comigo. Te vi crescer, ganhar a idade adulta. Enfrentamos mudanças de apartamento, para um sítio em Igaratá, uma casa térrea em São Bernardo e finalmente para o nosso apartamento definitivo que foi a sua última morada.Curioso é que você seria um presente para minha filha, porém, ao se casar, ela não teve coragem de separá-lo de mim, dado ao apego entre nós dois.

Muitas passagens felizes, um relacionamento quase espiritual; você passou a entender uma infinidade de palavras do meu vocabulário e respondia no seu idioma felino todas as vezes que te chamava ao meu lado. Seu local preferido era a cadeira na sacada do apartamento, ali ficavas já na idade mais adulta entre a sombra das plantas, a tomar o sol da manhã, aproveitando aqueles raios benditos. 

O primeiro susto...Você se mostrou doente, os olhinhos irritados e sempre a lacrimejar, perdeu o ânimo, a vontade de brincar com as bolinhas de papel-alumínio de que tanto gostavas, ainda respondendo de forma triste os meus apelos...

No veterinário, após exames, soube que estava com problemas respiratórios, mas graças a Deus descoberto em tempo, o que me deixou ainda mais apegada a ti. Já sem a companhia dos filhos, todos casados, cada qual seguindo a sua estrada, lá estava eu, apenas com o marido e Nini, meu amado  e inseparável gatinho.

Ficaste bom, a alegria voltou ao meu lar. Compartilhamos excelentes momentos juntos, até que um dia após anos daquele triste incidente, observei que já não apresentava mais a disposição de antes. Julguei ser culpa da idade, 14 anos, não eram poucos para a vida de um felino...

Entretanto, conforme os dias passavam ligeiros, sua condição foi piorando, lamentavelmente. Correndo novamente ao veterinário, após baterias de exames, confirmou-se: comprometimento dos rins em franco desenvolvimento. 

Para meu sofrimento, acompanhei sua agonia de tratamento, soro, injeções intermináveis, coisas que te deixavam totalmente agressivo, para minha surpresa, um animal cuja docilidade era impressionante. Regressando a casa, demonstrando uma ligeira melhora, fui incansavelmente administrando todos os medicamentos que lhe foram prescritos. 

Veio a piora, agora, não mais sustentava sua linda e imponente cabeça, sempre cabisbaixo e mudo...Deixou de comer para  o meu desespero.

Muitos amigos me aconselhavam a levá-lo para a Eutanásia. Não tive coragem de ser a carrasca que extermina a vítima indefesa. Jurei que suportaria até o último instante, até o último suspiro que darias, sem desistir de te acompanhar e lhe dar ajuda. 

E foi o que ocorreu após uma semana. Fostes tranquilo, numa noite estrelada e fria entre minhas lágrimas de tristeza e dor.

 Nunca mais te esquecerei,  e ainda hoje, fitando a cadeira vazia de que tanto gostavas, penso numa nova versão da música folclórica americana Old Shep:

"Se os gatos têm um céu, só uma coisa eu sei: Nini, você tem uma morada maravilhosa"...

 

* A música Old Shep é uma canção americana do campo, imortalizada na voz de Elvis Presley, que conta a história de um cão que o próprio dono teve que exterminar, porque estava muito doente. 

E no final ela diz: "If dogs have a heaven, just one thing I know, Old Shep, has a wonderful home" ( Se cachorros têm um céu, só sei de uma coisa: Old Shep, você tem uma morada maravillhosa).

 

domingo, 12 de fevereiro de 2023


Progresso X Qualidade de vida



Muitas vezes, me pego pensando sobre  o progresso e me questiono sobre a evolução espiritual da espécie humana...


💀😈😈



Por certo, ela não evoluiu proporcionalmente; infortunadamente, evoluiu para pior.  Ouvindo uma programação dominical sobre pecuária e avicultura, as vozes dos repórteres foram se tornando distantes em minha mente, cedendo lugar a análise e reflexão, uma vez que uma tremenda revolução tecnológica tomou conta de grande parte da vida dos homens do campo que dispõem de capital para financiá-la. São mudanças que trazem maior rentabilidade e certeza desse lucro no sentido de derrubar de forma selvagem a concorrência menos favorecida economicamente neste setor. 

Por um lado,  apoiadas pela publicidade milionária,  essas novas transformações são apontadas como responsáveis por favorecer positivamente o bem-estar animal,  assistido cientificamente  e sistematicamente ao lado de uma bioética que na maioria das vezes não tem força para agir de forma contrária. Desse modo, vemos grandes criações de gado leiteiro reduzindo o rebanho a seres mecanicamente conduzidos, por exemplo, com uma alimentação voltada basicamente à produção de leite de modo inconsciente, através de máquinas, que longe de terem a suavidade da mão humana na ordenha, conduzem os pobres animais a inflamações e casos de câncer de úbere, visando apenas obtenção de lucro e poder. Hormônios de crescimento aplicados insanamente produzem o amadurecimento precoce para  o abate, assim como a utilização de produtos  químicos objetivando um  efeito de carne mais macia e apetitosa, que roubam do animal a possibilidade de longevidade e vida natural. A alimentação reduzida a rações fabricadas em uma grande indústria  que almeja apenas redução de custo para o criador abrindo margem a aumento de lucratividade,  afastando definitivamente o orgânico e o sabor natural dos alimentos que o animal poderia saborear em um passado não muito distante, sem falar na fecundação, totalmente artificial, privada do contato físico, gerando milhões com o aumento da produção. Uma engenharia genética obcecada por aprimoramento da raça, mais preocupada com o armazenamento e venda de sêmens do que com o próprio bem-estar animal.

Muito triste tudo isso. O que falar então sobre a avicultura, em que o confinamento dos animais aproveita os mais exíguos espaços das granjas infinitas, voltados essencialmente para a produção de ovos ou abate, afastando para sempre o modo clássico da criação desses pobres seres, atualmente, proibidos de contato com o solo e uma vida saudável no campo. Novamente, através da tecnologia, os hormônios aplicados favorecem um crescimento precoce que garante um abate em menor tempo, gerando maior fonte de renda ao produtor. Em muitos locais, o controle de qualidade leva a destruição dos animaizinhos que não oferecem os requisitos exigidos pelo mercado, acabados como objetos em máquinas trituradoras. Algo terrível de se acreditar, mas acontecia e devem acontecer em vários locais.

