quarta-feira, 16 de março de 2022

 


E a vida continua...



Fazer um blog é muito bom, escrever nele melhor ainda. Porém, a dita liberdade de expressão que muitos afirmam estar presente nos dias atuais não condiz com a realidade, apenas a teoria ostenta um lindo discurso utópico e mentiroso. Não temos liberdade alguma, não somos donos de nada, nem de nossa própria casa, carro, filhos e o que é pior:  da nossa própria vontade. Deliberar contra o gado ordeiro e disciplinado nunca foi tão difícil,  nunca discriminou e criminalizou o destemido que ousa contradizer a verdade estabelecida. Vivemos num mundo cruel, hipócrita e desleal em que meias verdades são tomadas como veracidade e viram lei; e acredito: se Cristo voltasse a Terra e se se rebelasse contra esse sistema nojento e vil, certamente seria cruelmente assassinado de forma mais covarde e mais severa que a primeira. Essa é a tristeza, a pedra no sapato do blogueiro, do twitteiro ou de qualquer outro influenciador digital que acaba se acostumando, tal qual no período da ditadura militar, a escrever sobre temas outros, diversos dos que queria realmente versar...




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Verba volant, scripta manent

A frase latina acima significa que a palavra dita voa e a escrita permanece. Por essa razão, principalmente nos presentes dias,  temos tanto medo da scripta  pelo motivo de ela permanecer durante os tempos registrada em algum lugar material ou virtual.
E o mais incrível é que temos uma mídia altamente competente para dominar o grande público e enfiar-lhes cérebro adentro, qualquer ideologia que lhes apeteça: quando surgiu a composição de Zé Ramalho na década de 79, "ei, vida de gado, povo marcado, e,  povo feliz", não estávamos num estágio de abdução tal  como o que nos encontramos hoje. Essa indução forma um grande rebanho que se revolta contra  alguns seres pensantes do planeta se eles diferem na forma de pensar. Assim, corre-se o sério risco de ser preso, ou até mesmo linchado pela esmagadora maioria que politicamente correta, defende seu ideal de unhas, dentes e  o corpo todo se necessário for.
Como e quando aconteceu tudo isso? Inicialmente, a partir do momento em que os seres humanos deixaram de se encontrar face a face em praças e locais públicos distanciando-se de seus pares para se "esconderem" nos lares em frente a um aparelho de TV. Nesse momento infeliz, a mudança começou a se operar de maneira macabra, covarde e intencional, muito embora quase ninguém tenha se dado conta disso. E num crescendo contínuo o desenvolvimento tecnológico da comunicação  ganhou dimensões assustadoras fazendo seu trabalho com excelência até chegar onde estamos.
Se acha exagero, basta conversar com alguém e prestar atenção no seu diálogo, que é produto da mídia; ideias próprias ninguém mais as tem, e se alguém ousa demonstrá-las, é cruelmente crucificado com palavras ofensivas que o faz sentir a pior das criaturas. Muitos se omitem e seguem a corrente por temer até perder seu emprego e criar inimizades.
Todos os setores da sociedade são vítimas desse processo de manobra e a marca que atingiu chega a tal dimensão que é praticamente impossível uma reversão.
Me lembrou agora a célebre frase que os policiais em filmes americanos sempre despejam  sobre seus réus: "Tudo o que disser, será usado contra você no tribunal", provocando um silêncio temeroso, uma vez que até a  exposição verbal (verba volant) torna-se extremamente perigosa. Imagine então  a palavra escrita (scripta manent)  quão grave se torna em seu teor; escrever com propriedade e reflexão torna-se arriscado, para qualquer autor que se aventure a sair dos modelos pré- construídos e eleitos como verossímeis  por todos.
O leitor já assistiu a um filme intitulado "Idiocrassy", lançado em 2016? Estamos já naquele estágio da população bitolada e sem raciocínio lógico que ali se presencia, ou até pior.
Tudo isso só ocorreu por um motivo: a crença absoluta, a ausência total de ceticismo que tomou conta da sociedade. Tudo é aceito passivamente; e a partir disso fica difícil, pois teremos uma missão muito mais impossível  do que remar contra a maré de um rio.Como afirmei na introdução, nos bons tempos, não pagávamos tantos impostos como hoje, não havia, IPVA, Imposto de renda agressivamente conduzido, juros bancários abusivos, e tantas outras explorações a que somos submetidos nesses tempos ditos tecnologicamente desenvolvidos. O planeta sendo destruído e dilapidado, terrivelmente explorado para enriquecer alguns e escravizar outros que também são seres humanos. Os filhos, maior patrimônio de uma família, sendo didaticamente educados por meios de comunicação de massa em detrimento das lições de vida paternas ou terei que politicar corretamente incluindo maternas? Os profissionais condicionados à obediência de um sistema se quiserem continuar a ganhar o seu pão de cada dia, porém seu ideal totalmente estrangulado e distante.
Ridículas essas colocações que nos humilham, nos antagonizam até sermos rotulados de neonazistas, neofascistas, neos sei lá o quê, se nosso diálogo difere do discurso que nos foi sutilmente imposto.
Para compreendermos melhor essa situação, basta olharmos um pouco retrospectivamente e relembrar de como a adolescência é vulnerável nesse sentido; os artistas que idolatramos foram usados, venderam-se por status, ascensão social, fama e consequentemente nos usaram para que os fins sórdidos vingassem. E assim continuam até hoje, de forma mais atroz ainda. É preciso uma vida razoavelmente longa e  pensante para que possamos tirar algumas conclusões sábias, entretanto, devem ser  guardadas num cofre de segurança máxima, pois são joias raras que não são identificadas por leigos. 
Muitos dirão ao ler textos como esse: " Será que o autor endoidou?" Estará em suas perfeitas condições mentais?
Infelizmente, não há mais solução e muitos já aderiram à frase:
"Não pode com eles, junte-se a eles"! Ou então: "Aceita que dói menos!"

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

 

O título desse texto, fala de uma possível volta através do tempo e do espaço...


