segunda-feira, 25 de abril de 2016







HOMENAGEM PÓSTUMA








                                Richardson


Deve existir um Deus, não é possível, deve existir um. Que olhe por aqueles que não têm quem os ampare emocionalmente.
Para aqueles  abandonados pelos próprios filhos e companheira, (coisa cruel) mas que acontece com frequência. Os pobres coitados não sabem o mal que estão fazendo, não à pessoa relegada à própria sorte, mas a si mesmos, pois perdem sua referência, a origem da sua vida, do seu próprio nome...
"Deus, Deus, mas onde é que estás que não respondes, onde será que tu te escondes, ó Deus" que não toma uma providência com toda essa judiação?
Acredito que exista, algum Deus compadecido de um irmão abandonado pela  irmã... Embora esta marque presença todos os dias na Igreja fazendo milhares de orações e bajulações a estranhos, por pura hipocrisia, preparando um lugar no céu... Mas tu, Deus que tudo vê e assiste quieto e mudo no seu canto sabe, que preparam o céu, mas encontrarão o inferno. Criam um mundo fictício onde todos são seus irmãos, mas se esquecem de olhar, de ter compaixão dos próprios irmãos com quem um dia dividiram um teto, uma vida...
Deus, fique junto daqueles que em clínicas solitárias convivem todos os dias com a morte até chegarem a seu final... Final escuro, triste, sem a presença de um ombro amigo que aplaque a solidão...
O ser dito humano é a tal ponto desumano que não mais reconhece a força e o valor de um falecido pai ou mãe... Estes, só serão benvindos na hora da partilha de bens e na utilidade de um atestado de óbito para garantir uma semana de férias.
Deus, por que não te indignas, com tanta coisa errada? Parece até que não existes...
Hoje, o dia não está azul, um céu cinzento, nevoento, parece chorar também... 
Morreste hoje para uma vida miserável, meu querido primo. Hoje, felizmente,  pões uma pedra sobre uma existência sofrida, uma trajetória de vida que só trouxe dor e ingratidão. Sei que sua melhor companheira, a tão criticada e ébria companhia, foi quem sempre te amparou. Mas ainda assim, tenha a certeza: renasces para a vida eterna! Em um remanso verde, tranquilo, onde se espera, só haja felicidade e conforto. Será que espíritos realmente existem em uma outra dimensão? Será que eles te receberão pela mão? Se existem, verdadeiramente, como será a emoção do reencontro? Haverá lágrimas? Como será a sua expressão?
Perco-me nestas divagações enquanto relembro nosso tempo de infância e adolescência brincando e correndo felizes pelas nossas casas...
Mas, tudo tem seu tempo e com ele, a separação. Cada qual seguiu seu rumo e , agora, com que pesar recebo esta triste notícia da sua partida...
Não haveria problema, morreste ainda jovem na casa dos 60 e poucos anos, isso acontece com muitas pessoas, afinal, infelizmente,  somos mortais. O que me causa estranheza são as circunstâncias em que decorreram sua vida e sua morte: anônimo, sem contato algum com seus parentes, isolado (segundo informações  desencontradas) em uma clínica desconhecida... 
Mas por que o nome desse lugar não podia ser revelado, meu Deus? Me responda. Até prevejo, que por boa coisa não terá sido todo esse segredo, assim só vós, ó Deus pode saber tudo o que se passou.
A indignação tomou conta do meu espírito por não ter podido sequer te fazer uma visita, mas fica aqui um recado: tu serás recompensado, todo este sofrimento não será em vão, tenha plena certeza.
Ontem, hoje te fiz diversas orações, toquei ao piano, entre lágrimas, a linda Ave Maria de Gounoud que lembra sua pobre mãe que enquanto pôde te ofereceu a mão, mas com que desespero deixou esse mundo sabendo que  triste seria teu destino a partir de sua ida para o infinito.
E como é sublime o amor de mãe!... Somente os que perdem, sabem reconhecer o seu devido valor. Morre-se para um filho nascer e para que ele não morra! Para que não se perca por tristes e tortuosos desvios da estrada principal. Enquanto se tem a mãe, se tem vida plena. Depois disso, a vida é apenas um percurso sem graça que temos a obrigação de cumprir.
O que fica é a maravilhosa lembrança, porque a mente, enquanto sadia, é mágica e recompensante! Guardarei na memória toda a nossa linda e feliz estória encadernada a ouro e ilustrada com as mais belas imagens que dela fizeram parte. Descanse em paz na eternidade!


quarta-feira, 30 de março de 2016

Boa-noite, leitor. Volto aqui ao antigo debate sobre um setor importantíssimo da sociedade, mas que está jogado às traças, infelizmente. Falemos enquanto ainda se pode falar...





Educação: solução ou destruição do ser humano?


Às vezes me pergunto como e onde tudo isso começou. Obviamente este tipo de comportamento indesejável deve ter tido início desde longa data, foi se manifestando aos poucos, apoiado por uma legislação fraca e permissiva que trouxe paulatinamente a destruição e levou ao caos insuportável.
Refiro-me à Educação Brasileira que foi se revelando ao longo do tempo um antônimo do que se era esperado em relação ao caráter e a formação do ser humano moderno.
Se houvermos vista, talvez há muito, legislações como a 5692, foram moldando o sistema vigente, que preza pela impunidade e pela falta de caráter que se esboça hoje no indivíduo da mais tenra idade.Lembro-me nitidamente do seu surgimento, elevando o aluno ao centro da Educação, como se antes dessa malfadada lei ele não o fosse. Porém, a intenção implícita nos dizeres legais significava que a todo custo o aluno deveria ser destacado, até mesmo quando sua manifestação fosse nociva e contrária ao bem comum, fato que exigiria do professor entender as causas desse comportamento irregular e justificá-lo através de problemas pessoais que esse educando teria em seu background. Mas, jamais os preceitos legais anteriores menosprezaram o ser humano; não admitiam sim, o desrespeito, a indisciplina, a desordem justificada por problemas psicológicos: canso de perguntar a mim mesma: onde estes infinitos problemas se escondiam antes de tamanha abertura ao descaso e indiferença pelo estudo...Hoje, o que menos importa é aprender algo. O professor, antes de mais nada, é uma grande babá, palhaço, psicólogo, assistente social, além de inúmeras outras funções que tem que desempenhar para ganhar uma miséria a despeito de tanto trabalho. O aluno é respaldado e desculpado por todas as suas faltas e os legisladores se esquecem da grande lição de impunidade que passam indiretamente através de seus preceitos, criando futuros transgressores, desrespeitadores, irresponsáveis, que a despeito de tudo são coroados no final do ano com uma promoção... Em que outro setor da sociedade essas “qualidades” levam a uma promoção? Desconheço e, se você, leitor, porventura conhecer, me esclareça, por favor.
São crianças pérfidas, maldosas que não sabem se portar em situação alguma, não sabem ouvir, apenas falar a todo o momento, jogando no lixo todo o capital investido pelos pais e pelo estado na sua educação. Desta forma, constatamos alunos já adolescentes que não estão alfabetizados, pobres coitados que mal sabem ler e escrever as palavras mais simples do vernáculo ou efetuar um simples cálculo; sem cultura alguma, sem conhecimento básico, expressando-se com vocabulário chulo e de mau gosto. A despeito de tanto sacrifício, perdido em inumeráveis projetos desenvolvidos pelas escolas e aliados de outras instituições parceiras, o problema nunca é solucionado e, por toda a parte encontramos pais desesperados, professores doentes e cansados da profissão, a sociedade apodrecida pela proliferação do mau-caratismo, desvios de comportamento, falta de cidadania, violência e desrespeito ao meio ambiente. Os poucos que conseguem sucesso obtêm uma fraca formação, prejudicados pelas classes heterogêneas em que se subeducam, onde se perde a maior parte do tempo em tentar recuperar o irrecuperável, o irremediável, aqueles que apesar da mediocridade e displicência são realmente os “reis do pedaço” desperdiçando o material humano de melhor qualidade e que, atualmente, apresenta um fraco desenvolvimento, pois se vê obrigado a frequentar um curso superior de baixa qualidade, uma vez que não recebeu a bagagem necessária do ensino básico que apenas cuidou e não resolveu os problemas insolúveis dos problemáticos e desinteressados. Falo com propriedade, afinal são quase trinta anos de cátedra na Educação e a triste constatação da decadência e naufrágio desse setor tão importante da nossa sociedade. Os professores, hoje, desprestigiados e desrespeitados não recebem boa formação, uma boa desculpa para que não sejam remunerados dignamente, apesar de várias promessas abstratas, não são capazes sequer de bancar o aluguel e as despesas de sua casa adequadamente, perdendo-se em consignados e empréstimos pessoais.
Quando vemos as estatísticas de crimes, violência e drogas o ideal não seria analisá-las, e sim o sistema educacional dos países, uma vez que a criança e o adolescente passam grande parte de sua vida nessas instituições sem estrutura onde, em muitas delas, proliferam tráfico de drogas, pedofilia e prostituição.