Nesse momento, paro para indagação: a que ponto chegou a maldade humana absorvida pela avidez da obtenção de lucro. Tecnologicamente, o avanço é exponencial da mesma forma que a alma do ser humano que perde toda a sensibilidade e humanidade em detrimento do poder econômico e status social, deturpando-se, afundando-se na lama da mecanicidade, transformando-se em um robô movido pelo dinheiro apenas. Sem contar que o nosso país figura como grandioso no segmento, ao lado da China, Estados Unidos e países da União Europeia.

Manter a receita bilionária de maior produtor tanto no abate como produção de insumos não é nada fácil, torna-se uma verdadeira guerra e coincidentemente aparecem as doenças trazidas por vírus e bactérias que por vezes atingem todo um rebanho trazendo um prejuízo incalculável para os criadores: é a febre aviária, aftosa, maculosa, suína, doença da vaca louca e outras mazelas mais, tão oportunas para exterminar a concorrência...

Para a população consumidora, a qualidade do produto não beneficia a saúde, uma vez que absorvemos todo o pacote químico e tecnológico a que o gado é submetido. Há a possibilidade de um orgânico, caríssimo em que temos que  confiar, sem possibilidade de  acompanhamento ...

Resta a pergunta: há como resgatar a vida natural de outrora?

O leitor pode imaginar e responder.



domingo, 5 de fevereiro de 2023

A primeira sociedade é uma instituição falida?


 imagens: freepick



 Entende-se por uma sociedade, a união de pessoas que trabalham conjuntamente para alcançar um objetivo. Buscando cumprir  metas, muitos sentimentos são envolvidos para se atingir um fim. Entre eles estão presentes inúmeros interesses como garantia de  status, projeção social, além dos econômicos obviamente. Existem grupos que se formam com o intuito de pesquisa científica, outros se voltam para fins filantrópicos; ainda há aqueles de cunho exclusivamente profissional; enfim, são inúmeros.

Quando o envolvimento entre os membros de um grupo tem por base emoções, principalmente de caráter afetivo, temos o grupo familiar. Certamente, a primeira sociedade de que se tem notícia no mundo, a família como é concebida originalmente traz em seu bojo como princípio e base principal o amor. Durante muitos e muitos séculos, essa foi a sua  principal concepção: desejo sincero de formar pessoas dignas, felizes e aptas para a vida em sociedade. Nesse caso, a questão afetiva sobrepujava interesse financeiros e escusos, funcionando com o objetivo único de sucesso dos seus membros. É óbvio, que sempre existiram as exceções à regra, mas nestes,  o final era sempre de fracasso,  desintegração e desestruturação de seus elementos.

Como exemplo, podemos citar casamentos contratados por interesse e acertos entre pais que exerciam muito mais a função de comerciantes, visando lucro e oferecendo seus filhos como mercadorias. Revendo a história geral, temos o caso do imperador romano Júlio César, assassinado pelo próprio filho adotivo, Brutus; entre muitos outros casos que ocorreram no passado. Entretanto, quando a família recebeu uma organização religiosa o objetivo foi a monogamia, um sistema ainda patriarcal onde a palavra do pai era essencial, o propósito era a preservação dessa estrutura.

Podemos observar que atualmente esse conceito vem sendo dilapidado vorazmente através do tempo. Nessas novas eras em que a tecnologia ganha espaço vital entre os seres humanos e em grande parte tem sido apontada pela causa de facilitação da poligamia, desentendimentos e até mortes é que nos questionamos como chegamos nesse caos sem solução. Certamente, basta lermos algumas informações científicas para  tomarmos ciência do tamanho do mal causado aos membros familiares por uma separação: desajustes emocionais, personalidades distorcidas, violência, criminalidade, autismo, doenças psíquicas, somáticas e tantos outros. 

O problema crucial encontra-se na falta de amor: casa-se por interesse financeiro e  ascensão social, e o resultado é simplesmente jovens na flor da idade unindo-se a idosos endinheirados. Será amor? Com raríssimas excecões, é lógico que não, união em que se aguarda avidamente a morte do parceiro para a posse de fortunas econômicas. Quando não,  muitos já sobem ao altar (ou melhor, nem sobem, amasiam-se) com a intenção de separação se não der certo.

Perdeu-se totalmente a noção de dignidade e caráter. Se não temos família, e sim a desestruturação, a sociedade conta com um rebanho de jovens perdidos pela vida, sem orientação alguma, privados de bens materiais, alimentação e vida digna, entregando-se à mercê da sorte, formação duvidosa, marginalidade. Nada se pode fazer, uma vez que o caráter é formado basicamente aos sete anos de vida. 

Não há interesse em controle de natalidade, nem ouvimos falar disso, quando muitos casais que não poderiam ser responsáveis sequer por um animal de estimação, lotam o exíguo espaço com filhos que não podem criar decentemente. E o resultado aí está: mal caratismo geral, falta de noção moral, ética, empatia, civilidade e compaixão. 

Diz-se que o casamento hoje, é uma instituição falida, verdade nua e crua, a liberdade  cedeu lugar à libertinagem, ao prazer desenfreado, sem limites e egoisticamente o ser humano destrói o mundo ao seu redor... 

domingo, 29 de janeiro de 2023

Pérolas esquecidas







 Muitas vezes me pergunto por que razão ele não é lembrado. Aliás, grandes compositores, os mais preparados para fazer música não são nada valorizados no nosso país. Motivos? Os mais variados; não há interesse em cultuar música erudita, afinal quem a ouve refina seu corpo e espírito, além de desenvolver o processo cerebral. Em muitas fazendas bem sucedidas, o gado tem seu momento de música orquestral erudita, e ficou provado que vivem com melhor qualidade. 

