terça-feira, 9 de abril de 2013

Continuando a narrativa...




VIAGEM AO MUNDO DESCONHECIDO - PARTE II






(capa original do livro que ganhei em 1963)


Falando um pouco do personagem principal:



Fernão de Magalhães era de uma família nobre portuguesa, nascido em 1480 na cidade de Sabrosa.Foi pajem na Corte de Lisboa antes de ingressar na Marinha Portuguesa. Navegador experiente, já havia participado de viagens às Índias e a África Ocidental. Lutando como soldado, sempre a serviço de Portugal, lutara contra os árabes no Oceano Índico e contra os mouros na África do Norte onde ferira-se na perna esquerda da qual mancava após esse ocorrido. Ganhava uma pequena pensão do rei de Portugal apesar da grande contribuição que oferecera ao país.

Objetivo da descoberta do caminho das Índias viajando pelo Ocidente:


O caminho das Índias navegando pelo oriente tornara-se perigoso, pois havia ali um bloqueio aos europeus por terras islâmicas hostis que atacavam os navios portugueses quando por ali passavam. A descoberta de um novo caminho pela direção contrária seria muito útil para a segurança da viagem.
 Como o rei D. Manuel negasse a Magalhães o apoio para sua viagem, o navegador pede-lhe a autorização para solicitar ajuda de outro monarca. Era certo que o rei não simpatizava com Magalhães, não atendendo nenhum dos pedidos que fez: não apoiou a viagem, desacreditando daquele homem simples; também  não lhe concedeu aumento em seu parco salário.
Contudo deu-lhe a autorização para que recorresse a outro rei.
O então rei da Espanha, Carlos V, era o monarca mais poderoso da Europa reinando sobre os países que formavam o Sacro Império Romano. Diante do pedido de Magalhães, pede que os sábios avaliem seus projetos de viagem e dá-lhe a notícia que  fora aceito e lhe concede o tão sonhado apoio.
Foram concedidos a Magalhães 5 navios: Trinidad, Concepciòn, Santiago, San Antonio e Victoria. Dentre esses navios, quatro deles eram carracas (tipo de navio mercante com três mastros), apenas o Santiago era uma caravela (embarcação menor e mais leve com velas triangulares para facilitar a navegação e dois mastros apenas).
Emocionado, ele recebe o documento das mãos do rei, intitulado "Capitulação". Na verdade, um contrato estabelecendo que ao navegador caberia a vigésima parte de tudo o que trouxesse das terras descobertas ao longo da viagem; direito de duas ilhas a cada seis  descobertas, além do título de governador dos países e ilhas encontrados. O mais gratificante é que Magalhães seria o comandante-mor da tripulação de todas as naus ocupando o posto de capitão general.
Começou a preparação para a fantástica viagem e a escolha da tripulação que contou com 265 homens perigosos de origem espanhola, francesa, portuguesa, italiana, inglesa, flamenca, norueguesa além de grega e alemã.Como a viagem era perigosa e o futuro incerto, poucos eram os homens que queriam aventurar-se, desta maneira foi preciso estender a difícil escolha a tantos países.
Durante esse processo de preparação para a partida, Magalhães sofreu toda a sorte de pressão, pois Portugal agora com medo de que o feito pudesse se concretizar, temia  ver o país rival, Espanha, tornar-se glorioso pela descoberta. Assim sendo, tenta impedir Fernão de partir. Além desse fato, houve também a inveja de outros navegadores espanhóis que não se conformavam com o fato de ser um português e não um espanhol a realizar a maior façanha da época...
Percebendo já de antemão todos os obstáculos que teria pela frente, Magalhães analisa a situação cuidadosamente e deduz certamente que haveria problemas futuros com os comandantes dos outros navios que se insurgiriam contra ele e até levantou os nomes: Cartagena, Mendonça e Quesada...
Esse foi o quadro em que se deu a partida da esquadra de Fernão de Magalhães em 1519.

"Deixe seu comentário, ele será benvindo"...

terça-feira, 2 de abril de 2013





Tenho agora em minhas mãos um livro maravilhoso intitulado: “Viagem ao mundo desconhecido” do autor Francisco Marins, editora Melhoramentos. Um hard cover que traz na primeira capa as ilustrações de uma caravela à moda do século XVI, acompanhada por outras que a seguem pelo mar afora e se aproximam dum estreito entre duas montanhas rochosas em pleno oceano, onde pinguins se apoiam sobre um pequeno bloco de gelo, enquanto as aves marinhas voam cortando os ares próximo às embarcações.
Abrindo o livro na sua página de guarda, vejo uma anotação com letra infantil datada de 20-12-1963 que diz: “Uma recordação da Mesbla S.A que ficará guardada ternamente em meu coração”
Ganhei esse livro quando tinha então 13 anos dessa firma maravilhosa onde meu pai trabalhava de vendedor (viajante) e que em todo o Natal fazia a gentileza de presentear os filhos de funcionários com um mimo. Pena que a empresa  não sobreviveu aos tempos modernos e hoje, já não existe mais... 
Porém, este não é um presente qualquer que ganhei, é um tesouro precioso,  uma obra muito importante para aqueles que querem saber mais sobre a sofrida viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães.











(O mérito nem sempre é dado a quem merece)






(imagem retirada do Google Image: históriabatecabeca.wordpress.com)






Viagem ao mundo desconhecido – Parte I



Francisco Marins, autor deste romance e também do livro que comentei em textos anteriores, escreve romances de aventuras com embasamento histórico. Nascido em 23-11-1922 no início do movimento Modernista brasileiro, em Pratânia, SP, foi membro da Academia Paulista  de Letras, eleito em 1965, e,  certamente ocupou sua cadeira condigna e merecidamente, ao contrário dos nossos dias onde essas cátedras são preenchidas mais por populismo e política.
Quando ele narra episódios como este, mescla a aventura à ficção e ao mesmo tempo não abandona a veracidade dos fatos de cunho histórico do nosso Brasil. Neste caso, pesquisou numa vasta bibliografia para a narrativa de uma série intitulada “Taquara-Póca” onde o personagem do professor Justino vai narrando os acontecimentos motivantes aos seus aluninhos da fazenda, as crianças Dudu, Tico, Pintadinha, Zequinha, Butoca e até a outros personagens mais velhos como o ex-escravo, nho Tibúrcio, que participa fazendo perguntas e ouvindo atento a cada episódio contado.
Este livro conta a fantástica e sofrida viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães, numa época em que os desafios precisavam ser feitos para provar ao mundo que as novas teorias de navegação estavam corretas. O destaque da Escola de Sagres em Portugal nessa época foi uma realidade.
A viagem de Magalhães se iniciou no século XVI, em 1519 e terminou apenas em 1522. Foram três anos de luta das naus contra os mares inóspitos e revoltos na tentativa de se descobrir um novo caminho para as Índias, o objeto de sonho da sociedade europeia pelas riquezas de sua economia, as adoradas especiarias; condimentos como açafrão, canela, pimenta do reino, noz-moscada que traziam sabor aos alimentos além de serem matérias-primas para remédios; tecidos maravilhosos como a seda, pedras preciosas além de outros. Encontrando-se esse caminho haveria possibilidade de também trazer produtos do sudeste asiático e da África.
Tal caminho já havia sido descoberto anteriormente em 1498 por Vasco da Gama, mas não agradara por ser demais perigoso. O mérito dessa nova tentativa estava no fato de provar, conforme afirmavam os sábios, que a Terra era redonda, descobrindo o caminho navegando em círculo, partindo de um ponto e retornando ao ponto de partida.
Para tanto, Magalhães precisa de um patrocínio para que possa realizar sua viagem, assim, procura o então rei de Portugal, Dom Manuel I, “O Venturoso”, como era conhecido, aquele mesmo monarca da época do descobrimento do Brasil em 1500.
Na verdade, essa viagem seria a continuação da mal sucedida viagem de Cristóvão Colombo em 1492, que não logrou êxito em alcançar as Índias navegando pelo ocidente e desta forma não provando que a Terra era redonda, realmente.
Entretanto, Magalhães não contou com o apoio do rei e dos sábios, era um homem simples, não obteve o financiamento para realizar seu grande sonho...