Muitos hipócritas poderão achar exagero, entretanto é a mais pura realidade que se não for cuidada com urgência levará o homem ao retorno do período paleolítico, o mais animal possível, acéfalo  e irracional.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016


Boa-noite. Retorno a este espaço depois de  um período de férias e merecido descanso. Para a volta, nada melhor e relevante do que uma crônica sobre o amor filial que acompanhará toda a jornada de pais e filhos...








Amor sem fim


Hoje recebi sua agradável e tão esperada visita. 
Filha, tenho que dizer que já não és mais aquela criança quieta, linda e tão meiga de outrora. O que vejo agora em nossos encontros é a presença de uma mulher já feita, que ainda não perdeu a beleza e a meiguice da infância. Me esforço para que as lágrimas não rolem pelo meu rosto, lembrando do dia em que deixaste nossa casa para construir o seu próprio lar junto daquele que ama. Como sentimos nesse instante o vazio que toma conta de toda casa, onde a presença daqueles que nos são caros por muitos anos ali esteve, trazendo apenas alegrias e contentamento; a juventude que anima, preenche e satisfaz a vida dos pais.
Porém, depois que deixam a casa paterna, algo muda profundamente: já não há o tempo disponível para conversas perdidas através das horas, momentos intermináveis de convivência diária e compartilhamentos, a atenção mútua, a preocupação e a vontade de participar, ajudar, desejar o melhor do mundo em busca da felicidade!
Agora, a luta pela sobrevivência e realizações pessoais é uma busca individual, sem a ajuda e acompanhamento constante de dantes, sem asas protetoras a evitar as dores e sofrimentos...
Por estas e outras razões é que, de longa data,  se ouve o jargão " filhos são para o mundo e não para os pais", mas como aceitá-lo e fazer a doação tão difícil que tanto machuca e magoa?
As preocupações continuam à distância, não menos sofridas em indagações solitárias sobre como estarão vivendo, estarão se alimentando bem? Trilhando bons caminhos? Estarão sendo bem amados como o eram em casa?
Muitos pais se adaptam e conseguem continuar seu caminho, agora mais solitário, preenchendo o tempo com outras atividades enquanto que, para alguns, o sofrimento é eterno, perdido em lamentações compartilhadas com amigos e parentes, e, uma minoria, possessiva, egoísta, faz de tudo para segurar os filhos perto de si, usando artimanhas mil...
Não cheguei a extremos, a egoísmos ou lamúrias, conheço bem a vida, sei que ela não é fácil, é preciso deixar viver, afinal todos tiveram a oportunidade de construir a sua própria, por essa razão, deve-se dar a liberdade para todos possam ter a mesma oportunidade.
Filha, confesso que admiro sua independência, capacidade de luta e talento para desenvolver sua profissão com uma boa dose de arte e beleza como só você pode fazer, saiba que está desempenhando seu papel com amor, talento, responsabilidade e o que é melhor, com competência. Se enfrentas injustiças, tristezas e dificuldades na sua vida diária, estás conduzindo estes obstáculos com maestria e paciência, por isso manténs o brilho de sua estrela  a iluminar os caminhos...
Que mantenhamos por muitos e muitos anos de nossa existência essa cumplicidade, essa união de almas que a despeito da ausência inevitável do momento, sobrevive e sobreviverá através do tempo...