Estou falando aqui de Zequinha de Abreu, cujo nome completo era José Gomes de Abreu, o pianista que se especializou na composição de chorinhos como ninguém. Não é preciso estudar música para saber o que esse ritmo nos traz, contagiante melodia popular nascida nas décadas de 1870 no Rio de Janeiro, geralmente interpretada por flautistas, violões e cavaquinhos, deu fama a vários compositores brasileiros como Ernesto Nazareth, Antonio Callado, Chiquinha Gonzaga entre outros. Ditosos tempos do final do século XIX, em que a cultura de qualidade era oferecida nas grandes e pequenas cidades, antes do início de um filme, no cinema, as pequenas orquestras apresentavam melodias eruditas.

O conhecido Tico-tico  no fubá, Sururu na cidade, Pintinhos no terreiro, são alguns chorinhos maravilhosos de Zequinha de Abreu, porém, a sua obra-prima centralizou-se na criação de valsas. Apaixonei-me por essas composições por volta do meu quarto ano de estudo de piano. Branca, uma música maravilhosa, de 1910 é um dos exemplos de melodia que entram em nosso âmago e nos fazem viajar através dos tempos, visualizar cenários de salões de festas luxuosos onde o instrumento principal era o piano. Branca, possui uma letra musical que narra a história de uma jovem que se apaixonou, entretanto, não ficou com seu amor que partiu e a deixou. 

São valsas tristes, que parecem combinar com a personalidade deste músico incomparável. Nascido em Santa Rita do Passa Quatro em 1880, iniciou sua carreira de médico, mas não a terminou porque sua vocação era a música. E fez muito bem, pois as jóias que produziu são pérolas que  apesar de esquecidas no cofre do passado presenteiam as poucas pessoas que  se prestam a abri-lo, infelizmente. Atualmente, com nossa educação no fundo do poço, nem afinação as pessoas apresentam, as composições são mais faladas num discurso pouco  musical, o que já era de se esperar num momento em que disciplinas importantes foram retiradas do currículo escolar em detrimento de outras insignificantes, que repetem a mesmice e a inutilidade. 

Sobreviveu como pianista trabalhando na Casa da música, em São Paulo, de propriedade dos irmãos Vitale. Lembro-me bem do nome dessa editora que vinha sempre gravada nas partituras musicais que eu  estudava incansavelmente. Ali, Zequinha  interpretava suas lindas melodias e era aplaudido pelo público presente. Chegou a formar em 1934, uma banda composta por 35 elementos, a Zequinha de Abreu, ainda quando residia em sua cidade natal.

Já em São Paulo, onde tocava às tardes na Casa da Música, levava sua vida mergulhado em suas composições, quase não saía de casa, os dois filhos de seu casamento já estavam criados e bem colocados. Assim, em uma bela noite de 1935, foi convidado por amigos músicos para um encontro. Na volta, ao encaminhar-se para tomar o bonde, sofreu um enfarto fulminante em frente ao Hotel Piratininga, na rua General Osório, quis reagir, não conseguiu, suas últimas palavras foram: "Ai, meu Deus".

Zequinha de Abreu, como gostaria de tê-lo conhecido...Para te dizer o quão importante você foi e continua sendo, imortalizado em suas peças melancólicas...

"Tardes silenciosas de Lindoya, onde o sol morre tristonho. Tardes em que toda a natureza, enche-se de um ar de sonho..."


domingo, 22 de janeiro de 2023

 A caminho da cidade de Guararema, ao ligar o rádio do carro, ouvi na Rádio Bandeirantes a entrevista com o Dr. Fábio de Abreu, neurocientista, pesquisador, psicólogo, psiquiatra entre outras formações que lhe são atribuídas em relação ao estudo da mente humana...





(Google images:freepick)




É possível vencer?


Manhã agradável de verão, o céu limpo e azul.

 Pela janela do carro observo a paisagem de pinheiros e bambuzais a caminho da formosa cidadezinha de Guararema, que diga-se de passagem é um local que serve de exemplo para muitas cidades; extremamente limpa, bem cuidada e preservada em cada canto, exibe paisagens agradáveis, seja às margens do rio Paraíba do sul, o Parque da Pedra Montada,  a Ilha Grande, em meio à mata Atlântica ou as lindas pracinhas repletas de história e flores.

 A reportagem transmitida pelo rádio referia-se ao mal de Alzheimer,  que atinge muitos idosos e até pessoas de meia-idade, trazendo inúmeros transtornos e tristezas às famílias, cuja única solução para o caso são as internações nas famigeradas clínicas de repouso. Com isso, o aumento de idosos acometidos por esse mal lotam essas casas, mais parecidas como locais de segregação e isolamento daqueles que deram tudo por seus filhos e hoje são um estorvo para as famílias, que sem tempo para dedicar-lhes, acabam optando por interná-los.

Mas a questão aqui a ser abordada não é essa, diz mais respeito à entrevista do influente doutor Fábio. Dizia ele que os motivos que acarretam esse mal estão relacionados principalmente a hábitos, estilos de vida, alimentação, ausência de leitura e atividade física e, principalmente ao uso indeterminado de telas de computador e redes sociais. 

Concluí que os hábitos estão muito relacionados à cultura que elegemos como padrão de conduta diária e estreitamente ligadas a nossa educação, uma vez que o que ensinamos para uma criança, a acompanhará pelo resto de seus dias. Este ensinar não é responsabilidade única da escola, mas também dos pais, avós e cuidadores de crianças de modo geral. Neste caso,  o exemplo, na maioria das vezes, vale mais do que palavras repetidas ao vento. Assim, se cultivamos a preguiça, a inércia infantil como forma de obtermos silenciar e dispensar trabalho com os infantes, é óbvio que os mantendo à tela de celulares, jogos eletrônicos entre outros, estaremos condenando-os para sempre à falta de atividade física, à carência do contato físico com a natureza e do próprio ser humano, causando outro problema relativo à comunicação e desenvolvimento social.