Reencontro


Eu te conheço de tempos imemoriais...

Não sei precisar de quando, se há centenas, milhares ou até mesmo milhões de anos, ou de séculos. O inexplicável se faz presente nesse caso. Só sei dizer que quando te vi pela primeira vez, senti essa sensação de conforto, bem-estar que só se atinge quando laços infinitos ocorreram desde as mais remotas épocas. Não há certezas sobre a imortalidade da alma, nem da existência de outras vidas, mas, seguramente, do fundo do meu ser, sinto aquela familiaridade, aquela proximidade que só duas almas gêmeas podem sentir...

Uma pena que a distância foi sempre uma constante em nossas vidas, o afastamento de tudo aquilo que embalava o corpo e o espírito foi mais forte e o crepúsculo chegou insensível, trocando o sonho pela realidade crua, fria. Apesar de a vida ser um navio que não podemos governar e  que nos leva a inúmeros continentes, você sempre vai ser a primeira página do livro de minha memória, e nesse caso, o que é o espaço físico, se em um segundo, atravesso a barreira do tempo e revivo os poucos momentos que compartilhamos juntos em sintonia perfeita como só o Cosmo pode ser...

Eu te conheço de tempos imemoriais... Não sei se isso ocorre contigo também, mas acredito do fundo do meu coração, que sim...

 Que estradas anteriores trilhamos, que momentos vivemos juntos em uníssono, que tipo de relacionamento tivemos? Por que essa certeza de harmonia e conexão tão profunda? Quando me perco nessas divagações, o que me vem à mente são páginas amareladas de um livro envelhecido, decorado com lindas guirlandas de flores silvestres a enfeitar uma trilha distante, mas tão presente que me acompanha por toda essa existência.

Se há uma música que possa representar tudo isso, esse amor infinito, milenar é a Serenata de Schubert, cuja doçura e romantismo são profundos e voláteis como a vida... Até mesmo o segundo movimento tão doce da Patética de Beethoven também seria propícia;  a parte final do Noturno opus 9 de Chopin já representaria em sua  tristeza,  a saudade, a impossibilidade do re-encontro. Certamente, trago um espírito muito antigo, onde o clássico sempre ocupou o primeiro lugar, as valsas inebriantes de Strauss parecem me transportar para vetustos  salões  de baile, onde rodopiavam saias imensas  a farfalhar fartura de tecidos, a espalhar perfumes de sândalo e de flores pelo ar.

 Já sei que nessa passagem não mais nos uniremos, nem mesmo para um simples diálogo que poderia ser capaz de constatar essa irmandade de almas. As convenções sociais, o peso do nosso ego e toda a carga emocional que carregamos em nosso pobre cérebro, não deixam que sejamos livres como as crianças o são ao manifestarem suas vontades.

Às vezes, me ponho solitária a olhar para o céu e as estrelas, procurando uma justificativa para esse mistério que me atormenta a respeito da imortalidade da alma, da comunhão com pessoas como ti, que nunca deixaram de ocupar lugar na minha memória. Não se trata de brincadeira, ou até mesmo de traição a outros que nos são caros, o ser humano tem uma capacidade enorme de amar, se a alma não é pequena, como dizia o nosso grande Fernando Pessoa, porém, é uma lacuna muito grande, que a todo o momento precisa ser preenchida ou até mesmo, amortecida com o apoio e carinho desses anjos que nos rodeiam e nos prezam, presentes e que  fazem valer o nosso difícil  dia a dia.

Aprendi a duras penas que a vida é um sopro, que pode se esvair no esconder da lua em uma nuvem rendada, através do pôr do sol, ou durante o cair dos pingos de uma chuva. O que virá depois é um mistério indesvendável para nós, pobres mortais, incertos e ignorantes de todas as leis que nos regem. Mas, apesar de tudo, quando tudo acabar, fica o sentimento do possível reencontro, em qualquer dia, hora ou lugar...

 

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

 Pesquisando no site de busca Google, fiquei sabendo que hoje é comemorado em todo o mundo O dia Mundial da Corrupção...




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O tema é um prato cheio para desenvolvimento de um livro, creio eu, uma vez que  vivemos em tempos de crise existencial,  tremenda inversão de valores, falta de empatia e humanidade que transformaram o ser humano em uma máquina mortífera que extingue e derruba pessoas por motivos banais.

O questionamento a se fazer é: quando esse comportamento bestial foi transformando homens e mulheres em indivíduos descontrolados emocionalmente, frios e cruéis. Segundo o filósofo, Jean Jacques Rosseau, um pensador do século XVIII, o homem é produto do meio em que vive. Nesse modo de pensar, qualquer pessoa independente do seu material genético, seria moldada pela sociedade em que ela está inserida. Desta forma, há possibilidade de transformarmos um anjo em demônio durante o período de alguns anos de convivência em um meio de corrupção, valores indignos e moral duvidosa.

Realmente, ao que temos assistido atualmente é exatamente isso; muitos culpam a educação de má qualidade em nossa instituições como responsável pelo quadro, esquecendo-se de que os primeiros ensinamentos que levarão uma criança até os sete anos à constituição de seu caráter é tarefa familiar, roda de amigos entre outros grupos sociais. Assim, quando o infante passa a frequentar uma escola, já traz uma bagagem bastante relevante na definição de sua personalidade, ficando a escola responsabilizada a efetuar difíceis e quase impossíveis mudanças de comportamento em seus alunos.

O termo corrupção provém do latim corruptionem significando rompimento, deterioração, processo ou ato de corromper. E em países como o nosso pobre Brasil, isso é comum em grande parte da sociedade. Há corruptos em todos os gêneros, idades e classes sociais. Homens públicos que deveriam ser o exemplo de retidão de caráter, envolvidos em crimes e deslizes graves, fazendo com  que o cidadão perca a confiança e a credibilidade, acreditando que não há mais como conviver socialmente entre pessoas de bem.