terça-feira, 26 de março de 2013



 Como se encontra a educação em nossas escolas estaduais? Você tem uma ideia?Todos os jovens pais mais esclarecidos com quem encontramos, garantem que trabalharão até a extinção de suas forças, mas jamais colocarão seus filhos em uma escola pública...










É uma pena, porém é lastimável o estado em que se encontram nossas escolas atualmente, numa situação que foge totalmente do controle dos professores e de toda a equipe escolar, diga-se de passagem. Diria que o caos se instalou em todas as unidades de ensino estaduais com raríssimas exceções. E não adianta encontrar um bode expiatório como educadores, diretores, e outros envolvidos para tentar responsabilizar, a culpa não é de nenhum deles.
Para quem já estudou em tempos áureos ou mesmo para aqueles que como eu ainda cursaram essas escolas em outras décadas é sabido que realmente, apesar das mudanças que já se delineavam, essas instituições com toda a seriedade e respeito que tinham perante os cidadãos, alcançavam o seu objetivo de formar pessoas conscientes, com capacidade suficiente para se promover em concursos públicos sem muito sacrifício e sobretudo prepará-los para viver e conviver sadiamente em grupo. Nessa época, ninguém em sã consciência que pretendesse uma boa formação intelectual ou ético-moral manifestava desejo de estudar em uma escola particular pelo motivo de que estas apresentavam um nível de ensino de qualidade inferior (por incrível que pareça) acolhiam alunos desinteressados do ensino público que eram jubilados (repetentes por três anos consecutivos) e os expulsos por indisciplina e vandalismo. Quando alguém perguntava sobre a qualidade de ensino a resposta era infalível: quem quer estudar, matricula-se em uma escola pública.
Que reviravolta aconteceu com a Educação até os nossos dias! Posso falar com certeza, pois sempre trabalhei nessa área; foi uma sucessão de leis inapropriadas, importadas, inadequadas para a nossa sociedade, em moldes de países de primeiro mundo que caíram em nossas escolas e não se ajustaram como deviam, dir-se-ia que o molde era maior do que o manequim que o usaria. Filosofias utópicas, forjadas em gabinetes fechados, que nem de longe seriam práticas para a situação real, apenas teorias, teorias e leis impostas de cima para baixo que nunca ouviram aqueles que realmente poderiam elaborá-las, aplicá-las e conseguir um bom resultado. Aos pobres educadores só restava acatar esse monte de teoria inútil e tentar aplicá-la em seus planos de ensino e em sala de aula sem nada conseguir de concreto que justificasse esse uso...
A primeira das leis impactantes que caiu como uma bomba sobre os educadores foi a 4692 (se não me falha a memória, mas essa marcou). Esta retirava toda a centralização do sistema educacional no educador e tornava o aluno o centro de todas as ações e intenções) e além do mais, retirava parte da autoridade do mestre ao repreender o educando ou chamar-lhe a atenção  com mais seriedade. Com essa decisão, começava a se delinear o fracasso da instituição como educadora, porque àquele educando carente de maior rigor para que assumisse os estudos ela foi delegando poderes que com o passar do tempo permitiu-lhe a ação de agir a seu bel-prazer e, sobretudo a atrapalhar todo o processo de ensino. Como as escolas trabalham com adolescentes cuja irreverência é a principal característica de comportamento, com esta medida, a educação foi se desmoronando dia a dia embasada em leis que provocaram uma demolição total no sistema até que a despeito de toda a promessa da democracia de melhorar todos os setores da sociedade, se chegou à incrível LDB em 2011, acabando de vez com o pouco de lucidez que ainda havia , instituindo a reprovação apenas por ciclos, medidas totalmente econômicas que em vigor até hoje, trazem em seu cerne decisões totalmente injustas, parciais e revoltantes para todos da equipe docente e discente; até hoje nenhum aluno pode concordar que seja equalizado a alguém que sequer traçou uma linha no caderno ou tenha apresentado uma única lição e que seja premiado com uma promoção injusta, insultando a todos aqueles que se dedicaram e incentivando para que também nada façam através do raciocínio e dedução lógica, para quê o esforço, se o prêmio é obtido com facilidade?
Vemos hoje um bando de jovens desrespeitadores, que precocemente não acatam leis, regimentos internos,   hierarquia ou aos mais velhos, depredadores do bem comum, violadores da posse do seu par, pois a todo o momento subtraem com a maior naturalidade bens de consumo de seus colegas de classe, revelando uma frieza e hipocrisia a toda prova; elementos totalmente nocivos que já se preparam para a marginalidade na vida adulta. E, com que tristeza nós, educadores, verificamos jovens em final de curso que sequer podem escrever ou ler corretamente... Nem quiçá saber portar-se dignamente perante qualquer evento social...
Toda a sorte de profissionais é necessária hoje dentro das escolas sem nada resolver: coordenadores, inspetores, professores mediadores que, por Deus, por pouco não sofrem um enfarto do miocárdio perante tanta falta de respeito e educação de berço, essa é um caso à parte, pois a desestruturação familiar, a maternidade em tenra idade e a falta de planejamento familiar não a possibilitam. Vemos dessa forma, enfermeiros enlouquecidos tentando socorrer alunos violentados pelos colegas em sala de aula e todo o tipo de mazela que não caberia nessa página, tal o tamanho das ocorrências. Sem contar os casos onde as drogas proliferam sem que nada se possa fazer, o medo tomou conta de todos os que têm sua vida pessoal e de sua família a preservar. Com sinceridade, tudo ocorre na escola menos a aprendizagem e o estudo que acontecem esporadicamente como um milagre apresentado por alguns.
E onde estão nossos especialistas da Educação que dormem sobre as utopias de um Xangri-Lá distante e teorias sem sentido?
Enquanto isso a marginalidade cresce, a violência aumenta e obriga o cidadão de bem a se fechar entre muros e grades. Até quando???