Segundo o neurocientista entrevistado, quando a doença se instala ela causa uma lesão na parte frontal do cérebro, responsável pela tomada de decisão, trazendo a confusão, falta de autonomia em resolver qualquer tipo de problema, por mais simples que seja levando à demência e perda total da memória.

A preguiça em outros tempos áureos da religião católica era rejeitada de forma muito didática; incluída nos pecados capitais faziam entender que devemos nos mexer, trabalhar e realmente surtiam efeito, em grande parte, dado ao estilo de vida de outros tempos em que carros nem eram bastante comuns entre os bens familiares e eram substituídos pelo caminhar ou o uso de bicicleta. Além do mais, passeios geralmente eram piqueniques em contato direto com a natureza, rios, cachoeiras, entre outros.

Conforme os tempos foram se modernizando, em minha jornada de professora, já convivia com crianças que nunca observavam um pássaro a voar, um rio a correr e a própria chuva que mais conheciam pelas telas de um computador; eram crianças que apresentavam déficit de atenção, falta de coordenação, pânico ao terem contato com pássaros próximo a elas. 

Acredito muito, embora não seja cientista ou médica, que padrões fixos rotineiros de comportamento não incentivem ou exijam do cérebro o exercício de que ele necessita para se manter plástico e saudável. Obviamente, o problema da idade degenera neurônios que não voltam jamais, porém sempre há uma forma de condicionamento do corpo físico e da mente, isso é inegável. Se alguém sempre age da mesma maneira a guardar objetos sempre no mesmo lugar; se desenvolve rituais habituais em suas ações, não proporcionam crescimento algum ou ativação neurocerebral. As tão famosas "mudanças de hábito" são salutares e proporcionam um exercício na parte frontal de tomada de decisões.

Quanto à alimentação, vivemos o momento único do caos. Os costumes mudaram radicalmente nos tempos modernos. Adeus a uma alimentação saudável: as commodities geradas em larga escala principalmente na agricultura adquiriram um aspecto estritamente comercial, com objetivo único de lucro, carecendo de uma aparência vistosa para o mercado, carregadas de agrotóxicos e adubos sintéticos, extremamente nocivas e  inadequadas para o consumo. Além de tudo isso, hoje, ninguém mais, na população jovem, com raríssimas exceções apresenta disposição para preparar alimentos para o consumo diário, entupindo-se de produtos prontos, cheios de conservantes, aditivos, aromas e corantes. Quando não, aquecem o mercado gastronômico das redes de delivery, que causam empobrecimento econômico e salutar, dado à falta de assepsia no transporte e muitas vezes no preparo de alimentos cuja procedência às vezes é desconhecida. A engenharia genética, apesar de todos pregarem como fantástica, traz a modificação dos genes dos alimentos, um problema ainda desconhecido a ser enfrentado num futuro próximo.  

A privação da leitura é algo que impera atualmente entre as novas gerações ocasionadas pela preguiça mental e provocadas pelo constante uso de telas, em que as mensagens já vêm prontas e não proporcionam a construção da imaginação. Nesse caso, o prejuízo vem com um adicional no caso da linguagem, que vem sendo desconstruída e substituída pelo internetês, sem norma gramatical que produz uma informação que não contempla o exercício da norma padrão aceita socialmente. 

O nobre Dr. Fábio não citou como vilã a televisão. Acredito que esse meio de comunicação é bastante incentivador de Alzheimer, uma vez que a repetição constante de informações e ideologias em todos os períodos do dia ocorrem em todos os canais de TV aberta, umas com  mais ou menos intensidade,  funcionando não apenas como uma formadora de padrão de comportamento unificado e estendido a toda a população, como também atingindo um nível de manipulação cerebral que se aproxima da terrível propaganda subliminar, nociva a qualquer cérebro em formação e adulto, agindo didaticamente diuturnamente em nossos lares, não oferecendo oportunidade alguma de ativação da imaginação e de crescimento cerebral.

Finalmente, o entrevistado abordou a questão de abandono de causa pela família quando seu idoso é diagnosticado com esse mal: desanima, não procura meios de atenuá-lo ou evitá-lo abandonando-o a sua sorte. 

Acredito que dado aos problemas e dificuldades abordados acima, fica bastante difícil conseguir sucesso num caso desse. A falta de atenção,  o isolamento a que os idosos são inevitavelmente submetidos são barreiras instransponíveis na maioria dos casos. Vivemos em tempos terríveis, onde há muito, o narcisismo e o egoísmo imperam. 

Fica aqui a ressalva: ainda restam algumas moedas de ouro no cofre, que sabem valorizar aqueles que lhes são caros...

sábado, 14 de janeiro de 2023

Bougainvillea Spectabilis

 Não me recordo ao certo quando escrevi essa crônica, sei que residia na cidade de Rio Claro,  é possível que tenha sido em meados de 1989...



Três Marias, Unha de gato, Sempre viçosa, Buganvilha...Não importa o nome, só sei que umas folhinhas tenras surgindo à flor da terra, mostrando todo o seu vigor, esnobando o verde, produto da seiva forte causaram em mim um efeito bombástico.

Várias tinham sido no decorrer daquele ano as tentativas de possuir um pé de primavera, fosse de qualquer cor ou tipo no canteiro próximo ao extenso muro. Inúmeras mudas eu conseguira: fosse onde fosse e encontrasse a tal planta, sorrateiramente, lá estava eu com uma amostra para tentar reproduzir em casa. Cultivava-as com todo o esmero e carinho, dava-lhes todos os cuidados necessários, contudo, conforme os dias passavam, elas arrefeciam e morriam.

Em mim, já havia se esgotado a esperança de ter um exemplar desta espécie em meu jardim, sobretudo, numa inesperada manhã de março, desabrochou o que eu tanto esperava; finalmente meu sonho se concretizara, provando que meu esforço não fora debalde. A felicidade que invadia meu ser era imensurável, mista de crescente avidez em conhecer qual a cor daquela preciosidade vegetal e consequentemente de onde viera, qual a muda que vingara, afinal foram tantas...