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Ironia do Natal

Já escrevi várias vezes sobre a consciência abrupta que tomo do Natal...É incrível como todos os anos os afazeres profissionais, intelectuais e domésticos me absorvem totalmente e quando menos espero, dou de cara com uma grande árvore natalina na porta de um shopping, um imenso Papai-Noel em portas de supermercado ou até mesmo figuras significativas de um presépio espalhadas pelos lugares onde passo.
Também é impressionante o sentimento de perda que esse evento me transmite, o qual   consigo traduzir como um avanço da água do mar, levando, impulsivamente, muitas aquisições construídas durante todo o ano, como se estas fossem um castelo de areia, formado passo a passo e que, subitamente, se desmoronasse pela violência das águas...
Outra detalhe que sempre me deslumbrou nessa época do ano é a magia das belas imagens contidas em cartões natalinos, tão mimosamente elaborados, com suas cores chamativas e características, falando direto aos corações, ressuscitando almas até nos mais endurecidos indivíduos da espécie humana. Porém, esses cartões, hoje, já não são tão físicos, presenciais como dantes, diluíram-se no tempo e espaço, virtualizando-se, banalizando-se e, multiplicando-se exponencialmente a um leve clique de mouse...
Revendo alguns sites, muitas dessas ilustrações, me remetem a antigos natais, representados em muitos cartões que recebi desde a infância e que por gostar muito deles, nunca os joguei e tive o capricho de fazer um lindo álbum, que exibe sortidamente por ordem de data, as pessoas que os remeteram e as mensagens que ali deixaram gravadas. Afinal, não me arrependo de tê-los guardado e armazenado como recordações de belas passagens da minha vida.
Quantas daqueles seres ali, presentes, hoje já não existem mais a meus olhos e apenas são lembrados por seus comoventes dizeres que ainda ecoam em minha mente: uma tia querida, uma avó, um primo quase irmão, um pai Natal que jamais voltará...
As festas natalinas e tudo o que as acompanha têm esse poder de calar fundo, trazer, por momentos, o tempo passado que retorna repleto de aromas e sentimentos por segundos que se tornam anos e,  instantaneamente, se esvaem num meneio de cabeça como fumaça.
Na infância, felizmente, a ausência do senso crítico, torna tudo lindo e maravilhoso, sem um julgamento ou a consciência social que marca presença na idade adulta, responsável por mudanças em nossa maneira de sentir e pensar. Como título de exemplificação, essa imagem que exibo acima, que despertaria no infante, uma beleza pura e verdadeira, não me seduz da mesma forma na faixa etária em que me encontro, pois não é representativo de um Natal brasileiro, assim como aqueles cartões que exibem a branca neve a cair do céu  não têm relação alguma com nossa realidade.
Lareiras, enormes e luxuosas salas, repletas de presentes são uma ironia, transmitem falsidade, imagens inverossímeis, são até um paradoxo com a veracidade que vemos nas ruas, nos locais onde convivemos diariamente, onde a miséria, a privação, a injustiça social e econômica exibem seus quadros de cores feias e deprimentes.
Tenho plena consciência de que poucas e selecionadas pessoas realizam um Natal luxuoso, desses representados nos belos cartões natalinos. Que aproveitem e serão muito felizes se não abrirem suas janelas para observar a fria imagem a sua frente; se não abrirem seus olhos para focalizar o outro  lado da moeda, presente além de seus muros e grades.
Não, infelizmente, não dá mais para ser feliz, se a alma não é pequena, como já afirmava nosso querido Fernando Pessoa, e para grandes almas, conscientes do grande problema que nos rodeia, é impossível fazer ecoar um "Gingle Bells" quando muitos não têm sequer um pedaço de pão para colocar na boca.


sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Boa-noite, senhores leitores. Depois de toda a polêmica envolvendo a reflexão da filósofa Simone de Beauvoir em seu desabafo sobre a boçalidade que invade a população e que foi trazida à tona em uma questão do ENEM, venho registrar nestas páginas uma crônica até comovente envolvendo a questão do raciocinar, do pensar, do sair do mesmismo. Espero que gostem.








Quem planta, colhe

Sentada em um  banco do vagão do metrô da linha azul, magrinha, cabeça encurvada, óculos na ponta do nariz e um coque desarranjado na cabeça, mais parecia uma velhinha vista assim de perfil. Interessei-me em observar aquela mocinha de atitude senil que, atenciosamente, com uma caneta na mão, escrevia alguma coisa, o tempo todo em que o trem se movimentava por sobre os trilhos. Pela distância em que me encontrava, precisei forçar a vista já cansada pela idade para poder vislumbrar depois de algum tempo o que ela fazia: lições de inglês em um tipo de apostila colorida. Verifiquei também, que pelos olhos oblíquos e formato do rosto tratava-se de uma oriental. Vestida de maneira simples; uma blusa um tanto grande cobria o corpinho magro enquanto os ombros caídos deixavam perceber que o tamanho da peça era maior do que o corpo que a usava. Só posso dizer, que aproveitava cada minuto, sem interrupção, para dedicação total à leitura e a realização de seus exercícios. Olhando ao redor, reparando nos jovens da sua idade e até mesmo nos adultos ocidentais, constatei que, com raríssimas exceções, a maioria deles se ocupava com celulares, perdidos nos Whatsapps e Facebooks da vida, jogos eletrônicos, quando não traziam os ouvidos tapados por fones a escutarem a cansativa música atual, alguns, em um volume exageradamente alto que deixava passar um zunzunzum irritante.
Mas, você, menina de ouro, que nem me conhece e nem percebeu que havia uma observadora a te contemplar, se preparava para a luta da vida, gastando seu precioso tempo e desperdiçando horas de lazer para sua formação futura. Você sabia que tempo é ouro e ouro não se joga à toa. Enquanto os adolescentes ao seu redor entediavam-se com tanta diversão, adquiria cultura e saber.
Tenho que te dizer algo, sei que talvez nunca entre neste blog e leia estas páginas que aqui escrevo até comovida. Saiba que me emocionei com sua figura compenetrada e séria. Saiba que do fundo do meu coração, te desejo a maior sorte deste mundo e, certamente, ela virá, pois a ventura é amiga do trabalho e a quem a ele se dedica. Enquanto muitos se lamentam no porvir a queixarem-se da pouca sorte, em breve,  você estará encaminhada, certamente com um curso superior bem feito, que lhe garantirá a certeza da formação de um profissional competente e dedicado a seu trabalho. Para você e para poucos a sua semelhança, que vencem pelo esforço, não haverá a rotulação de carente, de sem chance, de sem isso, de sem aquilo, como muitos que sem a sua força de vontade, assim são chamados e precisam ser amparados pelos órgãos públicos.
Tenho absoluta certeza de que você, dedicada menina, também não escolherá veredas obscuras da vida e nem se perderá em uma delas, pois seu vício maior é o trabalho, que cedo se inicia em forma de estudo e alimento da alma.
Que não te invejem no futuro, que não sejas agredida ou roubada, pois fizestes por merecer um lugar ao sol, enquanto aqueles que te invejarão amanhã, mal sabem o quanto fizeste para chegar onde chegou. Que Deus te proteja e boa-sorte!

sábado, 31 de outubro de 2015


Os dias passam rápido, as noites os acompanham e eis que temos mais um ano que finda...
Mais um finados se aproxima, trazendo-nos muitas lembranças daqueles que já se foram e, que um dia, já fizeram parte da nossa vida. Façamos a eles a devida homenagem.


Por quem as velas se acendem...