A causa deste mal é certamente o exagerado valor dado  ao dinheiro e poder em detrimento de princípios espirituais dignos que deveriam prevalecer na  formação do ser humano. Pelo dinheiro, políticos aceitam e dão propinas em benefício próprio, apropriam-se de bens públicos, colocam em evidência seu poder e dele abusam, entregam riquezas e vendem sua própria nação em troca de fortunas e privilégios pessoais.

Para o  cidadão comum de maneira geral, torna-se prática apossar-se de materiais de propriedade da empresa em que trabalha, alegando ganhar pouco e justificando esse ato corruptível. Parece que alguns brasileiros já nascem com o instinto de roubar seu par ou adquirem essa tendência na mais tenra idade. E o fato não ocorre apenas no nosso país, embora ele esteja arraigado no espírito nacional. A deformação moral manifesta-se também na atitude de falta de sinceridade, na inveja que leva à vileza ao ponto de "puxar o tapete" do seu próximo como forma de garantir apenas o seu bem-estar, construindo felicidade sobre a tristeza dos outros. 

Providências deveriam ser tomadas urgentemente, um planejamento familiar seria muito oportuno, haja vista a dedicação irrelevante dos pais na criação de seus filhos... Quem não tem tempo de se dedicar a eles, não devem colocá-los no mundo para serem criados pelas ruas ou abandonados em depósitos, como creches e escolas dando-lhes a difícil tarefa de fazer o que não realizaram, mudar o que estragaram, devolver a dignidade que lhes foi roubada...


quinta-feira, 3 de junho de 2021

 A pedido de amigos, resgato aqui algumas memórias dedicadas a um meio de transporte deveras antigo, dois séculos de existência: a bicicleta, uma vez que hoje, 03/06 é o seu dia...







Ontem, hoje, sempre


Palavra nascida na França, o vocábulo bicyclette, deriva do francês. Etimologicamente formado do prefixo latino bi e do grego, kýklos e cyclos nos alerta de que se trata de uma composição por hibridismo, já que junta línguas diferentes, significando veículo de duas rodas.

Mas não foi por esse motivo que resolvi escrever esse texto. Novamente, me voltam os passeios pela memória, já enevoados pelo avançado do tempo. Vejo-me, criança ainda, dengosa e chorona, sempre me olhando no espelho da cristaleira, o que me levou à alcunha de “Maria Cristaleira”. Sorte que cresci uma menina muito sensível e piedosa até dos matinhos que pisava no quintal...

E a bicicleta? Ela chegou por volta dos meus 6  anos, uma Mercswiss, verde para aliviar a carga que meu pai carregava na sua própria bicicleta: minha mãe, na garupa, trazendo ao colo meu irmão ainda bebê e eu na cadeirinha próximo ao guidão. Por vezes para efeito de zombaria, algum passante gritava: “Lotação!”

Jamais me envergonhava disso. Hoje, analisando esses tempos passados, onde o cenário era constituído por bicicletas e charretes e alguns carros esporadicamente, concluo que aquela geração contribuiu para a pureza do ar e preservação da saúde, algo que nos dias atuais não é possível acontecer; o carro se tornou além de meio de transporte principal, uma forma de status social, o que lamento muito.

Aprendi a andar de bicicleta com o auxílio de meu pai: alguns tombos e arranhões e lá íamos nós para todos os cantos, cada qual no seu veículo ao sabor do vento. Certa ocasião, ficou decidido que iríamos de bicicleta a um sítio que meu avô paterno possuía, não me lembro se em Taveira, ou outro local alguns quilômetros distante de Araçatuba. Um calor de 40 graus, pleno verão, ausência da mais leve brisa e um areão que por várias vezes me faziam derrapar e parar, o que para meu espírito infantil, parecia não ter mais fim! Era um grupo até grande de adultos e a menor era eu que ficava para trás, castigada pelas dificuldades do caminho, porém o final feliz, embaixo da amoreira gigante, com sua sombra reconfortante e os frutos doce-mel. Lembro-me do vestidinho branco todo manchado de vermelho-vinho e das repreensões:

-Não vai sair mais, mancha de amora não sai...

E a bicicleta acompanhou-me por toda a minha vida, lembro-me de meu avô materno com sua companheira inseparável, fizesse chuva ou sol a caminho do trabalho na Fábrica de Tanino; das velhas histórias de meu pai com sua bicicleta voadora (motivo de piada no jornal do Frigorífico T. Maia onde trabalhava); das minhas idas já em uma Monark, aos 11 anos às aulas de piano; do primeiro namoradinho buzinando na porta de casa com sua bicicleta toda equipada com buchinhas coloridas, flâmulas e outros adornos da época, apavorando-me com medo de que minha mãe percebesse... 

Ah, como é rósea a infância e a adolescência!

Se bem que, de uma hora para outra deixei de adorar a bicicleta, os passeios nesse veículo maior já não tinham o mesmo sabor delicioso da infância... Voltei a usá-la em São Paulo, entretanto, o trânsito feroz das avenidas não encorajava seu uso e os passeios eram sempre no entorno da represa  Guarapiranga, local maravilhoso na década de 80, hoje impraticável e inseguro. Mudando-me para Rio Claro também a usei várias vezes para ir ao trabalho , e hoje vejo minha filha elegendo-a como meio de transporte...

Acredito que cada um de nós tenha histórias maravilhosas para contar nesse dia de hoje, dia da bicicleta. São reminiscências de um tempo que ainda hoje, voltam com a mesma intensidade e emoção e valem a pena ser relembradas.   

 

 

quarta-feira, 2 de junho de 2021

 Parece que criaram dias para tudo....O assunto é polêmico, mas temos que escrever sobre qualquer um deles, esse foi inspirado num grupo de Whatsapp que frequento , cujas efemérides são publicadas diariamente.





For sale?


Dia do homem, dia da mulher; dia do trabalho, dia do avô, dia do amigo e até dia do pólen....

Porém o que ainda não havia visto é o dia da prostituta. Ia me esquecendo de que hoje isso virou profissão, citada como o mais antigo ofício desde tempos primordiais.