Será um prazer receber um comentário seu sobre o conteúdo lido, basta clicar no link comentários logo abaixo, sua opinião é muito importante.


terça-feira, 19 de março de 2013


Onde está o tão falado amor que se prega hoje?



Os valores que o mundo ocidental tem valorizado estão muito longe do ideal. A globalização que envolveu e continua envolvendo países com sua ardilosa retórica traz com a modernidade, incentivo ao consumo e valorização do material levando à extinção das emoções e dos bons sentimentos humanos que dantes eram considerados como a retidão de caráter que qualquer cidadão de bem devia apresentar...





Algumas das mais belas qualidades do mundo oriental são o amor e o respeito dedicados aos idosos que se encontram na última fase de vida. Ao contrário das outras civilizações do ocidente, um velho é considerado pela experiência de vida, sobretudo pelo conhecimento adquirido ao longo dos anos. E a despeito das lacunas de memória que alguns possam apresentar, há da parte dos mais jovens uma educação primorosa que reconhece a dedicação que eles ofereceram aos mais novos durante sua vida num agradecimento pelo trabalho que eles gastaram com carinho e sorriso nos lábios ao carregar os pesados fardos da formação dos filhos e netos. Por tudo isso, se deve valorizar essa atitude oriental tão singular nas pessoas mais jovens, coisa de se admirar em contraste com o nosso tão apodrecido ocidente que nessa questão, mostra o reverso da medalha na maioria dos casos observados.
Geralmente aqui, aqueles que levaram toda uma vida de sacrifício para educar e dar uma formação aos filhos e netos são considerados estorvo, semelhantes a um sofá velho qualquer que se joga fora sem hesitaçao alguma. Esquece-se de que estes idosos têm sentimentos e que nessa fase crepuscular da existência só contam com o amor dos familiares cujos membros são os únicos com os quais podem compartilhar suas tristezas, sofrimentos, saudades e alegrias. Eles são seu orgulho, sua razão por ainda continuarem vivos.
Mas não há paciência suficiente para ampará-los nessa fase sofrida: fazem sujeira, não mostram um visual socialmente aceito por aqueles de personalidade fraca e superficialista que só valorizam dinheiro, aparência física e futilidades que para nada lhe servirão, sobretudo como forma de crescimento espírito-intelectual. À semelhança dos jovens pais que precisando trabalhar colocam a atividade profissional em primeiro plano e depositam os filhos em creches e instituições privadas de educação maternal e infantil (com a diferença de que estes não têm como dar sustento aos pequenos se não trabalharem) estes desnaturados num gesto frio e racional resolvem seu problema delegando às famigeradas casas de repouso, que proliferam hoje em todos os lugares, aqueles que lhes deram a vida e os ampararam quando não eram capazes de se conduzir por suas próprias pernas, e que toleraram todo o tipo de indisciplina e irreverência. Esses pobres abandonados ontem, suportaram toda a sorte de desrespeito e deram  em troca o amor.
Quantas fraldas trocadas, quantas horas de vigília nos momentos de doença velada com preocupação, numa dedicação sem fim... Quantas renúncias em prol daqueles que hoje não podem sequer suportá-los, tratando-os com aspereza e todo o tipo de repreensão! Sem lembrar as inúmeras vezes do gesto de doar sem nada cobrar, o alimento não ingerido para prover o desenvolvimento da prole, o desgaste diário do trabalho, às vezes insano pela falta da formação exigida, no afã de trazer o melhor para a família.
Não há como compreender o que sucede hoje nos lares, se é que podemos assim chamar esses locais onde não há mais a retribuição, onde o amor não é correspondido e devolvido num momento tão difícil como o é a velhice...
E de nada adianta falar-se em “melhor idade” ou outros termos paliativos e felizes para representar uma fase em que não se deseja a companhia de estranhos apenas,em entidades e associações  que desenvolvem atividades em um grupo segregado e excluído, por que não dizer marginalizado justamente por aqueles que mais os deviam acolher.
São esposas que não têm a fibra moral e a disposição necessária para ajudar maridos que acometidos de enfermidades já não são autosuficientes, entregando-se a um comodismo a toda prova. Maridos e filhos que se perdem em aventuras amorosas, passeios sem fim e irresponsabilidade total não oferecendo a devida dedicação necessária no fim da vida, jogando-as em instituições de “repouso” onde ali ficam como muitos dizem “até que a morte se lembre delas”.
Mas onde é que estamos? Como não reconhecer que foram depositados nesses lares para que não importunem, para que não dêem trabalho e impeçam o lazer desses eternos desocupados que só pensam em si, num egoísmo ridículo e até assustador?
As já citadas “casas de repouso” na verdade, apesar das afirmações hipócritas de que são uma maravilha e até podem ser em alguns casos, diga-se de passagem, não podem ser o melhor para aqueles que mais do que nunca querem estar perto dos que lhes são caros, com quem sempre conviveram e amaram. Quem gosta de ficar num lugar estranho, longe do aconchego familiar, apenas convivendo com as amarguras e tristezas alheias ali reunidas, numa amostra diária de qual será o seu fim, tratado por estranhos sabe-se lá como...
Onde está a solidariedade humana que incentiva, ajuda à cura, busca a saúde e recuperação dos seus? Será que ela ainda existe em algum lugar nesse planeta imbecil, dessa nossa sociedade artificial?
Ao ler esse texto, muitos poderão se perguntar: é fácil falar e escrever, o difícil é arregaçar as mangas e agir... Mas quem disse que será tarefa fácil acolher seus idosos? É tão difícil como foi para eles cuidarem dos mesmos que se indignarem com minhas palavras. Justo nos dias de hoje, onde igrejas e associações beneficentes lotam o mundo, vemos o amor, a compreensão e humanidade cada vez mais longínquas e sem possibilidade alguma de voltarem a habitar os corações dos ditos “humanos” que apresentam atitudes indesejáveis não apresentadas até pelos animais mais selvagens.
Não se observa mais a sensibilidade necessária para essa retribuição de amor e carinho recebidos na infância, ao invés, nota-se que a frieza, o calculismo e o descaso tomaram seu lugar. Hoje, se gasta grande parte dos salários com essas instituições “salvadoras” que segregam os velhos até que sejam buscados pelas frias mãos da morte e que, na realidade, são casas de negócio, muito bem geridas para dar lucro, pois se não o conseguem, fecham as portas. Desse modo, há um plano de gestão econômico na alimentação, no número de funcionários, na atenção dedicada, no mobiliário e na roupa oferecida, enfim, por melhores que sejam, são lugares deprimentes, que obedecem a um rigoroso horário de visitas, que não permitem um compartilhamento familiar que, aliás, já nem existia dantes... 
Há uma série de questões que envolvem esse “internamento” dos idosos: haverá a paciência desses que lhe são estranhos nas horas de trabalho, se nem em casa a tiveram? A medicação para que se aquietem será uma constante? Suas necessidades serão atendidas de pronto? Ninguém poderá afirmar com certeza, a não ser se for uma personalidade cuja hipocrisia e dissimulação escondem sentimentos mesquinhos jamais revelados...
Se cuidar de idosos estivesse condicionado ao recebimento de uma herança, tenham a certeza de que as coisas mudariam de figura!Haveria briga entre filhos e parentes para tomarem conta deles...
E como é triste o fim desses pobres desamparados... Definham por muito tempo a cada dia e noite, no início, enganando-se com a vã esperança de voltarem ao amado lar entregando-se finalmente à certeza de que nada mais lhes resta a não ser a solidão e a morte.
É preciso que todos acordem desse pesadelo do desamor enquanto é tempo, aprimorem as personalidades indolentes que têm medo de trabalhar e cuidar melhor do que é preciso. Também é preciso deixar de se viver de modismos e imitações da vida de ficção dos que consideram “status” de classes privilegiadas dar um “ótimo atendimento” nas casa de repouso aos seus velhos. É preciso a aquisição de paciência para com aqueles que nos deram a vida, a retribuição por aquilo que recebemos. É preciso sobretudo raciocinar, entender o que é a vida, porque muitos ainda não sabem o que ela é.
Aos egoístas apenas importa a sua vida mesquinha e insignificante, ao altruísta,valorizar cada vida humana,  suas necessidades, demonstrando a riqueza de caráter, a espiritualidade e os nobres sentimentos...