Posso dizer agora que me acostumei com a tua ausência nestes longos dezesseis anos que voaram céleres e contribuíram para que deixasse de sofrer pela sua perda.
Hoje, a consciência da falta que fazes, só não admite que haja um substituto para tudo aquilo que foste e representaste em minha vida... As reminiscências povoam minha mente e, por alguns segundos, aproximam-se tão firmemente da realidade como se viajasse numa máquina, quebrando a barreira do tempo e do espaço físico.
Nessa imersão forte no passado, revivo aquele dia de finados no calor insuportável de nossa cidade natal e os preparativos para a ida ao campo santo. Nunca deixaste que faltássemos a esse compromisso de louvar aqueles que nos foram caros.
Todo um preparativo antecedia essa data, vestíamos nossa melhor roupa, nos arrumávamos caprichosamente, não antes, de ouvir durante toda a manhã, a programação de músicas eruditas lentas e tristes que nos enchiam de melancolia e que  preparava nosso espírito, toldando-o de respeito e sobriedade. Enquanto caminhávamos sob o sol escaldante, passava-nos grandes lições de solidariedade e vida dizendo o quanto os mortos deveriam ser venerados e lembrados, por tudo que significaram em nossa existência, por tudo que construíram, ressaltando a necessidade de oração e da tradicional queima de velas que mereciam.
Não, não deixaste que a euforia infantil esquecesse e menosprezasse os que se foram, houve o despertar de toda uma consciência nesse sentido.
Na entrada do cemitério, me lembro como se fosse hoje, fazia questão de primeiramente fazer uma oração ao Doutor Jaime de Oliveira que era o seu guia espiritual. A compenetração e seriedade com que fazias isso, nos deixava comovidos e quietos acompanhando todo aquele ritual.
Muitas vezes, ao nos dispersarmos com outras crianças entre primos e amigos, por um instante, voltávamos ao nosso comportamento infantil, correndo até o cruzeiro e a capelinha dos ossos, de onde sempre alguém ouvia um barulho ou sussurro vindo do além, o que causava debandada geral em gritos e fuga como passarinhos em revoada...
Quantas saudades, dessa época. Já naqueles dias longínquos da infância que agora ecoam em minha mente, o comércio em frente à necrópole municipal era grande e até hoje, ao lembrar, causam-me repulsa e um fundo de nojo: melancias aos borbotões, abertas, exibiam seu escarlate sobre as bancas, convidando à degustação, flores numa festa de cor esbanjavam beleza e viço como forma de compensar todo aquele luto e tristeza. Não tínhamos muitos mortos naquela época: um ou outro primo distante e amigos pouco conhecidos da nossa pequena família. Mas não importava, todos mereciam uma reflexão, e ela vinha em forma de oração...
Hoje, tudo mudou. Crianças muito pouco acompanham seus pais nesse dia de finados. Cemitérios são desrespeitados, violados e roubados em uma amostra da degradação humana que atinge o seu ponto mais vil e rebaixante. Muitas pessoas visitam os túmulos, impacientes e apressadas numa obrigação pouco prazerosa e muito forçada. Não ouvimos mais nos rádios e meios de comunicação de massa uma programação como a daqueles tempos, dedicada exclusivamente aos mortos.
Querido pai, de onde quer que estiveres, creio que devas estar decepcionado com o rumo que as coisas tomaram ultimamente. Entretanto, creia: a semente que lançaste, germinou. Saibas que o respeito e a consideração por todos aqueles que se foram e que tão bem me ensinastes a cultivar, vingou.
E hoje, estranhamente, venho aos pés de sua lápide, humilde e sóbria depositar o meu amor em forma de flores singelas. Nesse momento, sinto que as grandes árvores que  balançam suas ramagens com a brisa parecem sentir o meu pesar. A melodia grave que mentalizo é a mais completa prece que precede minhas palavras. As velas que acendo e que teimam em se apagar com o vento que varre os espaços entre as tumbas, acabam por vencer e permanecem em lume, unidas e fortes no propósito de homenagear aquele, que no meu coração é o mais ilustre faltante, cujo corpo descansa em paz na quieta e pequena necrópole.


sexta-feira, 30 de outubro de 2015


Boa-noite a todos os leitores. A prova do ENEM 2015 foi uma surpresa para muitos professores e falo aqui, daqueles mestres que têm consciência da verdadeira condição em que se encontram os alunos das escolas públicas do nosso país e não daqueles que vivem num mundo de utopia. Afinal quem precisa de ajuda para ingressar no ensino superior são esses discípulos, ou não?



A surpresa do ENEM


Ninguém poderia supor que o Exame Nacional do Ensino Médio, neste ano de 2015, seria tão surpreendente.
Pouco condizente com o tema eixo dos cadernos de aluno da Secretaria da Educação e dos livros didáticos adotados nas escolas, antes de tudo, torna-se visível na elaboração das provas, a construção de enunciados complexos, de significados ambíguos para aquela clientela,  cujas alternativas os confundem na sua escolha. Percebe-se, obviamente, uma intenção de caráter eliminatório nestas Avaliações e a oportunidade ínfima de sucesso que elas proporcionam perante o quadro que se apresenta no ambiente escolar, heterogêneo, provindo de constantes promoções continuadas, recuperações e alinhamentos, fatos que não permitem uma extrapolação de conteúdos a tão alto nível.
A grande quantidade de conteúdos da área, sobretudo de informação sobre literatura, estéticas literárias e detalhamento das características de cada escola literária e a pouca disposição do aluno à leitura de textos formais no Ensino Médio e Fundamental, são fatores que o predispõe ao não entendimento de textos e sua respectiva compreensão da prova do ENEM, dado ao excesso deste tipo de atividade naquela avaliação, que leva o aluno à exaustão e a desmotivação.  
Muitos mestres consideraram a prova de caráter mediano e até mesmo fácil, entretanto, tal parecer não condiz com os resultados obtidos pelos discentes; ao que parece, em algumas escolas, excelentes alunos não conseguiram acertar nem a metade das questões oferecidas, fato que se contradiz  essas afirmações.
A prova de linguagens e códigos, cuja crítica é o alvo deste texto, ofereceu para interpretação excertos demasiadamente curtos, pouco significativos e desinteressantes, até cansativos à faixa etária a que se destinava, quando não eram excessivamente longos, não estabelecendo, de uma maneira geral, relação ao mundo juvenil e a seus interesses, mais se assemelhando a uma avaliação para especialistas e não para alunos de escola pública cujos resultados de aproveitamento encontram-se segundo o SARESP e demais avaliações externas dentro do básico, quando o Exame Nacional do Ensino Médio cobrou extrapolação a um nível avançado para a clientela alvo.
No que diz respeito à aparência, a prova equipara-se a do Ensino Técnico, costumeira nas ETECs responsável pela unificação das diversas áreas do conhecimento sem segmentá-las, fato que não possibilita a delimitação das disciplinas da área, fato que se apresenta de acordo com os parâmetros e guias curriculares.
Quanto ao tema de redação proposto, revelou-se como assunto já exaustivamente debatido não instigando ou provocando a vontade de escrever sobre algo mais moderno ou atual como se esperava que fosse; nesse aspecto, o assunto cobrado na prova em detrimento de assuntos importantíssimos e mais atuais com que o jovem se depara em seu cotidiano,  não esperou dele uma postura de criação mais próxima do seu universo e faixa etária.
Em uma análise geral dessa área, a avaliação deixou muito a desejar, sobretudo no sentido de instigar à leitura dos textos e a evitar o tão conhecido “chute” que, na verdade deve ter ocorrido. Se o jogador for bom...


quarta-feira, 14 de outubro de 2015





Boa-noite, amigos leitores. Faço hoje republicar aqui neste espaço, um texto que escrevi há tempos para homenagear aqueles que realmente se dedicam a sua missão de mestre, de educador. São palavras de agradecimento e admiração aos que desejam construir um mundo melhor, e, isso só se consegue através da educação, da lapidação do ser humano...