Antes, essa profissão era conhecida como promiscuidade, venda do próprio corpo, entretanto, atualmente atribui-se  nobreza, coragem e desafio a quem se dedica a ser uma meretriz, "mulher da vida" como se chamava no passado. Engraçado, por acaso as outras mulheres consideradas de boa moral não tinham vida? É deveras, no mínimo bizarro, atribuir vida àquelas que apenas desenvolviam a profissão do sexo para todos.

E existem de todos os tipos e categorias: as que se oferecem a preços módicos, outras a valor de ouro, e algumas que nada cobram em troca de seus serviços; acredito que as mais valorosas e que têm realmente amor à árdua profissão. É ironia, mas há uma ponta de comicidade ou tragicomédia  em tudo isso. Em países do primeiro mundo, como na Bélgica, por exemplo, são expostas como bonecas nas vitrines, exibindo seus corpos como forma de propaganda para que sejam "consumidas"como um produto qualquer à venda no mercado.

Acho que alguém do sexo masculino seria a pessoa mais indicada para falar sobre isso.... Nos meus tempos de juventude, havia locais que as segregavam, conhecido como "zona de meretrício", o que também é jocoso dizer por se apresentar como algo discriminatório. Aquelas mulheres eram visadas, marcadas pelo seu destino que geralmente se consumava ocasionado  por algum desgosto que as fizeram procurar refúgio naquele malfadado lugar, onde viviam e muitas vezes "subviviam"  a duras penas por toda uma existência. Houve uma época em que qualquer contrariedade amorosa levava o "sexo frágil" ao convento ou ao prostíbulo. 

E de repente, esse assunto me fez lembrar do áudio contendo um relato de funcionária da prefeitura, agora no período de pandemia. Contava que uma cidadã ligou perguntando se seu comércio poderia abrir, e a atendente respondeu que os produtos deveriam ser vendidos, mas não consumidos no local e sim em domicílio. O seu espanto foi quando a mulher respondeu que o seu negócio era comércio de garotas de programa...

O dia da prostituta me trouxe-me também a memória de um episódio que aconteceu em uma zona de meretrício próximo à Araçatuba, no chamado Trevo, na saída da cidade. O homem era sueco e não estava acostumado a pagar por esse serviço em seu país, contratou a mulher e quando tudo terminou, ela quis receber. Indignado, recusou-se  a pagar, mas como ela insistisse comunicando-se por mímica (imagino como seriam, essas mímicas), ele pôs-se a quebrar tudo no local, saindo em seguida e pegando um táxi até a casa onde estava hospedado, que por sinal era a residência de um amigo, um cabo do exército. Não tardou para que a  polícia aparecesse na casa do tal cabo e prendesse o rapaz que levado à delegacia, acabou pagando todo o prejuízo efetuado na casa da profissional do sexo. 

Se me perguntarem se o caso é realmente verídico, aconteceu com o marido da minha cunhada, que nem de longe sonhava com o que acontecera, estava às vésperas de seu casamento e acabou acompanhando o futuro esposo à delegacia de polícia para explicar melhor o fato, uma vez que ele não falava um português eficiente para esclarecer o acontecido... 

Águas passadas, hoje ele já repousa na glória do eterno e a prostituta que lhe serviu não deve ter tido destino diferente...

Dia da prostituta, um dia para se refletir...

domingo, 14 de março de 2021

 




(Google images)

Aeternum  (Para sempre)



A noite chega sem vontade, tingindo de escuro as cores alegres da tarde que aos poucos deixa cair seu véu...Noite nublada, sem estrelas, convida à meditação, lembranças que vão desfilando na mente, compondo páginas de experiências vividas. 
A maioria das pessoas recomendam nas redes sociais através de memes e vídeos comoventes que se inicie o dia agradecendo, reconhecendo todas as coisas boas que nos acontecem e aconteceram até agora. Também há muitas que afirmam que devemos estar sempre serenos, aceitando a fase da vida em que nos encontramos, que a chegada da velhice é algo muito natural, e que a resignação deve ser sempre nossa companheira...
Entretanto, não há fórmulas mágicas  para que sejamos ou ajamos como todos afirmam ser necessário. Em um dos grupos de relacionamento que tenho frequentado diuturnamente, alguém disse que o maior valor da vida é nos tornarmos na idade madura, melhores com a progressão da vida em suas várias fases.
Porém, o que dizer de alguém que apresenta uma figura como a minha? Temperamento quixotesco, desde a infância, construída de quimeras e situações fantásticas em que a poesia sempre substituía ou melhor, adornava a realidade, eufemizando situações, colorindo com cores fortes e vibrantes os dissabores, aromatizando agradavelmente as ocasiões festivas ou funestas...
Quero dizer que não vi a velhice chegar, nunca acreditei nela, sempre foi a fantasia quem guiou meus passos: na infância era a Cinderela, a Branca de Neve, a Bela Adormecida... Na adolescência, a viajem através da dança, da música, dos ídolos famosos que me emprestavam asas para voar, e num estalo, tudo passava, como num róseo carrossel; vieram as transformações físicas, o casamento, a chegada dos filhos, a separação deles, reconstrução da vida!
Hoje, me acho num grupo de relacionamento virtual da cidade onde nasci, onde passei minha adolescência e parte da vida adulta...Vejo nas fotos frias, rostos envelhecidos, cabelos pintados com o branco da passagem do tempo, ouço e respondo falas distantes que me perguntam coisas de dantes, das quais nunca me esqueci! Sinto-me em relação àquelas pessoas queridas que comigo estudaram desde a infância como se houvesse pegado uma estrada dentro de um carro veloz que engoliu a distância avidamente e foi deixando para trás todas as emoções, rostos,  cores, vozes e locais que eu tanto frequentei e amei. 
De repente, eis que estamos juntos novamente, na frieza do ecrã do celular a postarmos fotos antigas ou atuais, tentando resgatar o elo que nos ligou durante tanto tempo! As amigas, os colegas de classe, o antigo namoradinho da pré-adolescência... Fotos de pessoas amadas que se foram; entre professores, amigos, um coisa muito surreal!
Quero dizer-lhes que foi um acontecimento muito marcante esse retorno ao convívio mesmo que virtual, e revelo que ainda continuo aquela mesma menina sonhadora de outrora, não sinto a velhice, assim como não senti nenhuma fase da minha vida com o gosto cruel da realidade... Sim, sou um Quixote na versão feminina, e sinto pena de mim... Sinto pena de mim por tudo que não vi passar, por toda a realidade que fantasiei, pela simplicidade que guardei até hoje em meu espírito, por tudo que esperei acontecer e não aconteceu, pela determinação de sempre seguir em frente, sonhando, esperando o melhor para mim e para todos.
Se me tornei uma pessoa melhor, isso não sei dizer, os sonhadores não tem maldade no coração, isso eu garanto, todavia,   apenas as outras pessoas podem avaliar isso, durante o tempo...
Não julgo, não espero nada das outras pessoas, apenas lembro e sinto! E perante a minha visão de sonho, quero dizer que todos vocês foram personagens fantásticos que compuseram o livro da minha vida, cada qual no seu papel, e sempre estarão guardados no cofre dourado da memória...