Talvez não seja compreensível diante da simplicidade do espécime, o meu interesse, porém, confesso, sentia-me como um botânico que encontra uma raridade da flora! Fitando aquele pequenino vegetal por alguns instantes, esquecia-me da fraqueza humana tomando a posição de um Deus que observa com orgulho a sua criação.

A expectativa para descobrir a cor e a proveniência perseguiram-me por três longos meses. Por manhãs e tardes consecutivas regava-a satisfeita, vendo o seu franco desenvolvimento; visualizei seus galhos subirem, ganharem a altura do muro e, logo após, dobrarem-se sobre si mesmos, embora , para meu contentamento total aguardasse a reprodução das flores. 

Na minha ignorância, eu desconhecia que aquelas que pensava serem flores e que tanto aguardava na minha ingenuidade, nada mais eram do que o prolongamento das folhas, as chamadas brácteas, como acontecem com outras plantas, como o Bico de Papagaio, por exemplo.

Em uma tarde  cujo vento frio gelava toda a cidade, percebi que as folhas das extremidades mostravam-se ralas, minguadas. Elas estavam caindo, não havia dúvida alguma! Mas como?! Ainda ontem eram tantas e de um verde exuberante, viçoso!

Sobressaltada e até indignada corri até lá esperando o pior quando constatei tristemente que havia um exército cortador combatendo por ali. Voei para a despensa e, em segundos, já com a isca de formigas em meu poder, pus-me a distribuí-la  entre as destruidoras que logo percebendo o cheiro irresistível mudaram a estratégia do ataque. De repente, erguendo o olhar por entre os galhos e folhas, descobri minúsculas "florzinhas" que apontavam, mostrando uma longinqua tonalidade laranja.

O deslumbramento cedeu lugar à incerteza; todas as pétalas tenras mostram ao nascer, essa cor.Conjeturava que se fossem realmente coral, seria oriunda do Horto Florestal onde certa vez fizera  um passeio e na avidez de possuir um exemplar, retirara às pressas uma muda que trazia perto de si os seguintes dizeres: " Bougainvillea Spectabilis", não toque nas plantas. Lembro-me ainda, que a escondera sob o blusão  depois de certificar-me  não haver alguém por perto...

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Os dias passam-se arrastados, a minha ansiedade faz com que pareçam ainda mais vagarosos. As saúvas desapareceram, tombaram, e as poucas sobreviventes abandonaram a pugna, mas os galhos do meu pé de primavera voltam a cobrir-se de pequeninas folhas verdes. E agora, , embalado pela brisa fria, o cacho de flores cresce e exibe uma cor cenoura bem firme....

sábado, 7 de janeiro de 2023

Todos, todas e todes...


Como é difícil conviver com as constantes agressões que a língua portuguesa sofre a todo o momento...

(Texto inspirado em um vídeo postado por um amigo em um grupo de Whatsapp)


😱








Olavo Bilac, o mestre parnasiano, cultuou o nosso idioma, colocando-o num pedestal descrevendo sua pureza e estética, um dos últimos a ser criado a partir do latim, e cita: "Última flor do Lácio, inculta e bela!"  O poema melodioso traz o título  "Língua Portuguesa" e merecia ser lido por todo brasileiro que preze sua pátria e honre sua língua. 

Contudo, ao que parece, não é mais reconhecido ou de bom tom ser patriota ou cultivar a cultura linguística num momento em que se prega a abertura das fronteiras, a obrigatoriedade da cidadania mundial e projeção da língua inglesa como franca, conhecida em qualquer parte do mundo. A tendência é que a linguagem anglo-saxônica venha para ficar como língua universal, dado às constantes agressões que as línguas nativas sofrem; a cada ano, milhões de termos as invadem e vão substituindo muito outros. Como exemplo, no nosso país, a palavra entrega já não existe mais, foi erradicada; delivery a substituiu, assim como  os termos que  até já se encontram incorporados aos nossos dicionários. São tantos os vocábulos que comecei a escrever um roteiro de uma peça teatral cujo personagem usa a cada frase que profere duas a três palavras em inglês: é na academia, no mercado imobiliário, no shopping e em tantos outros locais. 

Lá em meados da década de 2000, quando meu filho se preparava para enfrentar o vestibular da FGV, verificamos que em um deles, o tema da redação fora sobre o desmoronamento da nossa língua pátria; sinal de que naquela época, ainda havia uma preocupação em preservar e valorizar a cultura nacional. Lembro-me bem que na proposta da redação havia um texto de apoio que falava sobre um projeto de lei com o intuito de uma providência nesse sentido.  Atualmente, poucos se importam com essa questão. Tal fato deve estar fazendo Bilac revirar-se em seu túmulo, podem crer.

Essa questão incomoda muito aqueles que ainda têm a capacidade e a virtude de serem  estudiosos e cultivarem seu espírito crítico. A pergunta que não quer calar é: todas essas mudanças nos serão relevantes, trarão algum benefício no futuro ou nos tornam mais escravos do que já somos atualmente? Ainda nos resta alguma chance de escolha, podemos contradizer e ter opinião própria? De antemão, já respondo que não temos mais esse direito, quando a maioria dos povos foi abduzida, teve sua vontade sequestrada pelo convencimento através de propaganda veiculada através de artistas, jornalismo de opinião, indução inescrupulosa e nojenta que prendem em sua teias milhares de almas, causando a transformação e a satisfação de egos através do sonho de consumo, calando suas vozes e unificando seus pensamentos, tolhendo a diversidade do livre arbítrio, roubando da sociedade a capacidade de reflexão e análise perante os fatos, bem como sua tomada de decisão ou conclusão. Não há mais, com raríssimas exceções, seres pensantes com capacidade de tirar conclusões próprias, infelizmente. Com o advento da globalização, a linguagem virtual, a projeção do inglês como meio básico de comunicação, verificamos a dificuldade em valorizar a língua nacional. 