Alguém já disse uma vez: “Semeia, semeia mestre. No grande Cosmo , tu és  semeador, tu és a presença. Não podes fugir à realidade de semear... Não digas o solo é áspero...O sol queima... Não é tua função julgar a terra, o tempo, as coisas. Tua missão é semear.”
Mais importante do que a semente a ser lançada no solo é o exemplo que tens a dar. Sobretudo o exemplo da importância de dar amor. Hoje, lanças o germe, joga-o na terra inculta e seca e todos os dias rega-a para que ele se reproduza, cresça e dê lindas flores para enfeitar a vida e dar alegria às pessoas.
Se a semente não vingar por ter caído entre pedras ou em ambiente árido, não te desesperes: tenha a certeza de que seu exemplo de humildade ao lançá-la sem presunção, será visto e admirado.
Porque aquele que cultiva amor, com amor será recompensado. Aquele que ensina a amar, por todos será amado. Aquele que age com simplicidade, por todos será entendido.
Não creias que tua missão é fácil: é uma das mais difíceis tarefas que existem na face da Terra. Por vezes terás medo de não conseguir lançar a semente, por outros,  perceberá que muitos obstáculos deverão ser transpostos para que possas semear.
Procure conhecer o solo em que trabalhas sem, contudo, discriminar este ou aquele chão, na tua função de mestre e ao mesmo tempo aprendiz; muitas vezes poderás errar sendo surpreendido com uma bela flor que nasce em campo estéril e aparentemente infértil. Na tua função de preparador do solo é teu dever cuidar dele adubando-o, regando-o até que se torne apropriado para o plantio, bem como é tua missão saber que todo o chão pode produzir diferentes tipos de flores, desde que não descuides dele.
Não demonstres preferências ou apego a determinado solo, semeia em todos eles para que obtenhas um belo jardim florido.
Não reclame das dificuldades e das adversidades. Se há muitas pedras no teu caminho, procure retirá-las com paciência e determinação; se a semente cai entre a vegetação impiedosa que tenta sufocá-la e impedir que nasça, ajuda-a para que respire e cresça, assim como é teu dever separar a boa semente da erva - daninha que nunca deve ser lançada e sim, arrancada quando necessário se nascer entre as flores...
E nunca se esqueça:
O bom ensinamento transforma, lapida, fortalece. O bom exemplo será seguido e multiplicado. O altruísmo de tua ação salvará a Terra e todos os homens que nela vivem...

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Boa-noite, leitores. O tema de hoje versará sobre o provável assunto que será abordado nas provas do Enem. Esclarecendo, o jornal da Globo de 2ª feira noticiou que o possível tema das redações desse ano será da área de Biologia. Pensando em ajudar, elegi um assunto bastante polêmico dessa área...


 Líquido precioso ou veneno mortal?










Sangue. Energia líquida que percorre quilômetros e quilômetros de vasos sanguíneos com o objetivo de preservar a vida e a função de órgãos vitais dos seres que habitam esse planeta.
São inúmeros os tipos, o que não privilegia um ser perante seus pares, porém um milagre da natureza ocorre com o tipo O negativo: a capacidade de tornar seu dono, doador universal, a despeito da espécie sanguínea do receptor. Por essa razão, os bancos de sangue estão sempre à procura daquele que pode salvar indiscriminadamente milhares de vidas.
Apesar de ser fonte de energia, o líquido imprescindível pode ser facilmente maculado através de vírus e bactérias trazendo como a água corrente, milhares de doenças que obviamente causam males, contaminam pessoas, podendo levar à morte.
Entre as inúmeras que invadiram nosso século, muitas delas revelam a ocorrência pós-transfusional, principalmente na década de 1980, quando milhares de bolsas de sangues eram vendidas sem o devido exame de qualidade, motivo de muitos casos de incidência de hepatite C, Aids, hanseníase, doença de Chagas entre outras. Várias vítimas desse erro médico lotam hospitais em tratamentos ininterruptos destes males crônicos, enquanto um grande número já faleceu sem receber sequer um tratamento digno ou indenização pelo dano sofrido.
Outra forma de contaminação pode ocorrer através de seringas compartilhadas por vários indivíduos pela injeção de medicamentos ou drogas ilegais. Há notícias de que muitos funcionários antiéticos e irresponsáveis cometeram esse crime quando utilizavam seringas usadas com o objetivo de comerciarem as novas, construindo uma história de morte e ruína. Por outro lado, muitos enfermeiros que não faziam uso de equipamentos de segurança, como as luvas, por exemplo, também correram esse risco e muitas vezes adquiriram doenças sérias e crônicas, fato que ocorre ainda hoje no ambiente hospitalar; sem contar o tráfico ilegal que certamente ocorre, responsável por enriquecimento ilícito de profissionais da saúde, sem dignidade e lisura.
Por todas essas razões, é necessário uma grande dose de profissionalismo, ética e competência de funcionários do setor, fatores que a cada dia tornam-se mais raros, em consequência da baixa qualidade da educação, carência de materiais e evolução tecnológica ainda precária na grande maioria de nossos hospitais.
Tanto se incentiva a doação de sangue, ela realmente é indispensável para preservar a vida do homem em caso de risco, entretanto, de nada valerá todo esse empenho se tratamos o líquido precioso sem o cuidado necessário, sem o controle de qualidade que ele exige para ser útil à humanidade, sem a ética e honestidade que deve compor a alma humana, hoje tão vilipendiada pelo vício e corrupção. Torna-se essencial uma formação de caráter que seja reta, voltada para o bem comum e amor ao próximo.
O mesmo líquido que traz a vida pode ser o vilão que acaba com ela em questão de minutos, a consciência de cada um será responsável pela preservação ou destruição.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Boa-noite, caro leitor. O tema hoje é saudade, o sentimento presente na alma daqueles que já viveram  bons momentos e os guardam com respeito num cantinho do coração porque sabem que eles não voltam jamais com a intensidade que foram vividos...

Praça da cidade de Alfredo Castilho (julho/2015)