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

 


 Há quanto tempo... Torna-se cada vez mais difícil colocar aqui neste espaço algumas palavras. O que devo dizer? Preciso continuar minha missão...




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Mais um Natal que chega, desta vez vestido de cinza, sem aquele toque tradicional de magia e festa como sempre costumamos esperar e sentir. 2020 foi um ano surpreendente e ao mesmo tempo de mudança de vida, mas os hábitos que surgiram foram desagradáveis: uso de máscaras, excesso de cuidados de higiene, coisas que foram nos distanciando obrigatoriamente do costumeiro conviver com as pessoas, troca de afetos e carinho. O gelo da distância marcou ainda mais e foi afastando pouco a pouco os seres em todos os setores: no trabalho, na família, nas reuniões sociais e afetivas.

Ah, e o malfadado grupo de risco! Quanto medo, quanta orientação e presença diária de slogans e depoimentos massivos que mataram muita gente de medo  e de depressão ...

Não pudemos oferecer apoio moral à família, comparecendo para dar o último adeus àqueles que nos eram caros. 

Desta vez, não houve um alerta que sempre me avisa de que o ano está acabando e que o Natal se aproxima,  como avistar de repente lojas com produtos natalinos à venda em exposição ou propagandas anunciando a chegada da festa.

O trabalho antes tão próximo de alunos jovens e adolescentes tornou-se tão vazio, tão vago, resumindo-se a imagens  que pouco a pouco foram desaparecendo das câmeras para dar lugar a fotos ou iniciais congeladas inexpressivas e estáticas.  Os áudios foram silenciando para muitos que preferiam usar chats e escrever ao invés de falar.

Salas enormes foram se extinguindo para dar lugar a cinco ou seis participantes, o que ainda trazia imensa felicidade porque nos  faziam acreditar que alguns discípulos confiavam no árduo trabalho do professor. Reuniões exaustivas na profissão que triplicavam  o volume de trabalho, cansando sobremaneira, muito mais do que da forma presencial como era dantes...

Trabalhos maravilhosos presenciais de teatro, musicais e de dança resumiram-se a podcasts feitos com grande sacrifício para reunir a todos.

Não sei como explicar, mas esse ano não haverá Natal. Não como sempre foi, com a liberdade de expansão de sentimentos, comunicação e confraternização. A miséria econômica gerada pelo desemprego massivo, será responsável por menos sorrisos nos rostinhos infantis, menor acolhida àqueles que já não podem mandar um desafio a um novo ideal pelo avançado da idade...

        As mudanças não serão estáticas, não terminarão com a chegada de uma tão aguardada vacina... Sinto que uma brusca alteração na ordem das coisas, será um processo contínuo, um domínio do tecnológico em detrimento do humano, anunciando friamente que o fantasma da automação que se iniciara no passado,  agora solidifica-se e vem para ficar, tomando espaço maior empurrando o artesanal, a ação humana para segundo plano, exibindo vaidosamente sua superioridade amedrontadora  na perfeição artificial, breve substituta de  muitos ofícios que dependiam outrora do ser humano.

É um Natal de meditação, de preocupação com o  futuro, em que a consciência social não trará ajuda ante a monstruosa proporção da crise que se avizinha e progressivamente dá seus passos assustadores...Elevemos nosso pensamento aos céus esperando o melhor, que nada disso se torne realidade, amém ...




quinta-feira, 15 de outubro de 2020

 O  dia de hoje é especial, dia do professor. O meu dia!  15 de outubro sempre esteve tão presente na maior parte da minha vida que agora aposentada e trabalhando como professora novamente,  nada melhor do que refletir e escrever sobre ele. A figura de professor é por várias vezes comparado a um semeador, não de flores, mas  a semente do exemplo, do ensinamento, do esclarecimento, da luz que acaba com as trevas da ignorância e do mal. Parabéns a todos os professores, mas somente àqueles que procuram ser mestres de verdade, sem egoísmos, sem vaidade, sem reclamações. A despeito da sua condição pouco favorável e quase sempre irreconhecida do seu mérito, que o prazer de semear invada a sua vida, e lhes encha a alma de felicidade e satisfação do dever cumprido!