Voltando a falar da integridade da língua portuguesa, cito aqui o trabalho dos gramáticos realizado durante anos e anos no intuito de polir, abrilhantar e tornar elegante o falar e o escrever de uma população; e não falo aqui da gramática descritiva, ou da histórica que trazem cultura e aprofundamento nos conhecimentos linguísticos, refiro-me mesmo à gramática normativa, acessível a qualquer cidadão comum que queira usar adequadamente a linguagem, que aprecie a finesse e o bom gosto, coisas que estão sendo consideradas antiquadas pelos mais jovens, uma vez que a Educação que lhes é oferecida nas instituições de ensino valorizam outros conteúdos em detrimento do esmero na articulação da língua. Posso falar com propriedade sobre isso, haja vista ser professora de língua portuguesa e inglesa durante 35 anos; experiência  que me proporcionou  assistir tristemente a decadência sofrida na educação pública estadual. Se os gramáticos pudessem fazer um manifesto, acredito que o fariam ao ver tanta barbárie e desrespeito com as línguas e sua respeitabilidade.

Criam-se termos, neologismos absurdos sem coerência ou necessidade alguma. Há algum tempo, uma apresentadora por pouco não publicou um dicionário para favorecer sua carreira, o que desastrosamente seria funesto para a alfabetização dificultando ainda mais o trabalho dos educadores que trabalham nessa área. Ainda essa semana, ouvimos indignados, autoridades que ao cumprimentarem seu público eleitor, ou melhor dizendo, seus súditos, citaram: todos, todas e "todes". Mas que bela lição estão passando, num momento que quase ninguém mais se preocupa com essa questão! Gostaria de saber qual a intenção oculta nessa citação, uma vez que o uso do pronome  todos por si só, já seria suficiente para englobar a totalidade dos ouvintes e espectadores daquele discurso. É quando bate uma insegurança total no nosso futuro como nação brasileira, uma desconfiança e incredibilidade na qualidade do ser humano ocupante de um cargo público tão importante, que deveria ensinar a população através de um discurso formal e correto  e não transmitir o inadequado,   dificultar ainda mais o manejo da língua...  

E com lágrimas nos olhos podemos dar outra interpretação ao segundo verso da primeira estrofe do poema de Olavo Bilac: língua portuguesa, "És, a um tempo, esplendor e sepultura... "

sábado, 31 de dezembro de 2022

 Mais um ano para minha coleção... Já são consideráveis em quantidade, acredito que em qualidade também, tenho sempre a preocupação em melhorar a cada dia, identificar meus erros e tentar corrigi-los, árdua tarefa...






A HAPPY NEW YEAR!  



Os eventos de Natal e réveillon caracterizam-se mais por seu cunho social. São os mesmos desejos e votos a cada ano, até momentaneamente sinceros acredito, entretanto de difícil realização, uma vez que a própria individualidade do ser humano, a sociedade familiar a que está engajado o impedem de doar-se inteiramente aos parentes e amigos próximos e distantes. Interesses econômicos envolvidos em cada vida determinam os grupos a que devem se aliar para o alcance de objetivos e realizações profissionais. E não tenham dúvida, isso é o que mais importa ao ser humano hoje: status, posição social, estabilidade financeira, haja vista que sem esses requisitos não há aceitação, nem mesmo valorização do indivíduo no meio em que vive. 

Muitos ao lerem  textos como esse podem indignar-se com eles, afirmando o contrário, tentando contradizê-los, chegando até a chatear-se com seu conteúdo, uma vez que incomodam e nos impelem a refletir sobre ele. Pois é meus amigos, não me levem a mal, quando aqui escrevo após muitas reflexões sobre a vida, não há o intuito de ofender ninguém, uma vez que as alegações aqui depositadas estendem-se de forma generalizada e nunca particular. A humildade que muitos pregam como virtude do homem, só se justifica naqueles que são privilegiados socialmente e nunca àqueles que não alcançam um status invejado perante à sociedade em que vivemos, por mais despojado que esse sujeito seja. Quando criei esse blog não o fiz com o objetivo de apenas agradar, exibindo textos melosos e piegas, mas sim, com o intuito de apontar as falhas que todos nós, pobres mortais, cometemos diuturnamente.

Também me incluo nesse rol, também sou pecadora e mortal como todos. Acredito que só melhoramos e depuramos nossos espíritos a partir de críticas e autocríticas coerentes e construtivas com base em reflexões sensatas. Nesse contexto, na maioria das vezes, menos é mais, uma das frases mais inteligentes de que tenho conhecimento. Não exageremos em elogios, em doação de amor ao próximo; em sinceridade e piedade quando realmente não estamos nos importando com isso ou não vamos conseguir tais intentos. Devemos nos lembrar que a nossa atitude é tudo, o exemplo que deixamos para nossos filhos e gerações futuras. Se não somos sinceros o bastante para realizar o que dizemos, para que afirmá-los com tanta veemência?

A futilidade, algo que infesta a alma de muitos seres, manifesta-se na valorização de quinquilharias materiais, bens de consumo que nunca levaremos conosco, não são essenciais para o nosso crescimento. Porém, são extremamente valorizados e invejados por aqueles que não trabalham seus espíritos e resumem toda uma vida a um amontoado de coisas inúteis adquiridas por alguns sob sacrifícios descomunais. 

O apego exagerado ao dinheiro consome muitas existências que deixam de valorizar e aprender com a escola da vida o que realmente importa. Não que devamos esbanjar, nos tornando pródigos, arriscando nosso futuro e o de nossos filhos; é preciso ponderação, preservação para uma velhice segura em que possamos gerir nosso próprio sustento sem o transtorno da dependência econômica de filhos e parentes. 

A indiferença é uma das grandes mazelas que o ser racional e inteligente tem a capacidade de apresentar. Quando isso acontece e acomete a alma é capaz de ferir mais do que uma arma letal, pois diminui, desvaloriza uma pessoa que pode se sentir a pior das criaturas da face da terra, acredito que o desamor gera essa atitude tão vil.