terça-feira, 12 de março de 2013


Mais um texto


Comentar, expor fatos relatados em um livro lido e discutir pontos de vista sobre o assunto é muito importante. Talvez seja a ação que o povo brasileiro em sua maioria menos faz. Tecermos comentários, como os que fiz nos quatro textos anteriores, além de ajudar a quem estuda a matéria exposta, oferece opções de ampliar pontos de vista em vários tipos de questões: histórica, política, social, ética e muitas outras.Por essa razão, é uma necessidade estarmos lendo de forma constante e trocando idéias com outros que podem compartilhar opiniões e sugestões. O texto de hoje, foge um pouco deste esquema para tratar de um assunto bastante polêmico que vem incomodando não só brasileiros compatriotas como estrangeiros que através da internet tomam ciência do que acontece diariamente, porque não dizer momentaneamente em todos os países que com essa ferramenta têm a informação em tempo real.


imagem retirada do site: www.google.com.br



BRASIL, UM PAÍS IMORAL?



Começo por expor fatos ocorridos na minha infância na década de 50, onde a Educação era levada a sério em todos os setores da sociedade: nos lares, nas escolas, nas ruas e em todo tipo de estabelecimento frequentado por pessoas.
Quero que fique bem claro aqui que não quero fazer apologia de outros tempos, menosprezando o atual usando de presunção ou orgulho, nem tampouco como muitos dizem, apresentar atitude de senilidade que apenas valoriza o particular vivido sem analisar os fatos ao seu redor.
Geralmente, uma pessoa aos seus sessenta anos é vista por grande parte da sociedade como um ser em extinção, saudosista e depredador de tudo quanto é moderno. Tal fato ocorre com a maioria dos idosos que não param para pensar, que não se atualizam, adotando um paradigma egoísta e avesso a qualquer tipo de mudança.
Apenas como elucidação, a forma de conduzir a vida de uma criança era totalmente diferente da que temos nos dias de hoje, venho de uma família que nunca me ergueu a mão ou castigo para me ensinar alguma coisa, pais presentes, principalmente a figura materna, orientando, aconselhando, encaminhando dentro de princípios básicos para o convívio social saudável.
Hoje, no afã de se inserir a mulher no mundo profissional, fator de lucro para o setor empregatício, uma vez que os salários são mais baixos, aliado ao fator da maior dedicação do sexo feminino, a educação infantil tão essencial à formação do cidadão adulto foi relegada a  segundo plano, a depósitos de crianças, representados pelas instituições privadas ou estatais como creches e escolinhas infantis que no fundo são a mesma coisa e existem como forma de negócio, muito embora afirmem o contrário e muitas delas tentem fazer o melhor possível. Desta maneira, já na mais tenra idade, bebezinhos são arrancados do seio materno e conduzidos diariamente a locais onde, se pudessem escolher, jamais estariam.
Verifica-se com esse fato uma lacuna incompreensível no desenvolvimento de qualquer ser. A não-presença da mãe é inegavelmente a causa de muitas psicopatias e vícios na idade adulta. O alto índice de criminalidade nos nossos dias não se deve apenas a fatores apontados pela mídia e pela ciência como a desigualdade social, pobreza e sim pela falta de amparo, de ajuda e aconselhamento na infância pela mãe, figura insubstituível, único ser capaz de transmitir segurança, amor sem esperar nada de volta. É claro que para toda regra há exceção, uma vez que aquele que não recebeu amor na infância também não saberá retribuí-lo.
A que foi relegado esse amor materno hoje? É fácil responder, a uma pressa constante, a uma escravização obsessiva pelo relógio que controla a todos àqueles que precisam trabalhar. Pela pressa, não se faz um carinho que não podia esperar, por ela não se acompanham os deveres e vida escolar das crianças, bem como não se desperta amor ao estudo, aos livros, não se orienta o que se deve ou não fazer. As pessoas se robotizaram, tornaram-se frias e desprovidas de sentimentos. O dinheiro fala mais alto, para muitos, porque sem ele não podem nem alimentar os filhos que feitos sem planejamento algum superlotam casas sem estrutura física ou psicológica para recebê-los. Para outros, porque levados pelo consumismo compulsivo consideram que amor aos filhos é lotar as casas de quinquilharias e roupas de grife numa competição desenfreada com vizinhos, parentes e amigos. E para  muitos ainda, fato totalmente inadmissível, por preguiça de cuidar de suas crianças, tarefa que, diga-se de passagem, não é nada fácil, assim muitas dessas progenitoras entregam seus filhos aos cuidados de avós, empregadas domésticas quando não os maltratam, abandonam  até perder-lhes a guarda para instituições de amparo a menores e colégios internos, eximindo-se de qualquer responsabilidade, lavando as mãos, à semelhança de  Pilatos.
Outro fator que também merece vistas em outras décadas era a educação religiosa infantil que, na verdade, nada mais era do que uma formação moral, voltada para o fundo espiritual, coisa que hoje em dia, não é vista com bons olhos por grande parte da população. Frequentei duas instituições diferentes que me forneceram a base ética da minha formação moral, da igreja católica e da escola espiritualista. Não havia muita diferença na didática de ambas. Quando se ensinava os pecados capitais como não ter inveja, gula, usura, luxúria e outros com metodologia lúdica e tão convincente o resultado era verificado no futuro: pessoas totalmente humanas, educadas nos mais simples atos como aquele de se sentar em uma mesa e fazer uma refeição, a respeitar aqueles que possuem bens sem odiá-los reconhecendo-os como seu par, enfim ensinamentos que nunca atrapalharam ou diminuíram qualquer ser humano.
Ao invés, hoje o dinheiro de dízimo fala muito mais alto, é o pregão primordial que inicia qualquer liturgia religiosa, muitas instituições condicionam o recebimento de bênçãos divinas a esse fator. O que dizer, então diante disso?
Inúmeras são as questões que envolvem a Educação não apenas do Brasil como de outros países ocidentais onde o capitalismo selvagem impera.
De todos estes fatores a sociedade da era digital, dita altamente desenvolvida, produz seres totalmente insensíveis que não sabem valorizar a vida, não respeitam os direitos e sentimentos alheios; verdadeiras máquinas físicas que agem egoisticamente a seu prazer tirando vidas, maltratando animais e tripudiando sobre eles.
Temos atualmente jornais de mídia impressa e falada, digital ou não que exibem manchetes que chocam diariamente pela atitude insana de seres que friamente maltratam seu par, torturam e cometem atrocidades e crimes hediondos. Isso acontece em todos os países, em menor ou maior escala. O que pesa é a atitude exercida pela Justiça no sentido de corrigir esses desvios amparados pelos códigos penais de cada país.
No Brasil, onde grassa a impunidade, há uma visão do país como imoral, pois não apresenta uma legislação propícia à correção e reparação do erro. Há ao contrário, uma legislação frouxa que facilita o crime e sua proliferação, uma vez que nenhuma das penas é cumprida na íntegra, há o relaxamento delas até em crimes hediondos. A corrupção corre solta, de forma que a população tem no descrédito todos os setores, inclusive o judiciário e seus membros, embora se saiba que essa distorção de caráter não seja regra geral.
Temos dois casos em evidência esta semana: o caso do goleiro Bruno cujo julgamento já foi consumado e surpreendeu a todos com a sentença impetrada. Nem de longe, foi feita a justiça. Mais um crime covarde e sem justificativa que não oferece uma medida de reparação justa. É óbvio que nenhuma punição trará de volta uma vida ceifada, mas e a questão moral do país como fica? O lado do goleiro deve ser também levado em conta e fica aqui também uma reflexão: por que as mulheres insistem tanto em “forçar a barra” para ficarem com homens ricos e famosos? Fosse ele um homem pobre, jamais mulher alguma exigiria ou teria morrido para reconhecimento da paternidade. Nossa sociedade precisa parar de valorizar alguém pelo que tem, quantas mortes não estão acontecendo pela supervalorização do dinheiro?
O segundo caso ainda em andamento do advogado Misael que ao que tudo indica assassinou friamente a namorada, Mércia, cujo motivo ainda não foi evidenciado. Porém nem é preciso justificar, não há justificativa para tamanha crueldade e covardia contra uma mulher frágil e indefesa.
Antes de se fazer um código penal justo, eficiente que aplique a justiça em todos os casos é preciso uma atenção maior ao início da vida, à infância citadas no início, conduzindo-as com mais carinho, atenção familiares, onde o amor seja o esteio e o único caminho eficaz para que tenhamos uma sociedade saudável espiritualmente, que ame e seja amada, que respeite e seja respeitada, que valorize sobretudo o ser humano acima de qualquer bem ou valor material.