Alguém já disse uma vez:" Semeia, semeia mestre. No grande Cosmo, tu és semeador, tu és a presença, a pessoa. Não podes fugir à responsabilidade de semear... Não digas o solo é áspero...O sol queima...Não é tua função julgar a terra, o tempo, as coisas. Tua missão é semear."
Mais importante do que a semente a ser lançada no solo, é o exemplo que tens a dar.Sobretudo o exemplo da importância de dar amor. Hoje lanças o germe, joga-o na terra inculta e seca e todos os dias rega-a  para que ela se reproduza, cresça e dê lindas flores para enfeitar a vida e dar alegria às pessoas.
Se ela não vingar, por ter caído entre pedras, ou em ambiente árido, não te desesperes: tenha a certeza de que seu exemplo de humildade ao lançá-la sem presunção, será visto  e admirado.
Porque aquele que cultiva  amor, com amor será recompensado. Aquele que ensina a amar, por todos será amado. Aquele que age com simplicidade por todos será entendido.
Não creias que tua missão é fácil, ela é uma das mais difíceis tarefas que existem na face da terra. Por vezes terás medo de não conseguir lançar a semente, por outras, muitos obstáculos deverão ser transpostos para que possas semear.
Procure conhecer o solo em que trabalhas, sem contudo discriminar este ou aquele chão: na tua função de mestre e ao mesmo tempo aprendiz; se julgas, muitas vezes poderás errar sendo surpreendido com uma bela flor que nasce em campo  estéril e infértil. Na tua profissão de preparador de solo é teu dever cuidar dele adubando-o e regando-o até que se torne apropriado para o plantio, bem como é tua missão saber que todo o chão pode produzir diferentes tipos de flores, desde que não descuides dele.
Não demonstres preferências ou apego a determinado solo, semeia em todos eles para que obtenhas um vasto jardim florido.
Não reclames das dificuldades e das adversidades, se há muitas pedras no teu caminho, procure retirá-las com paciência e determinação; se a semente cai entre a vegetação impiedosa que tenta sufocá-la e impedir que nasça, ajuda-a para que respire e cresça, assim como é teu dever separar a boa semente da erva daninha que nunca deve ser lançada devendo ser arrancada quando necessário, se nascer entre as flores.
E nunca se esqueça:
O bom ensinamento transforma, lapida, fortalece. O bom exemplo será seguido e multiplicado. O altruísmo da tua ação salvará a Terra e todos os homens que nela vivem...

domingo, 14 de junho de 2020

Fala-se muito em racismo, preconceito de cor, raça. Entretanto, creiam,o pior deles é o de classe social. Sofremos diariamente com isso e, particularmente em mim, calou-me fundo desde à infância através da figura de minha mãe...




Toddler Ribbon Skirt tutorial | Fantasias para festa, Fantasias, Looks

Fantasia de fitas

Vai longe o tempo, lá pelos idos de 1957 ou 58 quando comecei a me entender como gente. Ouvia sempre os queixumes de minha mãe, mulher mais trabalhadeira como aquela nunca vi em toda minha vida!
É, ela dizia num reclamar quase lamento, nunca me valorizaram. Meu sogro dizia sempre: vou dar os móveis de presente de casametno, só que, "conforme a noiva,serão os móveis". 
E assim havia sido, mobília simples para uma noiva de família pobre como ela. Que diferença para o presente da filha, requintado e caro naquela época. Isso foi tornando minha mãe uma pessoa amarga, baixa autoestima, angustiada. Doutra vez, lembro-me por volta de meus nove anos, necessitei de uma cirurgia; apendicite crônica; e ela costurando naquela semana inteira, trabalhando em lindo pijaminha branco de alpaca com detalhes de vivos verde-água nos bolsos da camisa e da calça. Mãos de fada, caprichosíssima em detalhes e acabamento, mas logo minha avó paterna chega em casa, e não lhe quero mal, absolutamente, que Deus a tenha em sua glória, uma vez que partiu há muito desta para uma melhor, ou pior, sei lá... Ao ver o pijama semiacabado que minha mãe labutava por terminar, pôs-se a chorar copiosamente, nos deixando constrangidos pela sua comoção enquanto pranteava e dizia entre soluços: "Não, não deixarei minha neta operar com um pijama desses, de forma alguma". Amanhã mesmo, irei ao bazar da Moda, (era um desses lugares frequentados por pessoas mais abastadas, economicamente na época em Araçatuba, residíamos lá por esse tempo) comprarei pijamas. Senti a decepção de minha mãe em seus bonitos olhos verdes que teimavam em segurar uma lágrima e, acho que desde essa época, ela foi se desvalorizando...
No dia seguinte, a caixa foi entregue com dois pijamas de jérsei (lembro-me até hoje, minha memória é fotográfica, não sei se isso é bom ou ruim), que nem se comparavam ao trabalho que estava fazendo, manualmente, muito mais valoroso e mesmo de melhor qualidade. E a frase que veio acompanhada com os pijamas, feriu mais do que navalha: "veja se se compara a esses trapos que você estava fazendo". 
Chorei muito, mas muito mesmo, ao ver o desalento e submissão de minha mãe, esperava que dissesse: "não, ela não vai usar esses pijamas, pode levar de volta, os meus são melhores, muito obrigada!". Contudo, abandonou seu trabalho, e lá estava eu no hospital com os tais pijamas de jérsei. Ah, como gostaria de dizer a minha mãe que essa foi uma lição ruim que ela me passou: não se dar valor.
 Gostaria de afirmar do fundo do meu coração, isso não se faz. Chegou um Carnaval, todas as primas com lindas fantasias compradas em bazares de prestígio da cidade e minha mãe, mais uma vez com suas mãos maravilhosas costurou uma fantasia de havaiana, lembro-me com detalhes: o cós era vermelho, se não me engano, e trazia preso nele várias fitas coloridas que iam até o comprimento do joelho, um top na mesma linha, muito bonitinho, enfim, qualquer criança no vigor da infância é muito linda. Entretanto,a fantasia era maravilhosa! 
E lá fomos nós para um clube da cidade chamado Clube dos Bancários. Não me recordo bem desse detalhe, mas vou inquirir minha mãe, ela deve ter pago para que entrasse no clube, não tínhamos posse, nem vida social de falsos ricos, meu pai era assalariado e dava duro em um frigorífico trabalhando e fazendo hora-extra para nos dar o sustento. 
Uma das primas, na verdade, filha adotiva de minha avó paterna, veio por obrigação nos cumprimentar rapidamente dizendo:"Que fantasia linda!" E logo se distanciou com as amigas em trajes luxuosos de dama antiga, sombrinha em rendas, cabelos arrumados, lindo vestido longo, espartilho e anquinhas, um luxo! Para minha mãe, isso foi o suficiente. Vi o resultado daquela observação rápida estampado em seu semblante onde o desânimo tomou lugar. 
Como criança que era, não percebi esse desprezo que ela disse estar no inconveniente comentário e o distanciamento rápido com  as amigas.
Isso calou fundo na alma de minha mãe. Sempre se acha inferior, isto fez com que preferisse se  afastar da vida social e familiar. Hoje, depois de bem amadurecida e calejada pelo efeito do tempo, a entendo perfeitamente! E tenho a dizer, que a pior forma de acabar com alguém é diminuir sua capacidade tendo como parâmetro a fútil vida social, a valorização do inútil e das convenções sociais, que passam por cima de sentimentos e valores preciosos que deveriam ser respeitados!