Velhos tempos, belos dias


Nas últimas férias de julho resolvemos eu e meu marido relembrar o cenário singular de nossa infância, percorrendo vários quilômetros que nos separavam de nossa terra natal.
A ansiedade que nos acompanhava crescia à medida que o carro engolia  quilômetros e se aproximava do destino.
As paisagens familiares da região noroeste do estado de São Paulo exibiam com frequência, lindos e floridos ipês rosa que invadiam o ar com o perfume de suas flores brilhantes ao sol, apesar do vento frio que soprava...
Na verdade, nunca assumira essa saudade, me fazia de forte, mostrando-me perfeitamente adaptada à vida turbulenta da cidade grande, mas confesso que a proximidade do passado foi aos poucos me sufocando e produzindo um aperto na garganta e no coração.
Oh! Que belos campos e árvores frondosas que já haviam abandonado meus pensamentos, ultimamente povoados pelo cimento maciço de prédios, aglomerados de casas, empresas e ruas superlotadas a qualquer hora do dia ou da noite.
Paulatinamente, o meu espírito interiorano de origem identificou-se com o cenário e o ritmo das cidades por que passávamos.
Entrada da pequena cidade de Alfredo Castilho, terra de meu marido: aquela que era uma vilinha, hoje mais se assemelha a uma cidade de porte mediano. Onde estão as ruas poeirentas de terra, as casas simples de outrora, separadas por sebes e cercas de madeira? Onde estão os velhos amigos deixados na fumaça do tempo?
E a velha praça de folguedos infantis, de namoricos juvenis, em que lugar se escondeu? Tudo mudou, se modernizou, a antiga e velha casa hoje totalmente reformada, violada, mascara tudo que se viveu entre suas paredes.
Amigos... A grande maioria já repousa eternamente no velho cemitério da cidade. Os que se podem encontrar apesar da alegria do reencontro, mostram no rosto as marcas do tempo e da vida, a pintura do tempo nos cabelos e o cansaço da jornada nos pés.
Por todas as cidades visitadas o sentimento é o mesmo: saudade e desilusão por não resgatar mais o tempo perdido, pela impossibilidade de viver hoje o que se viveu ontem; as manhãs e tardes gloriosas coloridas da adolescência onde a poesia enfeitava tudo com sua renda sedutora.
Meu Deus! por que não parar o tempo na mais linda fase da vida, onde a alegria pueril acompanha a vida em todos os seus momentos?
Infelizmente, tudo mudou. A praça principal já não é a mesma dos anos dourados, a violência, a depredação invadiram e tomaram lugar, estampadas na grama seca e sem vida em lugar da relva verde e viçosa de outrora; as árvores tristes e secas pela falta de chuva, a fonte luminosa que exibe suas águas turvas, poluídas pelo lixo.
E o velho colégio onde estudei na minha querida cidade de Araçatuba, nada mais se parece com aquele prédio bem cuidado e cheio de vida nos invejáveis bons tempos da educação que hoje tentam  arremedar!
Os versos de Casimiro de Abreu ecoaram por várias vezes em meu pensamento em quase todos os lugares por onde passava: "Oh! que saudades que tenho, da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais!"
O prazer do reencontro é imensurável, o resgate do passado, embora machuque, é saudável e traz doces lembranças... E se recordar é viver, vivemos com grande intensidade estas nossa férias...

sábado, 8 de agosto de 2015

Boa-noite, amanhã é o dia dos pais, mas daqueles que tudo fizeram por seus filhos sem esperar nada em troca. A todos eles, a mais sincera gratidão e afeto...



Falta infinita



Já senti a tua ausência na infância...Tal como hoje, a saudade já apertou meu coracãozinho infantil, que sofreu por longos trinta dias achando que havias me abandonado...
Nunca te relatei isso assim em vida, deveria tê-lo feito e explicado detalhadamente como digo agora e nem sei se podes ouvir ou sentir as minhas palavras entristecidas pela falta constante e rotineira que hoje, não posso mais mudar, por mais que deseje o contrário, que queira te ver entrando pela porta de minha casa com seu sorriso carinhoso, com a meiguice que caracterizava a sua pessoa.
Amanhã é seu dia, muito dos pais que são jovens e que ainda estão vivos serão homenageados, abraçados e presenteados...
Mas, quanto a mim e a vários outros infelizes,como poderemos compartilhar um dia tão importante como este?
Resta relembrar, reviver as reminiscências que por enquanto ainda perduram em nossa mente. Sobra-me o consolo de haver te honrado e respeitado enquanto viveste nesta terra de sofrimento e fugacidade... Pai, isso é gratificante quando muitos ofendem, ignoram, abandonam... Não posso dizer que tenha sido uma filha exemplar, muita coisa deixei de fazer por ti, e isso me doi muito, mas a vida tem suas veredas e na vida adulta, trilhamos estradas diferentes cada qual com seus espinhos,  suas flores, suas sombras.
Quantos filhos matam seus pais de desgosto ao escolher caminhos tortuosos e sombrios, acabando aos poucos com a beleza da paternidade!
Mas, voltando ao início, morávamos em Araçatuba, cidade pequena pelo fim da década de cinquenta, tinha então sete anos quando a mãe ficou doente, precisava de uma cirurgia e decidiu realizá-la em São Paulo onde havia melhores recursos. A reviravolta em nosso lar teve sua presença, cursava então o primeiro ano primário, hoje ensino Fundamental e meu irmão com três anos nem havia entrado na escola ainda...
Resolveram que todos iriam, ficariam na casa de parentes... Mas... Nada deu certo, muitas pessoas não gostam de receber em sua casa e, assim, depois de quatro dias, lá estávamos eu, você e meu pequeno irmão num vagão de trem de volta à Araçatuba.
Não disseste nada. Nada deixaste transparecer. Não percebi que no seu silêncio havia muita tristeza enquanto observava a paisagem já cansativa pela janela do trem.
Ao chegar, a casa da avó materna, a conversa em voz baixa enquanto a diversão e os folguedos nada deixaram perceber.
Deus, não sei, hoje forçando pela memória, parece que seus olhos teimavam em deixar cair as lágrimas que não rolaram. Ainda me lembro da pergunta:
-Pai, aonde você vai?
E a resposta curta:
-Vou no centro da cidade e volto logo... - e antes que manifestasse vontade de acompanhá-lo a complementação:
-Arranje seu material escolar para segunda-feira que você vai estudar na escola próxima daqui, por uns dias, até a mamãe voltar, querida! - percebi uma certa hesitação e melancolia enquanto me beijava e a meu irmão para logo ganhar a rua.
Fizeste mal, meu pai, agora te digo e de onde estiveres, saiba que foram longos dias e noites sofridos onde o pensamento de abandono calou fundo e acompanhou-me pelos piores trinta dias que já vivi em minha infância, sofrimento que só acabou, quando você e mamãe regressaram e me envolveram nos braços, no dia mais feliz da minha vida...
Esta falta volta agora com toda a força e constância. Sei que nada mais poderá te trazer de volta, nem de trem, nem de ônibus...Sei que jamais poderei te abraçar novamente e te presentear, e te abraçar e te beijar como dantes...
Isso machuca, machuca da mesma forma quando criança. A despeito das flores e das velas que acendo e que levam sua fumaça para os ares, das palavras de agradecimento que mentalizo, apesar da leitura dos salmos que repito todos os anos à sua sepultura, não consegui até o momento me conformar...
E não me conformarei, fique sabendo que o seu valor é imensurável, maior que todo o brilho do sol e das estrelas juntas. Você é, foi e será o meu grande amor!

quarta-feira, 24 de junho de 2015



Dedico as páginas de hoje aos poucos que se entregam com seriedade ao magistério, à missão de mestre de verdade  e que sentem na pele as agulhadas da indiferença e do descaso... 