sábado, 2 de março de 2013


Parte IV  - última parte    

 Comentando o livro Território de Bravos de Francisco Marins








http://eduardoeginacarli.blogspot.com.br



Como deve ser gratificante conseguir alcançar um objetivo após esforço próprio e muita luta. Luta contra diversos empecilhos: inimigos, animais selvagens, doenças. Só mesmo os bravos são capazes de realizar tal façanha. Uma pena que nos dias de hoje já não haja homens com este propósito tão determinado e coragem além da morte. Pobre da nossa geração, oprimida, controlada no corpo e na mente já não é capaz de enviar desafio algum. Psicologicamente dominada, já não lhe resta ideal pelo qual lutar. O famoso “pão e circo” representados pelo futebol, carnaval e outras festas populares já saciam todas as personalidades do mundo hodierno. Os facebooks da vida passam a impressão de uma falsa inserção e organização sociais; nunca o homem esteve tão isolado, solitário e sem objetivo.
A vitória em Volta da Empresa renovou os ânimos e impulsionou Plácido de Castro para continuar na luta, o próximo alvo seria agora Puerto Acre cujo delegado boliviano, temeroso envia uma carta ao presidente de seu país para que reconheça o poder do exército brasileiro e se renda entregando o Acre ao Brasil antes que ocorra um massacre dos soldados bolivianos, sem contudo obter resposta positiva. A guerra continua.
Por esse meio tempo, Plácido ainda não totalmente curado da febre palustre que o acometera, piora, mas não desanima  e comanda suas tropas de uma maca. Corre um boato da sua morte, o que ele desconhecia é que esta notícia fora espalhada por um soldado seu, um traidor entre seus comandados, que fingindo ser seu amigo o apunhalava pelas costas. Por que razão existem pessoas cuja fraqueza de caráter e ética maculam os bons ideais e luta dos dignos? Assim Plácido de Castro tem que reforçar o seu comando na guarnição de Bom Destino e encorajar seu grupo para que continue a luta e num esforço sobre humano vence em Iquitos e inicia uma caminhada de 16 dias retornando a Volta da Empresa de onde iniciaria o ataque a Puerto Acre, seu próximo alvo.
O inimigo que havia desanimado com a vazante nos rios, fato que impossibilitava o transporte de ajuda do exército americano e boliviano, ganha agora fôlego novo com as chuvas que aumentaram o nível das águas, mesmo apesar do sofrimento  com a falta de alimento e provisões.
Quando uma pessoa tem a nobreza de caráter e ética acima de tudo procede como esse herói brasileiro que por milagre conseguia vitórias consecutivas: avisava o inimigo do dia em que atacaria e ainda oferecia seu hospital improvisado para os possíveis feridos, convite  não  aceito pelos bolivianos.
Nesta empreitada, na primeira investida perde 50 homens, e o comandante do exército antagonista é ferido. Plácido comanda o ataque do antigo Afuá (barco tomado dos bolivianos, agora denominado Independência pelos brasileiros). O inimigo temendo a proximidade do nosso exército havia estendido uma corrente dentro das águas do rio de forma que navio algum poderia rompê-lo para aproximar-se. Mas a tática do comandante brasileiro é impecável, pois conseguem após muito risco e coragem destruir os elos da tal corrente e atacam agora maciçamente o inimigo.
Numa atitude covarde, o exército boliviano simula a paz, empunhando uma bandeira branca apenas para localizar a posição de Plácido e atingi-lo, mas a perspicácia e experiência impressionantes deste gaúcho pré-determinado descobrem a manobra conseguindo livrar-se a tempo.
No meio político, esta luta começa a incomodar os ânimos, a notícia da bravura dos brasileiros, sua persistência e vontade chegam aos ouvidos do Barão de Rio Branco que se indispõe com o presidente da Bolívia pela falta de patriotismo querendo entregar o território aos americanos, coisa que o Brasil não iria permitir. Ante tal decisão o governo boliviano resolve reforçar seu exército firme no propósito de derrotar Plácido de Castro. Finalmente, em contrapartida, o governo brasileiro resolve finalmente entrar na luta concentrando tropas do exército no Amazonas e Mato Grosso.
Todos esses fatos não chegaram aos ouvidos de Plácido e seus soldados uma vez que embrenhados na mata não contavam com nenhum meio de comunicação que os informasse. Além do mais, o rádio ainda não havia sido inventado. Começa por esse período  a descoberta de que um soldado de nome Alexandrino em suas tropas estaria ameaçando e se indispondo com os demais companheiros. Tomando conhecimento, o comandante repreende severamente este comportamento desleal do seu soldado,ganhando com esse ato um inimigo vil que agiria às ocultas.
Plácido consegue vencer todas as batalhas, o inimigo se rende finalmente e a curiosidade é grande, todos querem conhecer esse herói, tão brilhante líder  cuja bravura fora responsável pela vitória de seu exército, porém ao conhecê-lo surpreendem-se com um jovem de 29 anos, simples  que não os humilha e sim explica amavelmente a razão de sua luta: amor às terras brasileiras ameaçadas de serem perdidas e caírem nas mãos de capitalistas americanos.
É lavrado um documento de posse do território ao Brasil, O Tratado de Petrópolis, em 17-11-1903.
Tratando com descaso toda a luta empreendida por Plácido de Castro o governo brasileiro nomeia José Olímpio da Silveira como governador do Acre pagando com indiferença toda a luta sofrida e sacrifício empenhado.