domingo, 24 de maio de 2020

Quanto tempo sem escrever nesse espaço... Não é falta de inspiração, é de tempo mesmo! Aliado ao desânimo de ter que escolher temas que não contrariem ideologias atuais... Sim, não há verdadeiramente uma liberdade na escolha de temas que devemos escrever, isso tolhe a criatividade, mesmo em um caderno aparentemente solitário como um blog. Mas hoje optei por uma crônica que volta a outro cotidiano mais antigo ...




Violão Seizi Tokyo | Folk | Eletro Acústico | Brown Burst - BarraMusic




Por onde você andará? 


Assistindo a um programa cultural erudito, coisa difícil de se garimpar nesses terríveis dias que estamos vivendo, onde o tema pandemia se repete nem digo diariamente, mas instantaneamente, o solista de violão, por sinal perfeito, de sobrenome Camarero interpretou uma linda melodia, composta pelo saudoso Dilermano Reis.
Como a nossa mente associa os fatos! Esse é um exemplo gritante de associação de ideias: de Dilermano, a Abismo de Rosas, música maravilhosa interpretada ao violão que muitos relacionam a temas bucólicos, sertanejos... Entretanto, a sonoridade, o conjunto harmonioso, carregado de tristeza, embala nosso espírito e nos leva muito longe no tempo e no espaço...
 E foi o que aconteceu comigo. Deixei de ouvir a TV, numa viagem pelo tempo, encontrei-me em um trem de ferro na década dos anos finais de 1960, contava então com meus róseos 15 anos, em todo o vigor da juventude! Por incrível que pareça, ainda me lembro da roupa que usava: um conjunto na cor ocre ou mostarda, composto por uma calça comprida, boca de sino e uma blusa sem manga, decote V, ornada com três sutaches coloridos a acompanhar o desenho da cava do decote. Várias pessoas da família acompanhavam a minha viagem até a cidade de Corumbá, Mato Grosso do Sul. Além de meus pais e irmão, minha avó paterna, um primo e meu namorado. Ao chegar ao destino, conheceria meu avô paterno, há muitos anos separado de minha avó. Ficaria hospedada na casa de um tio, irmão de meu pai e aproveitaríamos para uma consulta, digo, quase espiritual, com uma senhora chamada Cacilda, famosa por fazer curas milagrosas naqueles tempos. A fama dela crescera tanto, que todos iriam consultá-la, cada qual com seu problema de saúde. Mas isso não vem ao caso nesse relato.  
A viagem, sufocante, um calor abrasador e o trem acabava de quebrar pela segunda vez. O tédio, o desânimo  tomava conta de todos nós. Por sorte, meu namorado trouxera o violão, estávamos arranhando algumas músicas populares da nossa adolescência, quando ele se manifestou humilde, voz baixa, cabelos alongados, à moda da época, rosto simpático:
-Posso? - referindo-se ao violão.
Passamos o violão e com a habilidade de um virtuoso ele começou a tocar Abismo de Rosas. Fez-se silêncio mortal no vagão parado. Cada acorde tocava mais a alma, produzindo as mais variadas emoções. Não sei se a mim, um pessoa sempre muito sensível, apaixonada pela música erudita desde criança, quase me levava às lágrimas. Quando terminou, todos o aplaudiram comovidos, ele agradeceu tímido, sem soberba ou vaidade. Desceria logo, o trem já estava em movimento e logo chegou a Campo Grande, onde desceu. Nem me lembro do seu nome, contudo, ficou um vazio, uma lacuna  inexplicável no ar, que até hoje me frustra por nunca mais ter encontrado aquele artista silencioso.
Casada atualmente,  na idade madura, rosto marcado pelas experiências vividas,   depois de tanto tempo, ainda me pego cismando e pintando aquela cena, para mim emocionante e me pergunto, se estará vivo, morto, casado, solteiro,  sem a certeza de uma resposta concreta. Terá continuado  com sua música e seu talento? Ou tudo terá sido abandonado?
Na incerteza, uma única certeza, creiam, ele salvou aquela viagem enfadonha! 

terça-feira, 17 de dezembro de 2019



Boa-noite,

A falta de inspiração, inúmeras vezes nos leva a pesquisar temas diferentes e aleatórios para desenvolver, sem compromisso algum. Isto ocorre agora comigo. No intervalo de uma semana da comemoração do Natal, não encontro um assunto relevante para desenvolver, já postei uma mensagem  natalina...