Lições de hipocrisia







Uma escola é mais do que uma simples organização onde se recebem alunos para transmissão de conhecimentos; antes de tudo, deve ser uma equipe onde todos devem ser respeitados em suas necessidades e valorização de trabalho, não se admitindo favoritismos, estrelismos e subserviência para que possa servir de modelo à formação de personalidades.
Talvez seja essa uma das causas principais da falência da educação em nosso país e por que não dizer do mundo, uma vez que os seres humanos são iguais em qualquer parte do planeta. Não se leva mais em conta, ultimamente, a qualidade do trabalho profissional oferecido pelos funcionários sejam eles professores, administradores, secretários, inspetores, serventes etc.
O que proporciona promoção, valorização, status é o nível de bajulação que o sujeito pode oferecer; além da imagem de bem-relacionado, de socialmente integrado à equipe, e, é claro, que esse entrosamento é igualmente proporcional à capacidade de dissimulação do indivíduo, da sua desenvoltura em comentar discretamente com as pessoas certas sobre a vida pessoal e o comportamento de colegas, sabendo criticar ao gosto dos chefes, ou “puxa-sacos”, perdoem-me o termo, dos encarregados e diretamente relacionados à direção de um grupo.
Um dos maiores problemas, atualmente, é a tremenda falta de ética, de respeito, vontade de trabalhar seriamente e a palavra mágica: com-pe-tên-cia. Pela ausência desta, a grande maioria de personalidade frouxa,  advinda de instituições pouco sérias que proliferam no mercado, só consegue sucesso se entrar nesse ritmo, nesse modelo de comportamento que tem rendido a muitos sua sustentabilidade empregatícia, o reconhecimento de seus chefes e subchefes angariando sua amizade e atenção.
A hipocrisia e a falsidade que jamais deveriam prosperar em uma escola é a máxima bússola condutora de uma instituição desse tipo no momento presente e responsável pelos mais desvalorizados procedimentos que ali ocorrem: falta de cumprimento de deveres e horários; supervalorização do inútil e do boçal elevando-o à categoria da excelência, atendimento parcial aos funcionários e alunos em detrimento de uma minoria elitizada, inversão de valores; falta de administração do espaço físico e do material humano; falta de atendimento igualitário a todos no uso de recursos tecnológicos da organização que permanecem na mão de poucos que muitas vezes nem os utilizam com qualidade e frequência, não possibilitando seu uso à maioria; além de irregularidade na admissão de empregados e desumanidade.
As consequências que estas discrepâncias trazem são maléficas e trágicas para as instituições que na maioria do país assim procedem, pois geram conflitos e revolta, desistência e evasão escolar, insustentabilidade e instabilidade do quadro de funcionários, que insatisfeitos caem em uma rotatividade constante em busca de um lugar melhor; atritos permanentes entre  funcionários inconformados com o tratamento desigual que sofrem em detrimento de alguns.
O egoísmo e a vaidade proliferam em ambientes deste tipo, principalmente se há uma avaliação do trabalho oferecido e, ao invés de se colherem frutos de um trabalho conjunto e efetivo, convive-se com a coroação de individualidades que num eterno puxar de tapetes, e queima do “filme” dos poucos que trabalham realmente, conseguem manter-se no poder durante anos e anos.
A instituição que admite esse modelo de administração está fadada ao fracasso e ao provável desaparecimento uma vez que não tem luz própria, revela fraqueza de caráter e indolência que prevalece sobre o trabalho. Perde seu valor e respeito através de colegas que exercem controle entre seus parceiros e tentam comandá-los e, desta forma,  recusam-se a desenvolver seu real papel, pois avaliam-se superiores a eles; sobrecarregam outros funcionários com suas próprias funções; desprezam aqueles que são autênticos e  que deixam transparecer seus erros, condenando-os como antiéticos quando expõem a sujeira sob o tapete da pouca-vergonha, dando preferência a personalidades indolentes e fracas e, com tudo isso, deixam  de aproveitar o bom material humano de que dispõem.
Por essas e por outras razões que se aqui elencadas representariam capítulos e mais capítulos de um livro, é que nossa educação decai a cada dia, a cada hora, a cada minuto. Não há a atenção necessária ao real personagem do palco que são os alunos e a sua formação, relegados ao terceiro plano e nem uma luz que clareie e torne público este câncer dispondo-se a erradicá-lo. E assim,  o problema continua...    

segunda-feira, 8 de junho de 2015


Boa-noite, relutei muito antes de escrever mais um texto. Há dias, esse tema vem atormentando meu ser ao verificar o quanto a ficção deixa de ser irreal para fazer parte do cotidiano do homem moderno...



(https://www.google.com.br)



Geração faz-de-conta


Apesar de tantas afirmações de que o jovem atual participa do processo de desenvolvimento da sua cidade e país; da rapidez de raciocínio e facilidade que lhe são atribuídas na maneira como lidam com a tecnologia, a despeito de como dizem, do grande volume de informações que recebe a cada segundo, possibilidade do mundo virtual, digital como queiram chamá-lo, há toda uma ficcionalidade a envolver o ambiente juvenil moderno, atualmente.
Podemos evidenciar tal fato perante a mídia de consumo que é ofertada a essa geração: desafio alguém a buscar em qualquer filmografia e na grande maioria da literatura predominante no nosso século, que preferencialmente conseguiu se impor, uma obra que não seja a de ficção científica; enredos que transportam a todos para lugares futurísticos, de outros planetas, envolvendo seres estranhos e improváveis de existirem na realidade. Há muito, as pessoas distanciaram-se do seu cotidiano, de seus problemas e da tentativa de poder resolvê-los, uma vez que o que mais interessa é vagar por outras galáxias, investigar os céus à procura de ovnis, avatares, aliens, seres superpoderosos entre outros, enquanto a sua frente, os problemas sociais crescem, proliferam-se, tornam-se insolúveis e matam inocentes. Qual a razão, todos deveriam questionar-se, por não ter mais lugar na literatura e na arte, para o personagem homem, o simples homem do dia a dia, na luta diária pela vida como um super herói sobrevivente de um mundo que desconhece, na realidade?
E o fato da criação de ambientes fictícios já se prolifera na infância, na literatura, nas histórias em quadrinhos, nos filmes e desenhos que são oferecidos a essa faixa etária.
É proibido mostrar valores relevantes a uma vida digna, é preferível a exibição de seres irrelevantemente criados que fogem da normalidade, como se isso fosse prova de qualidade e estímulo à imaginação.
Desta forma, assistimos passivamente em meio de enxurradas de informações, jovens que não sabem o básico sobre a vida a seu redor, mas que conhecem nomes de estrelas de galáxias a mil anos luz do planeta Terra; da mesma forma, seres que mal olham seu par e o cumprimentam para trocar longas horas de diálogo nos chats de sites da internet; alunos nas escolas que não conhecem informações corriqueiras sobre relacionamento social, mas que colecionam um batalhão de amigos de mentira criados em avatares e em relacionamentos distantes.
Por tudo isso, chega-se à conclusão de que hoje, mais do que nunca, jamais o ser humano poderá organizar-se politica, historica e socialmente de forma presencial como acontecia num passado não muito distante; houve ferramentas apropriadas para efetuar esse distanciamento; uma verdadeira abdução que levaram o corpo e a alma de seres que se assemelham a robôs, que monossilabam em seus lares, trocando o diálogo por uma espécie de autismo, criação de um  mundo  próprio que leva ao isolamento por horas e horas na solidão de dias e noites...
Há quem diga que há uma conspiração por trás disso tudo, uma manipulação das artes, dos meios de comunicação que objetive um cidadão alheio a seu tempo, apolítico e totalmente massa de manobra para intenções sórdidas e antiéticas. O que se sabe é que vivemos num mundo de faz-de-conta, onde o que tem valor deixou de fazer parte da realidade.  
  



quarta-feira, 20 de maio de 2015



  
Hoje, tenho que escrever. Não por obrigação, não por dever, mas por vontade, necessidade de registrar alguns momentos bem vividos, doces e únicos. A despeito da falta absoluta de tempo que o trabalho consome, abandono hoje, o formato dissertativo, agressivo para escrever uma crônica, arrancada do fundo do coração....