Estou aqui a escrever e a recordar da minha infância quando ao frequentar a igreja nos eram apresentados os pecados capitais e a didática que usava para ensinar era fantástica! Como exemplo, a soberba, ou melhor dizendo, a vaidade, a sensação de superioridade perante outrem não é bem-vinda, uma vez que produz pessoas arrogantes que se prevalecem sobre as outras por vários motivos: aparência física, privilégio de classe social ou familiar, aparato intelectual, entre outros. Quem dentre nós já não padeceu com esse mal e muitas vezes teve que engoli-lo pois partia de alguém com posição mais favorecida?

O ódio, a ira levam ao desvario podendo provocar danos à vida de outros ou a nossa própria, acabando com a paz e a fraternidade. Quantas famílias perdem seus membros por essa causa tornando-se amarguradas pelo resto de sua existência...

Se pararmos para  pensar são muitas as falhas que estamos arriscados a cometer, como a inveja, a preguiça, e não apenas os pecados capitais, existem aqueles  classificados como mortais responsáveis por tornarem infelizes milhares de seres...

Temos capacidade de evitar tudo isso, basta parar um pouco para pensar, no que temos feito ao longo de nossas vidas. Podemos melhorar certamente; cada ação causa uma reação, consequência, é uma lei da física, mais especificamente a terceira lei de Newton da qual não podemos fugir. E alguém já disse: "Você recebe do mundo o que dá a ele".



sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Reflexões sobre o Natal






 Sempre que essa data chega, não canso de falar: me pega de surpresa. Perdida em afazeres mil, sempre acordo com uma grande árvore natalina a exibir suas cores e luzes à porta de shopping centers, ou com um Papai-Noel gigante. Às vezes, saio às compras rotineiras e me deparo com produtos natalinos aos borbotões nas portas de entrada de lojas populares. Esse ano não foi diferente: não havia saído muito nesses últimos dias, porém, quando abro a porta do meu apartamento, me deparo com a grande guirlanda de flores e arranjo de porta dos vizinhos em meu piso. E nem havia pensado em Natal ainda. Jogos de futebol pela Copa do Mundo misturaram-se com a data trazendo o esquecimento temporário. Do último evento, não há o que falar, só decepção, também nessa altura do campeonato consigo perceber a conotação política que envolve o acontecimento, de modo que competições esportivas de uma maneira geral, não me passam  credibilidade alguma quanto à lisura e ética necessárias. Acredito que até a década dos 50 ou 60, foi diferente, atualmente...

Não posso falar de Natal sem citar vivências, experiências ao longo dos anos que já não são poucos. Recordo-me bastante da infância distante em Araçatuba, minha querida cidade natal na casa de meus avós maternos, a preparação de uma ceia interminável, a casa cheia, a molecada correndo de um lado para outro a incitar os puxões de orelhas, os castigos e tudo mais no sentido de reprimi-los. Família grande, apesar de a casa ser bastante espaçosa não deixava canto algum vazio, fosse na sala ou em qualquer outro cômodo, áreas e quintal. Apenas o quarto de minha avó era sagrado, nenhum neto entrava ali, para bisbilhotar ou reinar; a cama sempre impecável assim como a arrumação dos móveis e acessórios simples. Me vem à memória os preparativos que antecediam o evento; cansei de ajudar a forrar formas de empadinhas, fossem de camarão ou palmito. Os netos adoravam comer salgadinhos, mas a ceia dos adultos era farta, graças a Deus. Nessas ocasiões. a casa era invadida por um aroma delicioso do preparo de carnes a assar, arroz de forno, entre outras delícias apreciadas pelos mais velhos. Para meu avô, de descendência portuguesa, não podia faltar a rabanada que ele mesmo fazia e o doce de aletria, que não me era muito simpático pela semelhança com o macarrão espaguete. Todos à mesa, a criançada a bater com os talheres nos pratos produzindo um som insuportável, até que lhes tolhesse uma repreensão bem dada.

 Ajudar a enfeitar a grande árvore natalina de meus avós, para mim um gigante, dado a meu tamanho, me provocava uma sensação de alegria mista de medo;  era necessário subir em uma escada para este fim! Como os ornamentos eram feitos de louça fininha, forravam o chão ao redor com cobertores macios para que não houvesse o risco de quebrá-los. E depois, o mais interessante para as crianças: o presente que receberiam na madrugada da véspera. Não podíamos deixar de limpar e engraxar os sapatinhos e enchê-los de grama, para as renas do bom velhinho pastarem, era uma festa! Coisas que jamais voltarão! Verifico que hoje, os Natais são tão diferentes, poucos acreditam no mito da festa, outros o criticam por pertencer à mitologia nórdica, apenas para incentivar e aquecer o comércio. Não compartilho desse ressentimento. As crianças hoje, como é  natural,  não apresentam mais os mesmos gostos para presentes, vivem num mundo virtual com a mente povoada de ficção de outra natureza...

Da residência de minha avó paterna também tenho algumas lembranças: a refeição era outra, peru recheado que em nada me agradava, pois certa vez conseguira ver a pobre criatura aguardando o seu sacrifício enquanto lhe davam bebida alcoólica para que a carne ficasse mais macia e apetitosa... Leitão  assado à pururuca. Tenho um particular a dizer aqui, peguei verdadeiro nojo de carne de porco por conta das maneiras de uma prima, que não vou citar o nome, à mesa: ficava enrolando pedaços entre as palmas das duas mãos e depois comia. Até hoje não consegui esquecer esse fato. Os tios bebendo muito querendo saltar muros gigantes, empoderados pela bebida, os brindes intermináveis com champanhe que varavam a madrugada.

Me vem à memória o Abrigo Ismael em Araçatuba, onde uma de minhas tias maternas, a Luíza, trabalhava e morava. Tomou essa decisão desde muito nova, seguia a religião espírita e assim ali, alfabetizava os infantes nos caminhos de Deus. Assisti a algumas de suas aulas, eram fantásticas, usava figuras em flanelógrafo para ilustrar as passagens bíblicas. Certo Natal, como cantasse bem e tivesse boa memória, ela me convidou para interpretar uma música naquela noite. Sempre fui muito extrovertida e fui. Cantei Natal das crianças, mas na minha pureza infantil, me senti desconfortável ao cantar a frase: "Tocam sinos na matriz" uma vez que a religião pregada ali era outra... Coisas de criança!