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Recorrendo a um site de busca na internet, verifiquei que a data de hoje faz alusão à religiosidade, uma vez que é dia de São Lázaro. Eu, particularmente, uma católica de batismo, crisma e algumas missas apenas, desconhecia a vida desse personagem da história bíblica...
Li também, que no dia 17 de dezembro se comemora o aniversário do famoso compositor Ludwig Van Beethoven, do importante escritor brasileiro Érico Veríssimo, além do Papa Francisco.
Todos esses ícones são de grande valor para a história do mundo, contudo, alguma coisa já foi ouvida sobre eles. Assim, resolvi me deter na história de São Lázaro, por curiosidade e durante a pesquisa me perguntava, se seria o mesmo Lázaro que, segundo a Bíblia, Cristo ressuscitara.
Descobri que é a mesma pessoa, Lázaro, cujo nome traz a etimologia grega e significa Eleazar na língua hebraica, quer dizer “Deus ajudou”. 
Era um fervoroso e adepto da doutrina de Cristo, oferecia sua casa para reuniões clandestinas da fé cristã, tão condenadas e perseguidas na época. No período, residia próximo a Jerusalém, na cidade de Betânia, era irmão de Marta e Maria e a amizade que existia entre ele e o salvador do mundo era muito profunda. Tão profunda, que quando ele morreu, Cristo chorou e realizou um grande milagre; o da ressurreição de Lázaro após vários dias de sepulcro.
Os registros históricos ainda comentam sobre a ida dele para Lamaca, na ilha de Chipre, tornando-se um bispo da igreja católica; da menção a dois túmulos para sua pessoa, uma vez que voltou da morte e, o mais surpreendente que não se trata de um leproso, cuja associação foi erroneamente considerada durante muito tempo.
Fico então a me perguntar a respeito da veracidade destes fatos tão perdidos no tempo e no espaço. Como crer neles, sem questioná-los, após inúmeras mudanças de postura que sofrem...
Muitos afirmam que é o mesmo Lázaro, o leproso, o ignorado e isolado homem condenado ao convívio de todos pela sua doença altamente contagiosa e sem cura na época.
Que me perdoe a Igreja Católica, porém torna-se difícil acreditar na vida de todos esses santos e na verdade sobre suas vidas. Talvez, mesmo não sendo prováveis esses episódios, a grande lição que ele nos passa é a da lealdade  acima de tudo, colocando em risco a própria vida a serviço da amizade.
Sendo este Lázaro, aquele que sofreu com a Hanseníase, fica a mensagem de um tempo cruel, sem recursos ou avanço da ciência, onde o reverso da medalha apresenta um quadro de discriminação desumana aos infelizes portadores dessa moléstia, relegando-os ao isolamento e exclusão da sociedade. 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019









E eis que outro Natal se avizinha, amarrado, lento, a passos de tartaruga...


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 Todo o Natal chega despercebido para mim, sempre acontece assim: muitos afazeres; a profissão exige demais e paga muito pouco pela quantidade de tarefas,  e a responsabilidade que elas encerram. Afinal, ser professor consciente não é serviço fácil, principalmente na atualidade, onde se tem a percepção da desvalorização do magistério a cada dia que passa. Um trabalho praticamente invisível para o estado, dificilmente suportado pelos alunos que não têm mais a disposição e vontade de desenvolver um currículo pesado como é necessário para a luta da vida profissional. Infelizmente, convivemos diariamente com casos escabrosos de discentes que mal conseguem escrever com letra cursiva razoável (aliás, diga-se de passagem, um problema de alfabetização que acompanhará o indivíduo por toda uma vida). Aprendi com a própria vida não ficar lamentando: em breve, acredito seriamente no fim da letra cursiva, apenas a digitação virtual restará...
Mas não estou aqui a escrever nestas páginas para enumerar as mazelas da educação, pois a matéria renderia um livro de muitas páginas... Iniciei citando o porquê da minha surpresa de todos os anos perante os primeiros ares natalinos.
Não consigo obter tempo suficiente para tudo que tenho que fazer nesta época: compra de presentes para todos, arrumação de enfeites e decoração, (consegui com dificuldade armar a pequena árvore e pendurar uma guirlanda semiartesanal na porta da entrada do apartamento); limpeza de casa, afinal, a festa de Natal será aqui em casa, dia 24; casa cheia para o almoço, graças a Deus. Dessa forma, tudo deverá estar organizado e limpo.
É preciso força, garra e saúde para dar conta de tudo nestes meus 68 anos... Entretanto, vou conseguindo com paciência, força de vontade. Não tive ainda tempo livre para fazer tudo o que preciso, geralmente as férias escolares vão começar já com o Natal batendo  à nossa porta. Aí sim, ele chega rápido, parecendo propositalmente nos deixar uma maratona para preparar tudo...
Volto a afirmar que isso não é  o mais importante, fazer uma ceia, um almoço, ter a árvore repleta de mimos e presentes que serão oferecidos àqueles que nos são caros, mesa farta e casa em ordem...
Há a grande necessidade de que o coração seja limpo, a alma seja pura, a consciência social esteja presente para o entendimento de  que a muitos não será possível nem sequer um alimento decente para colocar na boca, e isso muito me oprime e entristece: pessoas jogadas como lixo pelas ruas, subvivendo de migalhas, de esmolas, corrompendo o corpo e a mente para conseguir enfrentar a pesada jornada da vida.
Principalmente no Natal, não deve haver espaço para futilidades materiais de que muitos se ocupam; deve ser momento de reflexão, voltado a buscar formas de mudança para uma vida coletiva melhor. E a Educação que poderia realizar esse milagre, entregue às moscas e às traças por descuidos e despreparos de administração pública, pela negligência e ociosidade de muitos profissionais da área... Olha eu de novo batendo na mesma tecla, já disse que o assunto aqui é Natal...
Outro detalhe que borra a felicidade completa nesse dia de festa é a falta daqueles que já se foram, que fazem pesar a sua ausência e que são motivo de lembrança por um simples detalhe que aparece à mesa, ou na casa de maneira geral... Uma flor no vaso, um sorriso simpático, uma piada oportuna...
A vida é assim. Curta, passageira e carregada de momentos mais tristes do que alegres, (sabedoria daqueles que já passaram da idade adulta). Porém, para os mais jovens, é sinônimo de felicidade,  (percepção infanto-juvenil que enxerga o mundo cor de rosa e maravilhoso). E como é bom ter a ilusão da infância e da juventude! Ainda, em minhas reminiscências, guardo na memória os Natais de outrora sem nenhuma mácula, dor ou tristeza...
Contudo, é essencial que a vida continue, que a despeito de nossos sentimentos, respeitemos o desejo e necessidade de todos, que comemoremos com entusiasmo a paixão pela vida enquanto ainda a temos. Feliz Natal para o mundo e que tempos melhores consigam chegar para todos!