Como se isto não bastasse para punir esse herói, ele é morto em uma emboscada na floresta empreendida pelo soldado Alexandrino, que há muito vinha planejando sua morte.
Após mais de um século da morte de Plácido de Castro, a situação se reverte. Muitos não dão o mérito ao caudilho alegando que ele nada fez, que a sua luta nada significou como força para anexação deste território ao nosso país. Afirmam também que o maior herói seria o Barão do Rio Branco que através da sua diplomacia conseguiu ampliar nossas terras em 32%. Quanto aos Estados Unidos, o intromissor crônico nas questões de posse de terra, foi indenizado em 110.000 libras pela quebra de contrato e despesas de advogado, negociação tática do mesmo barão astucioso.
Entretanto, fica uma certeza no ar: Quem arregaçou as mangas para lutar diretamente, conjuntamente com os seringueiros desenvolvendo estratégias de guerra? Quem enfrentou situações perigosas, lutando a despeito da doença demonstrando um espírito de coragem e ética e patriotismo a toda prova?
Há uma tendência a desmerecer nossos antepassados, destruir nossa história, denegrir nossos nobres descendentes e bravos lutadores em favor do Brasil disseminando a dúvida de possível construção lendária e mística de herói.
Porém,  o bom-senso há de nos guiar sempre, reconhecendo a coragem e o amor que estes valorosos brasileiros dedicaram a sua nação.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

TERRITÓRIO DE BRAVOS – Parte III





imagem  de (www.portalentretextos.com.br)




Pouquíssimas pessoas têm a fibra de lutar dignamente por um ideal, seja ele qual for. São tipos de personalidades singulares que persistem em um objetivo e não descansam enquanto não o alcançarem. Plácido de Castro foi um homem assim, cuja meta foi defender e amar sua pátria acima de tudo e de todos e por ela realizar qualquer sacrifício mesmo que esse fosse a própria morte. Apaixonado pelo território do Acre e entendendo que esta terra por direito deveria pertencer aos brasileiros, decide se engajar na luta da posse contra os bolivianos.
O que aconteceu realmente é que por direito, o território acreano deveria pertencer ao Brasil pela própria localização. Tal fato é justificado pelo difícil acesso dos bolivianos àquele local cuja demarcação nem era reconhecida em mapas ou cartas cartográficas da época. Uma imensidão de terras desconhecidas até pela maioria dos brasileiros que habitavam a região norte. Para um grande número de pessoas dessa região as seringueiras do Acre eram fonte de sustento das famílias que ali haviam se estabelecido e se adaptado, convivendo em meio a animais selvagens, insetos e doenças graves.
Plácido de Castro, ainda na juventude revela-se um excelente aluno, embora os problemas econômicos frequentemente barrassem seus objetivos fazendo com que alternasse e por vezes abdicasse seus projetos de vida para cuidar da subsistência daqueles que amava. De espírito altivo, herdara do pai o gosto pela milícia, uma vez que este fora militar dedicado na Guerra do Paraguai. Desta forma, após muita luta, Plácido consegue finalmente se matricular na escola militar realizando seu maior sonho. 
Por volta de 1889, quando o movimento republicano agitava as massas, ávido por continuar seus estudos recusa-se a tomar partido a favor  dos federalistas ou dos florianistas-castilhistas. Como se recusa a assinar o manifesto é preso e transferido para Bagé recebendo um carimbo de suspeito em seus documentos militares.
A sua prisão traz-lhe revolta e decide-se finalmente a aderir o movimento federalista, revolucionário recebendo a graduação de major por destacar-se nos combates da revolução sulista. Dividido entre o ideal e a família, abandona novamente o exército e volta para São Gabriel para perto dos seus. Entretanto, o espírito incansável procura na cidade do Rio de Janeiro desempenhar uma função de guarda no Colégio Militar. Apaixonado pela leitura e pelo estudo resolve assistir aulas como ouvinte nesse colégio e tem um desentendimento com um professor de Geografia que o expulsa dali.
Recebendo uma oferta de emprego nas docas de Santos, habilita-se na função de agrimensor, conhecimento específico que futuramente o levará ao Acre para desempenhar a função de demarcação de terras naquele território. Nesse aspecto, naquela época, ambos os países Brasil e Bolívia desconheciam os limites de suas terras, muito embora este país solicitasse do governo brasileiro essa demarcação que fora dificultada pela guerra do Paraguai em 1867 desde o rio Abunã até o Javari. A única certeza que o governo brasileiro tinha é que a posse das terras do Acre era dos bolivianos, conforme estabelecera o Tratado de Ayacucho em 1899. Por esse tempo, já havia no território cerca de 60.000 brasileiros e eram desconhecidas pelos dois países as nascentes do rio Javary (hoje se sabe que esse faz divisa com Peru e Bolívia). Apesar de este estar dentro do território boliviano não havia chance de posse uma vez que por todos os lados, numa extensão de 153.000 Km² havia brasileiros ali morando e explorando a borracha. 
O nosso país estabelece o limite das terras acreanas na cidade de Caquetá. Denominou-se Cunha - Gomes a última demarcação que se baseou nas nascentes do rio Javary.