 OS ANOS NÃO TRAZEM MAIS....

Entrando hoje pelo corredor do prédio onde moro em direção ao meu apartamento, alguma coisa me fez lembrar da época em que meu primeiro  filho tinha apenas um ano e fizemos uma viagem à Foz de Iguaçu.  Veio essa lembrança forte, de repente, como que trazida pelo vento frio de maio que me agitava os cabelos.
Quanta saudade! Por alguns instantes, me senti aquela jovem mãe de jeans e camisa, cabelos soltos, orgulhosa carregando o filho nos braços como quem carrega um príncipe ou um pequeno anjo de cabelos louros e lisos, rostinho corado e gracioso...
Agora, essa cena me parece tão distante como uma foto amarelada do álbum de fotografias esquecido no guarda-roupa do meu quarto. Por instantes, relembrei a antiga casa, a alegria da infância barulhenta e sua presença forte se fez sentir em todo o meu ser! Lembrei-me dos antigos brinquedos espalhados pela casa, enchendo corredores e quartos. Hoje, o vazio, a casa silenciosa e sossegada longe da algazarra daqueles tempos cheios de vida.  Uma lágrima me surpreendeu em meus olhos e relutou em cair, enquanto me recordava da imagem do Ferrorama da Estrela, que montado ocupava quase que toda a pequena sala, levando apressadamente seus vagões, passando por pontes, engatando e desengatando seus carros pela via até que viesse o cansaço daquelas mãozinhas incansáveis. Que pena, os tempos não correram, voaram, os ladrões que assaltaram nossa nova casa levaram esse presente maravilhoso de infância que a avó cuidadosamente escolhera para presentear o neto querido...
Lembro-me sim, da jamanta cegonheira que carregava os carros de passeio e que efetuava várias manobras ao pressionar seus botões de comando! Da coleção Comandos em Ação, do Caça Bombardeiro, das bonecas da irmãzinha nascida três anos depois, carro da Barbie, Moranguinho e tantos outros que me vêm agora à cabeça!
E você, meu filho, hoje um homem que carrega sua linda criança nos braços me pergunta se ainda me lembro desses brinquedos?
Como poderei esquecê-los? São parte da minha vida e embora já apareçam distantes em um passado amarelado, posso ainda dizer que foram os melhores momentos que passei em toda a minha existência, instantes sublimes que se comparados à podridão desse mundo que hoje perante nós se descortina, revelam-se tão sublimes que conseguem me arrancar lágrimas de saudade! 

quinta-feira, 12 de março de 2015

Dia atribulado, muito trabalho e aulas para dar...Quando me levantei pela manhã, lembrei-me de você, hoje faz exatamente 17 anos que não mais te vi. Por alguns instantes, fiquei pensativa, saudosa e triste pela perda...





Nuvem passageira que deixou marca





Todos os anos, consecutivamente, em todos os doze de março, sinto um aperto no coração e as lembranças tristes que me calaram na alma e que estarão presentes para sempre em meu ser, voltam por momentos, operando em mim uma transformação.
Nestas horas, ocorrem voltar a minha mente, o desespero causado pela notícia de sua súbita partida, a Ave-Maria plangente de Gounod interpretada ao piano, cujas teclas banharam-se em lágrimas como forma de oração. E após, longos dias e noites de lembranças infinitas e sofridas.
O tempo, no entanto não para, e como já dizia, nosso querido Mário Quintana em sábias palavras: "O tempo não para! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo", volto a folhear as páginas já amareladas da minha vida, em cenários onde a sua presença era constante; momentos doces, musicais, afetivos, tristes, mas duradouros.
Hoje, já me esforço para relembrar uma passagem nova dum passado longínquo e intocável, que me escapa como uma nuvem levada pelo vento...
E muitas lembranças embaralham-se e invadem meu pensamento como aquelas em que treinavas em frente ao espelho simulando uma situação de venda de algum produto, afinal trilhaste sua estrada sempre pelo mesmo caminho, com o entusiasmo de uma criança que planeja obter o mais sonhado brinquedo. Já vendeste de tudo em sua vida: de prendedores a ferramentas, relógios, artigos de época, (ainda guardo alguns exemplares de produtos natalinos que vendias, não tive coragem de me desfazer deles) e tantas outras coisas...Nessas ocasiões, parece que te vejo a impostar a voz, simulando um interlocutor inexistente, algumas vezes pedindo-me para que o representasse. E depois, ríamos muito de tudo aquilo...Não  ocorria na minha ingenuidade infantil que o super-herói pudesse estar assim agindo para eliminar seus medos no sentido de conseguir o tão sofrido pão do sustento familiar...Oh! que doces dias e noites eram aqueles que compartilhávamos em trocas tão significativas que constituíram nossa existência de pai e filha.
Por vezes, para me ver feliz, um LP do cantor preferido, sabe lá com que sacrifício me ofertava e, sentado a meu lado, abraçando-me carinhosamente ouvia compenetrado várias melodias! Você sabia como me fazer feliz!
Em outros tempos, ensaiava interpretar uma música que eu ou meu marido tocávamos ao violão, com uma voz não digo tão desafinada, mas fora do ritmo e do tempo, e como nos divertíamos!
Ultimamente, anos antes de tua partida, seu fardo tornara-se por demais pesado e apesar disso, não lhe arrancara totalmente o sorriso dos lábios que sempre tinham uma palavra de conforto e incentivo a todos revelando uma elevação espiritual a qualquer prova...
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A fugacidade do tempo, o excesso de trabalho não permite que visite o lugar onde seu corpo descansa infinitamente rodeado de altas e silenciosas árvores cuja sombra evolvem todo o ambiente.
Para mim, foste como tudo na vida, nuvem passageira, da bonança, fraternidade e esperança.
Parece termos passado tão pouco tempo juntos, apesar do longo período de convivência familiar, e, a partida da casa paterna exigida pelo casamento trouxe uma ruptura daquela proximidade costumeira que tínhamos.
Nuvem passageira, levada pelo vento sua imagem vai pouco a pouco sumindo, tornando-se invisível, embora lute para que isso não ocorra...
A despeito da efemeridade do tempo, a importância do que significou para mim, jamais deixará de existir e há de me acompanhar até o fim...