Acreditei durante muito tempo em Papai-Noel, até que por volta dos 11 anos aproximadamente, fui buscar meu presente em casa, pois segundo meus genitores, o bom velhinho o deixara lá, assim como o do meu irmão. Havia pedido uma pasta decorada com a imagem de Santa Cecília, a protetora dos músicos para guardar partituras de piano, cujo estudo iniciara e apreciava muito.  Não sei porque cargas d'água, meu pai achou de colocá-lo em um vão entre duas portas abertas naquele exato momento, talvez ele se atrasara na compra e deixou-a cair, fazendo um grande barulho. Foi quando parei de acreditar naquele mito tão esperado e mágico. 

Muitas ideologias de cunho político não orientam o fortalecimento dessa crença em Papai-Noel, porém jamais conseguirão destruir sua imagem, uma vez que simboliza poesia, só bons valores e sentimentos que vêm de encontro à inocência de uma criança.  Não importa a sua origem, ou país que representa. Além de fazer parte da festa de Natal, é uma tradição de muitos anos passada de pai para filho, de mãe para filha, de avós para netos... E por aí vai. Essa festa é mais do que a fidelidade à passagem bíblica, é responsável pela agregação, comemoração da vida, união entre as pessoas, respeito mútuo, amor... E se traduz em lembranças. Não há quem não se recorde de alguém querido que nos deixou, mas que está presente em nossos corações.

 Aos mais velhos, saudades dos Natais passados, aos mais jovens construção de experiência que ficará eternamente guardada em seus corações! Nesse Natal, desejo a todo mundo, muitas felicidades e boas lembranças!


sábado, 17 de dezembro de 2022

A duras penas...

 Na idade dos três anos uma criança vive praticamente de ilusão. Segundo Piaget, a fase em que ela se encontra é a do período pré-operacional, que só termina aos sete anos...

Esse episódio faz parte de meus passeios pela memória, sinto saudades de Paulo Bonfim em seu programa do mesmo nome na Rádio Cultura...


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Foi assim que tudo aconteceu: exatamente nessa idade. Meu primeiro filho não aceitava não como resposta: se queria um brinquedo tinha que ganhá-lo. Acredito que todas as crianças nesse estágio agem assim, pois não há o desenvolvimento cerebral necessário para raciocínio e entendimento das situações conflitantes nessa faixa etária. Lembro-me bem ainda hoje apesar do avançado da idade, do que fazia quando era contrariado. Podia ser em shopping, na casa de alguém, enfim, ainda me recordo daquele cabelinho loiro e muito liso,  sacudindo quando ele tentava convencer, batendo a cabeça contra o chão. Aquilo me deixava louca, mas reunia toda a paciência que conseguia para aparentar calma, conversar com ele e aquela crise, se prolongava por minutos que pareciam uma eternidade. Só fui descobrir que ele batia contra o chão levemente quando numa dessas tentativas, sem querer, fê-lo com mais força entrando em choro sincero.  Nem sempre era possível presenteá-lo da forma como queria e o resultado era sempre o mesmo. E o tempo foi correndo, não me recordo se estava grávida de minha filha quando ele me fez um pedido para presente de Natal. Como  sempre, queria um robô caríssimo ou um carro de controle remoto, um Pegasus, que para o salário de professora e de um comprador estava além das posses econômicas. Pagando mensalmente o imóvel que adquiríramos somado a outras despesas mensais de primeira necessidade, não hesitei: quanto ao robô Percival, nem sonhar! Acabei comprando  um carro de controle remoto, contudo,  não era o Pegasus. Confesso que sentia uma sensação de remorso por não poder atendê-lo e assim, comprei também um outro presente, algo que ele nem conhecia: um balão solar! No afã de presentear nem procurei saber que esse tipo de balão traz riscos ao tráfego aéreo; hoje com mais idade, raciocinando melhor, tomei conhecimento do meu erro, apesar de o balão descer durante a noite e não agredir o meio ambiente por ser biodegradável. Acho que ainda existe; mais parece um saco de lixo na cor preta e até hoje desconheço o processo que ele desenvolve para subir tão alto. 

Depois da noite de Natal, só posso dizer que ele se decepcionou com a falta do  carro que pedira, mas, com o tal balão, ficou encantado! Não via a hora de colocá-lo no céu como afirmava em sua cândida inocência. Como morávamos próximo à represa de Guarapiranga em São Paulo, na década de 80, um local maravilhoso onde apenas a natureza imperava, lá fomos nós com o  balão já cheio de ar e lacrado. Conhecendo o filho que tínhamos, resolvemos não soltar o balão definitivamente; amarramos um tipo de linha até forte, porém não o bastante para suportar o peso que ele adquiriria ao sabor do vento e que não soubemos prever. 

Lembro-me bem da alegria dele ao ver o balão subindo, os olhinhos brilhando de tanta felicidade, aquele presente acertara na mosca, fê-lo esquecer da frustração pelo robô e o carro. Segurava, pelo menos, fazia a maior força para segurar a linha que prendia o balão a suas pequenas mãozinhas quando o inesperado aconteceu: a linha se rompeu com o peso que o objeto alcançou a uns 10 metros de altura.

Nunca me esquecerei do seu grito de dor e tristeza que ecoou pelos ares. Erguia os bracinhos para o vazio como que querendo alcançá-lo em vão, passou do desespero ao choro sentido, lágrimas rolando pelo rosto enquanto pedia pelo balão. E o objeto do encanto foi sumindo cada vez mais no infinito, até se resumir a um pontinho negro no azul do céu. De nada adiantava falar com ele, dizer que compraria outro igualzinho, ele queria aquele...

Voltou para casa cabisbaixo a soluçar, confesso que até chorei também por dentro, e por reconhecer que acertei em minha tentativa de agradar e falhei  em não manter pelo menos por um dia o objeto do sonho e da ilusão infantil.

Assim  crescemos, impulsionados pelo sofrimento que aos poucos nos aproxima da realidade e do que é a vida em seu aspecto.