Uma foto do Acre: Praça da Revolução totalmente reestruturada 
Por esse período a Bolívia instigada por grupos americanos, começa a se revoltar e numa primeira tentativa de ocupação funda próximo a Caquetá a cidade de Puerto Alonso, e adquire oficialmente posse dessas terras e passa a cobrar altos impostos à borracha extraída por brasileiros que já exploravam os seringais daquela região. Tal fato gerou revolta daqueles trabalhadores que liderados pelo advogado e jornalista José Carvalho marcham até a sede do governo boliviano de Santivanez  em Puerto Alonso ameaçando-o e pressionando-o a abandonar a região, o que acontece prontamente e uma bandeira brasileira é hasteada ali, no lugar da boliviana.
Cresce a cada dia esse movimento de revolta e ocupação definitiva do território pelos seringueiros brasileiros que convidam um espanhol amante e residente do Acre de nome Dom Galvez para que traduza um documento em espanhol que chegara para o governo brasileiro. Tratava-se de uma intromissão política do país mais notável pelo seu imperialismo cujo objetivo é claramente o domínio do mundo: os Estados Unidos, fazendo uma série de exigências ao governo brasileiro. O documento, na verdade uma verdadeira procuração boliviana aos americanos, dava a eles amplos poderes de administração das terras, cobranças de impostos e ameaças ao nosso país de perda de terras para os Estados Unidos. O tal documento trazia como remetente o nome Bolivian Syndicate of New York City of The United States, liderado nada mais nada menos pelo filho do presidente americano Theodore Roosevelt. Ante tal situação, Dom Galvez apoiado pelo movimento dos seringueiros elege-se presidente do Acre, mas logo é preso, deportado para Pernambuco. Este acontecimento por demais revoltante instigou ainda mais o espírito de luta dos seringueiros pela posse da terra, faltava apenas um líder que fosse experiente em combates, perspicaz e persistente, um perfil de Plácido de Castro que recebe o convite de dois amigos que estavam nessa região para dirigir o movimento revolucionário contra a Bolívia. Para Plácido tal convite era tentador, porém não se achava em condições de assumir o posto uma vez que fora acometido por forte febre palustre e beribéri. Pensando aos 27 anos estar à beira da morte procura tratamento no estado do Ceará e consegue melhoras consideráveis aceitando sob suas condições liderar o movimento revoltoso de posse do território.
Antes da resolução de Plácido em assumir a liderança, os amigos que o convidaram, Rodrigo e Orlando iniciam um movimento onde estabelecem como primeira parte do plano tomar um pequeno barco boliviano carregado de munições. Esse acontecimento foi crucial uma vez que os privava de instrumentos de defesa, além disso, os piores inimigos dos bolivianos eram o desconhecimento das terras e a terrível possibilidade de enfrentamento de feras e tribos indígenas selvagens, além do perigo das febres.
Em meio a isso tudo, o Bolivian Syndicate adquire com concordância da Bolívia o poder de arrendamento das terras acreanas, adquirindo direitos fiscais, administrativos além de policiamento, organização de um exército e uma armada também com a finalidade de explorar os vegetais da região.
Uma pausa aqui para um comentário e elucidação: É de longa data esta verdadeira espionagem ilegal desse país chamado Estados Unidos no nosso Brasil, remonta há séculos essa biopirataria que resultou na nossa perda de autonomia das riquezas vegetais da Amazônia. Ninguém acordou para o fato, inclusive o governo brasileiro quando procurado pelos brasileiros para que os ajudasse na luta da posse pelo território do Acre ouviu a resposta de que estava muito ocupado com difíceis questões, embora não permitisse um massacre contra os brasileiros.
Que belo exemplo de falta de interesse em manter propriedade e direitos ao povo brasileiro! Visão de um país que tem um histórico de inércia administrativa crônica e incurável que abriu ao longo dos anos perigosas brechas para o domínio dos imperialistas americanos! Felizmente, o governador do Amazonas ofereceu ajuda aos revoltosos brasileiros.
A atuação de Plácido de Castro é brilhante no sentido de organização tática e militar, recruta e prepara militarmente voluntários, corre risco de vida quando disfarçado de agrimensor pede permissão ao delegado da Bolívia para “avaliar” terrenos do alto Acre quando na verdade infiltrava-se taticamente nas terras vigiadas por bolivianos para treinar e organizar um movimento revolucionário, arrebanhando voluntários por toda a parte. Com seu magnífico trabalho no comando da revolução toma a cidade acreana de Xapuri, proclama a independência do Acre e elabora uma ata a ser entregue a D. Lino Romero, delegado nacional da Bolívia.
Infelizmente, para os nobres de espírito que têm uma meta a alcançar não há como selecionar todas as pessoas que recruta e no meio dos revoltosos um espírito traidor e sem ética começa a agir por suas costas, Alexandrino José da Silva, que à semelhança de Joaquim Silvério dos Reis, prepara-lhe toda a sorte de traição.
Pressionados, os bolivianos sentem-se acuados e declaram estado de sítio (cerco inimigo). Com a liderança de Plácido de Castro, que estrategicamente mantinha “escutas” entre os inimigos fica sabendo que haverá um reforço de soldados bolivianos em Puerto Acre comandados por Rosendo Rojas, um militar da Bolívia. Como contava com apenas 60 soldados brasileiros, age rapidamente, ocupa a cidade de Volta da Empresa onde os bolivianos passariam e os ataca de surpresa. Nessa ação estratégica descobre que alguém que ele não sabia quem era o traíra revelando a sua manobra e é obrigado a recuar, o inimigo chegara antes.Sofrera uma perda importante nos poucos homens que conseguira reunir.
A persistência, a vontade de lutar e a obstinação são as molas que impulsionam os grandes e para eles as derrotas não são valorizadas, assim, com muito trabalho, Plácido consegue recrutar mais 300 voluntários, muda a cor dos uniformes que antes brancos tornavam–nos muito visíveis julgando ter sido essa a causa do fracasso anterior. Agora sabia que um grande exército estava sendo preparado contra os brasileiros e teria que agir rápido. Assim, usa como tática ocupar um local próximo ao rio deduzindo inteligentemente que com essa medida privaria o inimigo do precioso líquido tão essencial a todos acertando mais um alvo poderoso. Nessa etapa, consegue tomar o Afuá, um barco boliviano encalhado na areia carregado de armamentos. Renderam também os poucos tripulantes que lá estavam. Sentindo-se praticamente perdidos, os bolivianos empunham uma bandeira branca rendendo-se aos brasileiros. O cel. Rojas, líder daquele grupo boliviano, entrega sua espada à Plácido como símbolo de sua fraqueza e derrota, mas a nobreza de caráter do líder brasileiro não a aceita e parabeniza o inimigo pela sua bravura.Mais uma vitória era conseguida ali.




sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013


Parte II



Retomando o comentário a respeito do livro de Francisco Marins, Território de Bravos, algumas considerações são necessárias a respeito dessa sofrida profissão de seringueiro, na verdade, um quase subemprego para os nordestinos, que em massa, partiram para as terras inóspitas do Acre para extração do látex e a sua comercialização tirando dali o sustento de sua família, sendo, por muitas vezes roubados pelas balanças dos “aviadores” e deles dependendo para sua sobrevivência. À mercê dos perigos da floresta revelados em febres palustres, ataque de insetos, cobras e animais selvagens, sem o conhecimento necessário para aplicar uma tecnologia que facilitasse e garantisse seu trabalho ao longo do tempo, esse trabalhador viveu na lida de extração rudimentar, sem exercer a devida preservação da natureza,  numa busca insana pelas árvores que a mata fornecia, aprofundando-se cada vez mais na floresta, dando fim a própria vida em inúmeros casos.
Num país como o Brasil onde nunca houve por parte de administradores e homens públicos interesse em constituir um povo estudioso, bem formado e capaz em suas profissões, milhares de trabalhadores, perdem-se num trabalho repetitivo, sem objetivos, ou sequer perspectivas de crescer intelectualmente ou profissionalmente. É nesse instante que surgem povos estrangeiros que levam nossos produtos, formam pesquisadores, cientistas biólogos e tantos outros profissionais enriquecendo e levando divisas que poderiam ser nossas, infelizmente, esse descaso é uma constante dessa nação chamada Brasil.





Seringueiro extrai o látex da seringueira (bemvindocicloturista.com.br)



A vida do seringueiro não é nada fácil: as árvores são esparsas, a floresta é difícil e perigosa e os instrumentos de trabalho necessários para a extração do látex são: espingarda (para proteção), machadinha ou facão, terçado, tigelinhas e baldes de folha para armazenamento, além de outros.
  


Ferramentas do seringueiro - espingarda, facão ou machadinha, terçado, tigelinha, balde e outros utensílios.


Após a extração do látex, o seringueiro passava num processo rude e artesanal à sua defumação, fazendo com que coagulasse enrolando-o num pedaço de pau, produzindo grandes bolas de borracha que iam entre 5 e 10 kg. Muitos desses trabalhadores acabavam contraindo a tuberculose, fatal em vários casos.



Guia de turismo demonstra processo de defumação do látex, onde muitos morriam de tuberculose  (Foto: Tiago Melo/G1 AM)
A coagulação do látex (http://g1.globo.com)



Após esse processo encaminhava-se aos barracões para vendê-lo. Como era autônomo, dependia desses “aviadores” (proprietários dos barracões) e ficava à sua mercê para sobreviver.
 Façamos uma pausa aqui para comentário e dedução: por que o povo brasileiro é sempre tão mal formado, não tem interesse em pesquisa e estudo? Verifique que séculos se passaram nessa exploração predatória, sem observação ou sequer preservação da mata.Se os governantes não têm essa competência ou não a desejam desenvolver, por que razão o germe da investigação nunca está presente na alma dos brasileiros? Será uma questão de cultura do nosso povo?
Deixando de lado a pena que nos causa essa humildade e inércia imprestável ao progresso,  por vezes, há um ímpeto de aprovação na atitude estrangeira em levar nossa matéria-prima, uma vez que nesses países há um espírito de trabalho e investigação que resultam em invenções em benefício de toda a humanidade. Tivesse a borracha ficado apenas no Brasil, tenham a certeza de que ela estaria extinta e nem pneus fabricados teríamos, tanto é que o mal  das folhas, uma doença que acometeu os seringais posteriormente  nunca foi pesquisada, a não ser por um botânico de nome Jacques Huber, diretor do museu Emílio Goeldi, entretanto, após sua morte, nada mais se fez. A preguiça mental e a falta de interesse no estudo é uma constante aqui no Brasil, um gigante sem força, dado a costumeira inércia de sua população. Na história do ciclo da borracha no mundo, em 1820, ela passou a ser usada na fabricação de capas impermeáveis e pouco mais tarde, o americano Charles Goodyear descobriu através seus incansáveis estudos a vulcanização que nada mais é do que a mistura do produto com enxofre e alvaiade, tornando-a elástica e resistente, servindo na época para a utilização em vestimentas, ou para envolver rodas de carruagens (meio de transporte) e carros na Europa. Mais tarde, em 1888, o também americano Dunlop inventou o pneumático.
 Quem já viajou, ou habita a região norte e seus estados e territórios têm conhecimento das terríveis febres palustres que podem levar à morte.
 O personagem principal do livro, cujo autor deseja exaltar, é José Plácido de Castro, um gaúcho de origem humilde da cidade de São Gabriel. Para tanto, utiliza a narrativa retrospectiva para a descrição dos capítulos, numa técnica que mescla passado e presente prendendo a atenção do leitor.
No início, introduz o personagem já adulto e na região acreana, acometido por perigosa febre palustre em estágio bastante avançado. Praticamente em meio à morte, ele vai relembrando toda a trajetória de sua vida em um delírio ocasionado pela doença.
O interesse de Plácido pelo território do Acre inicia-se na escola primária quando a professora começa mostrar à classe a imensa riqueza das florestas e seus perigos. Nesse período, perde o pai, fato comunicado por um vizinho, quase um estranho, que vem buscá-lo na escola. Desta forma, torna-se órfão e tendo que enfrentar a miséria econômica da família, fato que o obrigou como filho mais velho a abandonar os estudos na escola matutina para trabalhar como balconista-vendedor em uma loja de tecidos, passando a frequentar uma escola noturna, e fazendo as lições e estudos suplementares nas horas de folga. Passado algum tempo, o mesmo estranho que o buscara na escola por ocasião da morte do pai lhe oferece ajuda, prometendo custear seus estudos secundários em uma escola melhor, ao que aceitou prontamente.
Infelizmente não pôde continuar os estudos na nova escola, pois a mãe e os irmãos passavam por necessidades financeiras, vivendo na miséria, assim se emprega como aprendiz de ourives para poder sustentá-los.
E a partir deste momento, Plácido revela-se um homem impetuoso e destemido cujo maior sonho persiste em se tornar um militar.


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